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Nº 218| Ano 22 | OUT 2017
INTERVALO

A professora, a doutora e as cucas

Por César Fraga
Lissi, especialista em Língua, Cultura e Literatura Alemã, faz das cucas objeto de estudo e uma grande paixão

Foto: Arquivo Pessoal

Lissi, especialista em Língua, Cultura e Literatura Alemã, faz das cucas objeto de estudo e uma grande paixão

Foto: Arquivo Pessoal

“Somente podemos valorizar o que conhecemos e cujo valor reconhecemos”. A afirmação é da professora Lissia Bender, doutora em Ciências Socias – Antropologia Cultural – pela Universidade Eberhard Karls, de Tübingen (Alemanha), especialista em Língua, Cultura e Literatura Alemã, tradutora, escritora, comentarista cultural e cronista. Em 2016 foi agraciada com o Prêmio Distinção Imigração Alemã no Rio Grande do Sul.

Professora da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), Lissi tem seis livros publicados que abordam, sob vários aspectos, a relação da culinária alemã com a antropologia. Em parte significativa dessa obra, a pesquisadora fecha ainda mais o foco das suas especialidades. Ela analisa a cultura dos seus antepassados e a evolução da linguagem até chegar nas famosas cucas surgidas na Europa, cujos primeiros registros datam do século 9 e que ganharam aromas e sabores brasileiros quando os imigrantes tiveram contato com novas frutas e ingredientes locais.

A culinária típica, segundo ela, é viva e evolui como a linguagem. “Não existe jeito certo”. As cucas, para a professora Lissi, são além de objeto de estudo, uma grande paixão, pois são uma saborosa forma de expressão cultural e social, assim como o dialeto alemão falado pelos colonos e seus descendentes. “Fiz doutorado em Ciências Sociais – Antropologia Cultural – para conhecer e entender melhor esse mundo do passado, os bens culturais trazidos para o meu lugar de viver; entender como os imigrantes e seus descendentes constituíram vida e vivenciaram sua cultura e língua neste novo espaço em que suas vidas medraram”, define.

“Entre esse patrimônio de imensurável valor se encontram as delícias da mesa. E entre as delícias da mesa se encontra a rainha de todas, a cuca – o Kuchen”, explica

Foto: Acervo Pessoal

“Entre esse patrimônio de imensurável valor se encontram as delícias da mesa. E entre as delícias da mesa se encontra a rainha de todas, a cuca – o Kuchen”, explica

Foto: Acervo Pessoal

Ela explica que Santa Cruz do Sul passou a ocupar um lugar especial no cenário da história do Rio Grande do Sul, quando inaugurou em 1849 a segunda fase de colonização no estado. A cultura e a língua alemã entraram aqui em contato com um outro mundo natural e, com o passar do tempo, com outros mundos culturais. Em 1937, o uso da língua passou por um severo processo de restrição, que iniciou com a proibição do idioma nas escolas dos colonizadores a partir de 1937, promovido pela Campanha de Nacionalização do governo ditatorial de Vargas. Porém, em meio a toda sorte de experiências no tempo e no espaço continua viva a língua e muito da cultura por ela suportados. “Entre esse patrimônio de imensurável valor se encontram as delícias da mesa. E entre as delícias da mesa se encontra a rainha de todas, a cuca – o Kuchen”, explica.

A Streuselkuchen, enquanto iguaria tradicional, especialmente para receber visitas, presente em festas familiares e comunitárias, tem uma bela e longa tradição. Porém, faltam registros. Antigos livros de receitas remetem para a sua origem na Silésia – região histórica pertencente à Polônia, à República Checa e à Alemanha, no século 16. Outros dão conta da presença da cuca na Prússia oriental e ocidental durante o século 9. Atualmente, quando se passeia pelo centro de Hamburgo, por exemplo, pela via para pedestres, pode-se degustar uma generosa fatia de Streuselkuchen. Seu sabor e textura se igualam à cuca de açúcar feita em Santa Cruz do Sul. Desse modo, existem em Santa Cruz cucas com frutas desconhecidas do grande público alemão – como a de abacaxi, de chuchu, de melancia de porco, de coco, e na Alemanha existem cucas com frutas pouco conhecidas do público santa-cruzense, feitas com frutas frescas como amora, groselha, framboesa, mirtilo ou cereja.

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