Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 217 | Ano 22 | SET 2017
L. F. VERÍSSIMO
COLUNISTA

Tolerância

 

Telerância

Ilustração: Ricardo Machado

Ilustração: Ricardo Machado

Pior do que os jovens encenando os seus rituais macabros são os políticos que os apoiam velada ou abertamente, como Donald Trump

Ironia. Os pais da pátria americana inventaram o colégio eleitoral para evitar que algum demagogo ou incapaz chegasse à Presidência da nova República pelo voto popular.

Isto é, imitaram o modelo político greco-romano de governo por uma casta, que pode ser chamado de democracia mas não demais, confiando que isto impediria a eleição de algum Trump.

E foi o colégio eleitoral que elegeu o demagogo e, sabe-se agora, incapaz Trump, com menos votos populares do que a Hillary.

Discute-se agora, nos Estados Unidos, o fim do colégio eleitoral para tornar as eleições mais democráticas.

Mas uma discussão sobre democracia mais consequente, pois é uma questão mundial, é a dos limites da liberdade de expressão em sociedades ameaçadas por manifestações fascistas cada vez mais frequentes.

Jovens carregando tochas e gritando slogans antissemitas, como em Charlottesville, estão exercendo a liberdade de reunião e opinião asseguradas numa democracia, por mais repelente que ela seja, ou nenhuma democracia pode tolerar a pregação aberta de ideias tóxicas sem combatê-las como se combate qualquer outro tipo de epidemia mortal?

Manifestações fascistas não nascem de patologias individuais ou do nada. O fascismo tem uma história, um prontuário de crimes, um catálogo de horrores.

A juventude dos que participam de marchas neonazistas não os desculpa, eles optaram conscientemente por um movimento que não esconde sua truculência e tem um passado notório.

Pior do que os jovens encenando seus rituais macabros são os políticos que os apoiam velada ou abertamente, como Trump, e os teóricos da superioridade racial que não saem à rua.

Resta a questão dos limites da liberdade de expressão em países em que a onda fascista sobe e testa a tolerância democrática.

Talvez o debate deva ser entre, de um lado, a tese de que as democracias se fortalecem quanto maior a tolerância exigida delas, e, de outro, a tese de que a democracia deve ser tolerante, sim, mas até o limite do suicídio.

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