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Nº 218| Ano 22 | OUT 2017
MARCOS ROLIM
COLUNISTA

Os liberais do pelotão

Movimentos sociais denunciaram censura à exposição Queermuseu junto ao Santander Cultural, no centro de Porto Alegre

Foto: Igor Sperotto

Movimentos sociais denunciaram censura à exposição Queermuseu junto ao Santander Cultural, no centro de Porto Alegre

Foto: Igor Sperotto

A tradição ‘liberal’ brasileira convive muito bem com o fascismo e se alia, naturalmente, com a Idade Média. Não por acaso, a maioria de nossos autoproclamados “liberais” apoiou a ditadura militar e um pequeno grupo ainda se refestelou financiando a tortura

O Brasil vive a pior crise dos últimos 30 anos, não apenas quanto ao presente de recessão, desemprego, corrupção e desmoralização da política, mas quanto ao futuro de incerteza e desesperança. Crises são vividas esporadicamente por todos os países e o Brasil já passou por muitas delas. O que torna a atual crise particularmente grave é a ausência de futuro que parece ter se emboscado nela.  Em síntese, chegamos ao ponto da utopia zero, à realidade da transcendência impossível e da anulação da própria noção de projeto. O Brasil de hoje é uma caricatura que se amplia e deforma, sem que se vislumbre no horizonte sequer uma promessa digna de credibilidade.

Nesse espaço de negação do futuro, é o passado que se avoluma. Alguns episódios recentes ilustram o processo, como a atuação do movimento de extrema-direita chamado Movimento Brasil Livre. O MBL, como é mais conhecido, se afirma “liberal”, vale dizer, reivindica uma tradição importante do pensamento político que, historicamente, sustenta a ampliação dos espaços de autonomia dos indivíduos diante do Estado. O liberalismo do MBL, entretanto, é tão verdadeiro quanto uma nota de três reais. Para os liberais, o Estado deve se afastar tanto quanto possível da economia, para que o mercado regule a ação dos agentes econômicos. Assim, afirmam, seriam selecionados os melhores produtos e os preços mais competitivos.

O liberalismo, entretanto, não é apenas um discurso sobre a economia. Os liberais são também árduos defensores da liberdade de expressão e dos direitos individuais. A própria ideia de “direitos humanos” é uma conquista liberal, que emerge nos processos das revoluções norte-americana e francesa. Liberais não toleram que o Estado se intrometa na vida privada das pessoas e repudiam a censura.

Em temas polêmicos como aborto e drogas, costumam defender que as mulheres devem decidir se interrompem ou não a gravidez e sustentam que os cidadãos maiores de idade têm o direito de escolher o que desejam consumir, ainda quando optam por produtos eventualmente danosos a sua saúde. O liberalismo valoriza também a tolerância e, por consequência, a laicidade do Estado. O processo de secularização que caracteriza a idade moderna foi construído pela tradição liberal, o que – ao lado do ideal democrático – assinala a maior ruptura com a herança medieval.

O Brasil, entretanto, não possui liberais. Por aqui, se repete os mantras econômicos do liberalismo, mas se reivindica do Estado políticas de proteção aos interesses dos grandes empresários e juros subsidiados. Para os “liberais” brasileiros, o Estado deve ser “mínimo” para os outros e “máximo” para eles mesmos. Como se não bastasse, a tradição “liberal” brasileira convive muito bem com o fascismo e se alia, naturalmente, com a Idade Média. Não por acaso, a maioria de nossos autoproclamados “liberais” apoiou a ditadura militar e um pequeno grupo ainda se refestelou financiando a tortura.

Em Porto Alegre, a exposição Queermuseu, no Santander, com mais de 270 obras, foi fechada, porque o MBL e seitas fundamentalistas produziram uma narrativa em que a mostra aparece como “blasfema” e orientada pela “pedofilia e pela zoofilia”, realidades que só descrevem a imaginação doentia dos seus autores. Após agressões verbais a visitantes, ameaças de morte pela internet e uma ação coordenada para reduzir a avaliação da página do banco, o Santander encerrou a exposição, pedindo “desculpas a todos os que se sentiram ofendidos”, assumindo assim, vergonhosamente, o discurso de seus detratores. Não faltou quem classificasse o banco de “comunista”, sem se dar conta de que a simples justaposição das duas palavras é uma contradição em termos. De lá para cá, um delegado de Campo Grande (MT) ordenou o confisco de um quadro e um juiz em Jundiaí (SP) proibiu a exposição de uma peça em que uma atriz transgênero faz o papel de Jesus. No momento em que escrevo esse texto, o fato de uma criança – estimulada por sua mãe – ter tocado a perna e a mão do artista Wagner Schwartz, que fazia performance nu no Museu de Arte Moderna em São Paulo, pode redundar em um processo e o MBL renova a narrativa lisérgica da “pedofilia” e do “ataque aos valores do povo brasileiro”.

Por trás dessa polêmica obscurantista que propõe a censura e prepara as fogueiras onde deverão ser queimados livros, filmes e obras de arte “blasfemas”, há a manipulação política descarada em favor de Bolsonaro que declarou que os responsáveis pela exposição deviam ser fuzilados. Sim, com todas as letras, o “mito” apresentou seu verdadeiro programa de governo: o pelotão de fuzilamento. Outro liberal, com certeza.

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