Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 220 | Ano 22 | DEZ 2017
PALAVRA DE PROFESSOR

Democracia e simulacro

Por Lucas C. Roxo*

Como compreender o revés que a democracia brasileira sofreu nos últimos quatro anos? Talvez o conceito de simulacro nos ajude a pensar. O simulacro é ilusório e quando articulado com o poder, é violento.

Nos últimos quatro anos no Brasil, configurou-se vários elementos do jogo aparente do simulacro na política, na democracia e na mídia. O primeiro deles são as ruas. A partir de julho de 2013, quando ‘as ruas’ bradavam ser apartidárias, tornou-se receptáculo de interesses de uma minoria, considerada pela mídia cidadãos de bem – um outro simulacro. Quando ‘as ruas’ são usadas por outros grupos com interesses políticos contrários aos da mídia ou de determinada classe social são taxados de vândalos, bandidos e baderneiros.

O povo – este simulacro de interesses escusos –  passou a ser mais uma categoria usada para justificar interesses políticos de uma minoria como se fosse a vontade de todos. Essas categorias foram usadas pela mídia e seu exército de analistas, os políticos e a elite empresarial para deslegitimar aquilo que dá poder ao povo, a democracia. O povo brasileiro agindo contra si mesmo. O simulacro destruindo a realidade que o legitima. Uma violência simbólica capaz de corromper as mentes mais politizadas. Não escapou nem mesmo a democracia, a qual foi convertida em possibilidade de salvação do Brasil, como se ela fosse algo externo ao Estado. Ela foi usada como argumento ‘pelas ruas’ e pelo ‘povo brasileiro’ de forma ingênua e, depois, desmontada pelos interesses do mercado. A democracia no Brasil é um simulacro que se autodestruiu.

O simulacro mais perverso e sedutor é a corrupção. Foi com ela que todas as dimensões e instituições do Estado foram absorvidas. A corrupção na democracia se tornou um simulacro porque pode ser personificada moralmente. Os exemplos mais típicos são o PT, Lula e Dilma, de um lado, Temer, Aécio, PSDB e PMDB, de outro. Os três primeiros foram personificados como corruptos e os demais como honestos. A corrupção para ser extinta precisa também de um simulacro que personifique a moral contrária a ela, identificada no juiz Sérgio Moro. Mas como é da natureza do simulacro ser um receptáculo falso, descortina-se no jurídico, ser um. O que era moral e honesto, tornou-se imoral e ilegal. No jogo do simulacro político, o ilegal se justifica como excepcional e justo. Essa é a condição do Estado Democrático de Direito brasileiro – um Estado de exceção imoral e ilegal. Nele, os discursos de normalidade e funcionalidade institucional são usados para negar a crise dos poderes do Estado, configurando-se em mais um simulacro.

Na fluidez ilusória do simulacro, não há fato, não importa o fato, há somente versões e narrativas de encobrimento.

*Filósofo, professor na Fundação Bradesco e consultor educacional

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