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21/10/2014
ENTREVISTA | JOÃO FERES JÚNIOR

Manchetes contra o governo são desproporcionais

Por César Fraga

O professor João Feres Júnior é o coordenador do Manchetômetro, um website de acompanhamento da cobertura midiática das eleições 2014 pertencente ao Laboratório de Estudos de Mídia e Esfera Pública (LEMEP). O LEMEP é um grupo de pesquisas com registro no CNPq, sediado no Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). O Manchetômetro não possui filiação partidária ou patrocínio de grupos econômicos.

Manchetes contra o governo são desproporcionais

Foto: acervo pessoal

Foto: acervo pessoal

Feres Júnior possui graduação em Ciências Sociais e mestrado em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas (1988 e 1997) e mestrado e doutorado em Ciência Política pela City University of New York, Graduate Center (1998, 2003). Foi professor de ciência política do IUPERJ de 2003 a 2010. É hoje professor de ciência política da UERJ e da UNIRIO, editor da revista Contributions to the History of Concepts, coordenador no Brasil do Projeto de História Conceitual do Mundo Atlântico (Iberconceptos) e coordenador do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA). Trabalha atualmente com os seguintes temas: teoria da história conceitual, teoria do reconhecimento, teoria política, políticas de ação afirmativa, relações raciais e história dos conceitos de América, América Latina e civilização no Brasil e em outros países.

Extra Classe – De acordo com a análise do Manchetômetro, o que ficou mais gritante em relação as manchetes sobre os governos e os candidatos?
João Feres Júnior – É um padrão que você vê se repetir nas eleições faz um certo tempo no Brasil. Que é um viés contrário a candidatura da esquerda, vamos dizer assim, mais forte em relação ao Partido dos Trabalhadores (PT).

EC – Na comparação entre o período da reeleição de Fernando Henrique Cardoso, em 1998, em que vivíamos grave crise e o momento atual existe paralelo nas manchetes negativas contra o Governo?
Feres Júnior – Pois então, um dos argumentos que fazem para justificar o comportamento da mídia é justamente o seguinte: “mas você está vendo um grande viés contra a Dilma, contra o PT. Porém, a grande mídia não tem esse viés. A grande mídia tem uma coisa chamada contrapoder. Então ela se opõe ao poder estabelecidos seja qual for”. Para testar essa hipótese fizemos uma análise da eleição de 1998, porque em 1998 o FHC era do PSDB e concorria à reeleição, assim como Dilma hoje, só que pelo PT. Então, é um cenário similar com o que está ocorrendo agora, só que com os papéis invertidos. E na nossa análise, percebe-se claramente que a mídia foi favorável ao Fernando Henrique ou seja, foi chapa branca naquela situação. Isso, apesar de o país estar em crise econômica naquele momento, muito pior do que está hoje em dia. Aliás, sem comparação. Mesmo assim, eles criticavam muito mais o Lula do que o FHC.

EC – E como isso fica mais evidente, o senhor pode exemplificar?
Feres Junior – A gente trabalha com uma metodologia que chama análise de valência. Como funciona: você pega a notícia, a chamada e o texto e avalia se ela é neutra, positiva ou negativa em relação ao candidato. A gente faz isso pras capas de três jornais: Folha de São Paulo, Estado de São Paulo e O Globo e também no Jornal Nacional. E se você olhar os números no nosso site, o gráfico pra candidatos em 2014, você vê que a Dilma lidera com as manchetes negativas durante toda a campanha eleitoral, exceto por duas semanas, quando a Marina liderou.

EC – E essas manchetes negativas, elas são relativas às temáticas que influenciam na eleição, como questões econômicas, que não fazem citação nominal ou direta à presidência ou ao governo, ou apenas as manchetes que citam diretamente o governo?
Feres Junior – Os gráficos para candidato são apenas as notícias que citam diretamente o candidato em questão. Existe outro dado só para partidos, todos têm dados diários e semanais. Nesse caso (diário e semanal), a gente faz uma análise de oposição e situação, ali agrega os dados que são para o partido, para o governo e para os candidatos.

EC – E essa questão da economia, tem um recorte específico?
Feres Junior – Sim, temos um gráfico só para isso. A cobertura com o enquadramento da economia é altamente negativa. É como se o país estivesse em crise econômica. Muito negativa mesmo.

Segundo o sociólogo, pesquisador e coordenador do Manchetômetro, a mídia foi chapa branca com FHC e é desproporcionalmente contra governo Dilma, na comparação das campanhas de reeleição de 1998 e 2014

Foto: Reprodução Manchetômetro

Segundo o sociólogo, pesquisador e coordenador do Manchetômetro, a mídia foi chapa branca com FHC e é desproporcionalmente contra governo Dilma, na comparação das campanhas de reeleição de 1998 e 2014

Foto: Reprodução Manchetômetro

EC – Numa relação do primeiro pro segundo turno, houve um acirramento nessas manchetes negativas pro governo?
Feres Junior – O pico de manchetes negativas contra o governo federal obtivemos na segunda semana de setembro, às vésperas do primeiro turno. Agora caiu um pouco, mesmo assim, a semana de 5 a 11 de outubro, logo depois do primeiro turno, você verifica que a Dilma tem 15 manchetes negativas, enquanto o Aécio tem três, cinco vezes mais. E se analisarmos as neutras, Aécio tem 28, enquanto a Dilma tem 23. Ou seja, ele está sendo superexposto em neutras, que é um tipo de propaganda, como “o candidato fez isso, fez aquilo”, e ela, a presidente, recebe várias negativas no conjunto.

EC – E esse número de manchetes negativas contra o PT/Governo, elas não teriam uma proporção com o número de escândalos gerados?
Feres Junior – A gente não faz essa correlação, mas, o PT é o que recebe, de longe, as críticas mais negativas. Se você analisar a eleição de 2014, o PT recebeu na capa destes três jornais 377 manchetes negativas, enquanto o PSDB recebeu só 79. A disparidade fala por si.

EC – E que exemplos o senhor tem dessa desproporção nas abordagens, as mais gritantes.
Feres Junior – Assim como em 2010, a cobertura das eleições tem sido muito baseada em escândalos. Em 2010, teve um escândalo do PSDB e cinco do PT, esse ano o PSDB tem cinco e o PT seis. Mas, se você olha por número agregado, você tem 655 notícias para escândalos do PT, contra 215 do PSDB. Três vezes mais.

EC – Qual a sistemática da análise dos dados para esse levantamento?
Feres Junior – Nós temos uma equipe de 15 codificadores. Essas pessoas trabalham codificando as páginas todos os dias, eles preenchem os dados num sistema próprio e esses dados atualizam automaticamente a página do Manchetômetro.

EC – Esse trabalho está ligado a alguma universidade, algum projeto de pesquisa?
Feres Junior – Sim, está ligado ao Laboratório de Estudos de Mídia e Esfera Pública (LEMEP), da UERJ.

 

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