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Nº 219 | Ano 22 | NOV 2017
FRAGA
COLUNISTA

Trabalho escravo

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Já que o Governo Temer está mesmo disposto a adotar o trabalho escravo (custe o que custar em verbas para a base aliada aprovar o projeto), não posso me calar. Eis minha contribuição para que a nova regulamentação trabalhista não cometa os mesmos erros do período escravagista anterior. Depois não digam que os humoristas só criticam.

Expediente – Para começar bem esse programa, a carga horária tem que ser rigorosa, sob pena de não escravizar. Se taxistas e motoristas de ônibus (escravos exemplares há décadas) conseguem cumprir jornadas de 12, 14, 16 horas, talvez seja possível alcançar 18 ou mesmo 20 horas para o trabalho braçal. Haveria intervalos, claro, ninguém é desumano a tal ponto: um minuto por hora. Quer dizer, quanto maior a carga, mais intervalos! Dessa forma nem seriam cogitadas horas extras, esse horror dos tempos da extinta CLT. Quanto à folga semanal, para não haver contradição convém chamar de folga mensal.

Feitor – É preciso evitar contratar essa valiosa mão de obra entre pessoas sensíveis, sujeitas à comoção já nas primeiras chibatadas. Tipos assim comprometem o projeto. Sugiro indivíduos experientes em maus tratos com o povo. Militares e policiais expulsos de corporações, nem importa o motivo. Precisam é ter um alto QI – quantidade de injustiça nos bíceps. Basta imaginar o rendimento de um profissional desses no campo ou nas empresas: apenas um bruto qualificado poderia amedrontar e controlar até 100 pessoas! Com a vantagem de, em caso de pouco sadismo, serem castigados pelos próprios colegas.

Chibata – Deve ser sustentável. Quer dizer, nada de couro legítimo: é matéria-prima essencial para coleiras do mercado de pets, não deve ser desperdiçada no lombo de gente suada.  Melhor substituir logo por tecido sintético imitação de couro, sem a maciez dele. Pode ser importado de qualquer país oriental, assim o Brasil prestigia o trabalho escravo internacional.

Ração – O escravagismo deve ser o mais econômico possível. E o ponto crucial, além da inexistência de salário, é a alimentação regrada pelo bom senso. Uma mínima equipe de desnutricionistas pode estabelecer níveis baixíssimos de ingestão calórica. Se os spas têm programas dessa eficiência, então que haja igual jejum no trabalho escravo. Milhões de escravos magros significa ausência de colesterol, de obesidade e massa corporal com zero % de gordura. Aliás, a farinata do Dória seria uma opção inovadora. Calculem a redução dos gastos no Ministério da Saúde!

São modestas sugestões, tomara que possam ajudar o Governo Temer. Caso seja bem-sucedido (com o inestimável apoio do empresariado explorador), se tornará o maior capataz, digo, presidente na história mundial a escravizar 206 milhões de seres numa canetada só!

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