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16/05/2016
MOISÉS MENDES
COLUNISTA

Estudantes, não deixem os golpistas em paz

Estudantes, não deixem os golpistas em paz

Foto: André Tambucci / Fotos públicas

Foto: André Tambucci / Fotos públicas

Luiza Erundina sentou-se por duas vezes na cadeira de Eduardo Cunha, cercada de mulheres, antes e depois da consumação do golpe. Produziu a imagem que se contrapôs, por antecipação, à assustadora foto da República dos Coronéis de Michel Temer. A valente Erundina instalou, por alguns minutos, o comando feminino informal na Câmara, dias antes do anúncio do governo interino sem mulheres.

Os estudantes que estiverem em dúvida sobre o que fazer depois do golpe têm em quem se inspirar. A deputada é uma transgressora de 81 anos. Em São Paulo, onde foi prefeita, jovens continuam ocupando escolas públicas e pedindo de volta a merenda saqueada pela máfia que agia em conluio com políticos tucanos, todos empanturrados de superfaturamentos e propinas, mas livres e soltos.

Estudantes também começam a ocupar colégios públicos em Porto Alegre contra o sucateamento de salas de aula, do ensino e dos salários dos professores. E outros ainda farão a ocupação de escolas de Bagé a Vicente Dutra, porque faltam professores ou faltam cadeiras e até janelas, ou sobram goteiras.

No Congresso, os instrumentos da política formal estão agora a serviço da maioria que sustenta o golpe. Então, façam o que os estudantes de Paris fizeram em 68, quando os governantes esperavam controlar as rebeliões manejando líderes identificados como velhos comunistas e anarquistas. Os jovens conduziram o levante porque eram politicamente incontroláveis.

Não desperdicem a chance da rebeldia. No próximo golpe, vocês poderão ter a metade da idade de Luiza Erundina (mais golpes virão). Assumam com os professores a vanguarda da resistência. Provoquem seus mestres para saber mais.

Estudantes, não deixem os golpistas em paz

Foto: Mídia Ninja

Estudantes ocupam a escola Júlio de Castilhos, em Porto Alegre, a maior do Estado

Foto: Mídia Ninja

Pesquisem, estudem e percebam que em momento algum, em nenhum lugar, jovens reacionários ofereceram qualquer contribuição aos avanços civilizatórios. Jovens ultraconservadores envelhecem na puberdade. Não sejam depois adultos atormentados pelo que deixaram de fazer.

Não repitam a retórica dos Bolsonaros e dos Caiados. Divirtam-se, pelo menos, com as entrevistas que os Zés Agripinos concedem aos sábados ao Jornal Nacional, tendo ao fundo um vaso suspenso com samambaias éticas.

Não percam tempo decorando os nomes dos Odoricos Paraguaçus do governo de Michel Temer. Desistam de entender por que o Mendonça Filho (vaiado pelos funcionários do Ministério) vai orientar a educação nacional e indicar os descaminhos para a cultura. Derrubem a tese de Fernando Henrique Cardoso segundo a qual o Brasil resignou-se ao golpe sem contestações. Não ocupem somente as redes, ocupem também as ruas.

Sejam estudantes na integralidade. Conversem com os que poderão orientá-los sobre a convergência de lutas de jovens e trabalhadores. Inspire-se nas primeiras manifestações do inverno de 2013.

Interroguem-se sobre os poderes do pato amarelo da Fiesp, que agrega grandes empresários e hipnotiza o pessoal liderado pelo Paulinho da Força Sindical. Perguntem por que o novo ministro da Justiça é o sujeito que reprimia os estudantes paulistas. Mas não se esforcem para entender por que Padilha, Geddel, Jucá, Moreira Franco e Roberto Jefferson são personagens da mesma foto.

Instiguem seus professores a falarem sem receio desse tempo de sombras. Conversem, ouçam, respeitem, não deixem de querer aprender com o golpe. E, se quiserem, compartilhem com os colegas o desejo de chegar aos 81 anos com alma de quem tem 17.

Sejam estudantes com intensidade, porque esse tempo vai embora de repente, quase sem avisar, e muitas vezes leva junto a democracia. Não deixem os golpistas em paz.

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Moisés Mendes publica quinzenalmente, a partir de abril, artigos exclusivos no www.extraclasse.org.br.

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