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10/05/2016
SAÚDE

Líderes religiosos defendem doação de órgãos

Representantes de diferentes crenças se manifestam favoráveis aos transplantes, mas admitem que o tema é pouco debatido nas comunidades
Da Redação
Religiosos debateram doações de órgãos em evento promovido por ONG

Foto: Igor Sperotto

Religiosos debateram doações de órgãos em evento promovido por ONG

Foto: Igor Sperotto

O aumento no índice de negativa das famílias para doação de órgãos e tecidos que, pulou, em 2015, dos constantes 30% para 40%, conforme dados da Central de Transplantes do Estado, está preocupando autoridades do assunto, bem como quem está na fila de espera por uma doação e entidades ligadas ao tema. No Brasil, conforme a legislação, apenas com autorização familiar pode haver a captação.

Lucia Elbern, da ONG ViaVida

Foto: Igor Sperotto

Lucia Elbern, da ONG ViaVida

Foto: Igor Sperotto

Segundo o coordenador da Central de Transplantes do Rio Grande do Sul, Cristiano Franke, foi detectada uma tendência à ampliação da negativa familiar e, no Brasil, o percentual é ainda maior. Foi constatado que 11% das famílias que negam a doação o fazem por motivos religiosos. Em janeiro deste ano, o percentual de negativa familiar no Estado era de 37%, o mesmo índice se mantendo em fevereiro. No mês de março, entretanto, chegou a 52%. Em janeiro foram contabilizados 25 doadores efetivos. O número subiu para 28 em fevereiro, mas caiu para 18 em março.

“Isso acontece embora praticamente todas as religiões sejam favoráveis, pois elas tem em comum princípios de solidariedade e amor ao próximo”, argumenta Lucia Elbern, presidente voluntária da organização Não Governamental Viavida. Preocupados com o fato, representantes da entidade, junto com instituições religiosas que formam o Grupo de Diálogo Inter-Religioso de Porto Alegre, promoveram, em 9 de maio, um encontro no Palácio do Ministério Público do estado, aberto à população, para debater questões sobre a religiosidade e a doação de órgãos e tecidos.

Dados do Censo e 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que em torno de 92% dos brasileiros definem-se como adeptos de alguma vertente religiosa. Porém, os próprios representantes das religiões presentes ao encontro admitem que o tema é muito pouco debatido em suas comunidades, por ser relativamente novo.

Ahmad Ali, do Centro Cultural Islâmico

Foto: Igor Sperotto

Ahmad Ali, do Centro Cultural Islâmico

Foto: Igor Sperotto

“Apesar de haver religiões milenares, como a minha, esta é uma matéria recente, até poucos anos atrás, nada constava, nem se sabia o que era isto”, informa Ahmad Ali, do Centro Cultural Islâmico. Mas ele reconhece que, com o avanço da ciência, das tecnologias e do conhecimento, trata-se de um assunto que merece aprofundamento. “A religião islâmica se coloca ao lado dos avanços, das conquistas do ser humano e a doação de órgãos e tecidos é uma destas conquistas para tornar a vida permanente”.

Rabino Guershon Kwasniawski

Foto: Igor Sperotto

Rabino Guershon Kwasniawski

Foto: Igor Sperotto

O rabino Guershon Kwasniawski, coordenador do Grupo de Diálogo Inter-Religioso, revela que, ao contrário do que possa parecer, no judaísmo há diversas linhas de pensamento. “Na sua maioria, todos concordam com a necessidade de doação de órgãos e tecidos, pois o judaísmo diz que devemos escolher a vida, este é o valor supremo”. Mas ele reconhece que há setores ultra ortodoxos que não concordam porque a filosofia judaica prega a chegada de um Messias e, quando isto acontecer, haverá a ressurreição dos mortos. “Muitos acreditam que o corpo tem que estar completo e isto gera polêmica em relação à doação. Alguns creem que o fato de mexer no corpo é uma forma de profanação”.

Segundo o rabino, “lamentavelmente, não se fala muito sobre o tema. Existem assuntos que abordamos quando bate na nossa porta e, só aí começamos a pensar, o que é um grande erro. Nós, religiosos, temos nossa responsabilidade de difundir em nossas comunidades o debate sobre a doação de órgãos e tecidos”. Ele destacou que a maioria das linhas judaicas defendem tudo que seja a favor da vida e do estudo. “O importante é salvar a vida, sem olhar a quem”.

Padre Luís Carlos de Almeida

Foto: Igor Sperotto

Padre Luís Carlos de Almeida

Foto: Igor Sperotto

Pela fé católica, o padre Luís Carlos de Almeida concorda que há necessidade de avançar no diálogo. “Ampliar a conscientização sobre a necessidade de doar passa a ser fundamental”. Ele prega que as lideranças ajam mais nas suas localidades buscando a sensibilização para o tema da doação. A igreja considera o transplante um ato meritório e se baseia nos princípios da defesa da vida do doador e receptor, na salvaguarda da identidade da pessoa e no consentimento esclarecido, ou seja, a difusão de uma cultura doadora.

Lea Boss, da Federação Espírita do Rio Grande do Sul

Foto Igor Sperotto

Lea Boss, da Federação Espírita do Rio Grande do Sul

Foto Igor Sperotto

Durante o encontro, uma participante afirmou que muitos familiares dizem seguir o espiritismo para negar a doação dos órgãos e tecidos da pessoa que morreu. A representante da Federação Espírita do Rio Grande do Sul, Lea Boss, explica que isto é desconhecimento da doutrina, que se baseia no tripé ciência, filosofia e religião. “O tema é amplo e suscita reflexões, não podemos ignorá-las”.

Para ela, transplante significa uma bênção de oportunidade e fraternidade. “Estamos tratando de abnegação e desprendimento do corpo físico”. Lea argumenta que o corpo humano é veículo a ser cuidado enquanto está aqui . “Mas, quando da desencarnação, temos de trabalhar nosso desapego. E, se nossos órgãos puderem beneficiar outros, em nada fere a doutrina”. Considera que todo ato de doação, feito de forma tranquila e pacífica, ocasiona uma melhor aceitação do receptor. “De um ato de vontade e abnegação resultará bastante sintonia”. A representante do espiritismo considera, contudo, ser fundamental que, em vida, a pessoa deixe bem claro o desejo de ser doador junto a seus familiares.

Monge Fernando Ryushin Sedano

Foto: Igor Sperotto

Monge Fernando Ryushin Sedano

Foto: Igor Sperotto

O monge Fernando Ryushin Sedano informa que o zen budismo se pauta pela compaixão e colaboração entre os seres, razão porque é defensor de transplantes. “No budismo, não há regra fixa ou estática, tudo depende do momento. Mas, na morte, este corpo já não serve mais. Na nossa doutrina a doação é perfeitamente aceita para que a vida possa continuar em outra pessoa”. Sedano diz que, no budismo, não importa se a pessoa quer ou não, o essencial é que a vida seja mantida.

“Se este órgão não for doado, servirá de comida para outros seres. Então, por que não dar continuidade à vida de outro ser humano?” Ele detecta o medo da mutilação para algumas negativas, mas considera a necessidade de conscientização. “É justamente neste momento que temos de respirar e ver o mais apropriado a ser feito”.

Negativas vêm da falta de informação

Para a presidente da Viavida, Lucia Elbern, as negativas das pessoas em se colocarem como doadoras de órgãos e tecidos é reflexo da falta de informação e de conhecimento sobre os diversos temas envolvidos e a complexidade do assunto deixam as pessoas com muitas dúvidas e receosas de doar. “Nosso encontro tem a finalidade de fornecer fundamentos para que as famílias possam agir, respeitando suas crenças e a do possível doador, buscando reduzir o número de negativas à doação por motivos religiosos”.

o coordenador da Central de Transplantes do Rio Grande do Sul, Cristiano Franke

Foto: Igor Sperotto

Cristiano Franke, coordenador da Central de Transplantes do Rio Grande do Sul

Foto: Igor Sperotto

Os voluntários da ONG defendem ser preciso educar a população, com o apoio das diversas religiões, visando a estimular uma reflexão sobre o que significa doação de órgãos e tecidos. Segundo Lucia, há que se considerar a realidade médica, como os três diagnósticos de morte encefálica – que é a morte irreversível – a integridade do corpo post-mortem ao enfrentar mitos e fantasias das pessoas, “em acordo com as leis vigentes e seguidas de forma muito séria no Brasil sobre todo o processo de doação/transplantes”.

Ao final do encontro, todas as lideranças religiosas concordaram ser necessário ampliar o debate em suas comunidades. “Falamos muito pouco sobre o assunto. Não quer dizer que não seja relevante. Cabe a nós aprofundar a discussão, já que temos uma população muito ligada às religiões. Não podemos ter estatísticas tão baixas em função de desconhecimento. São criados muitos mitos e precisamos derrubá-los”, defende Guershon Kwasniawski. Fundado em 1994, o Grupo Diálogo Inter-Religioso surgiu para derrubar barreiras e preconceitos, diz o rabino. “Existem várias formas de se levar a espiritualidade e todas são válidas. Não existe uma realidade única”.

Lucia lembra que, pela legislação brasileira, cada cidadão tem direito a receber transplante pelo Sistema Único de Saúde (SUS). “Mas acredito que este cidadão também tem o dever de avisar sua família sobre a decisão de ser um doador, de salvar vidas”.

Doações no primeiro trimestre de 2016
Rim: 54 em janeiro, 62 em fevereiro, 44 em março
Fígado: 18 em janeiro, 5 em fevereiro, 13 em março
Pulmão: 2 em janeiro, 5 em fevereiro, 4 em março
Coração: 1 em janeiro, 1 em fevereiro, 3 em março
Fígado/rim: 2 em janeiro, 0 em fevereiro, 0 em março

Número de transplantes de tecidos (jan/mar 2016)
Córnea: 48 em janeiro, 56 em fevereiro, 68 em março
Esclera: 19 em janeiro, 8 em fevereiro, 9 em março
Osso: 47 em janeiro, 27 em fevereiro, 26 em março
Pele: 3 em janeiro, 4 em fevereiro, 8 em março

Lista de Espera em março de 2016:
Rim: 855
Fígado: 161
Medula óssea: 147
Pulmão: 73

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