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29/06/2016
MOISÉS MENDES
COLUNISTA

Por que a direita ama Vargas Llosa

Mario Vargas Llosa poderia requerer adicional de insalubridade a cada visita ao Brasil para palestras organizadas por neoliberais, ultraconservadores ditos liberais e, enfim, a direita explicitada ou dissimulada. Llosa é uma estrela, um Nobel em meio à indigência do pensamento reacionário.

É bom conferencista e ensaísta e ainda tem no histórico a experiência frustrada como candidato a político. É também um ex-esquerdista que aderiu ao liberalismo econômico. A direita se afeiçoa muito por ex-esquerdistas e os paparica como pode.

Não interessa se em questões mais complexas (os enganos de certa arte contemporânea, por exemplo) ele e seus ouvintes não se entendem. Importa que Llosa fala o que eles querem ouvir e tem glamour para dizer que um impeachment, mesmo nas circunstâncias do que foi aberto no Brasil, é “saudável para a democracia”.

Eles amam Vargas Llosa e ele retribui com gentilezas. Por gostar do Brasil, vive por aqui. Há pouco esteve de novo no Fórum da Liberdade, o grande acontecimento do ultraconservadorismo, e no Fronteiras do Pensamento – que não se dirige à mesma turma, mas o acolhe em nome da diversidade.

Mario Vargas Llosa poderia requerer adicional de insalubridade a cada visita ao Brasil para palestras

Foto: Cecilia Larrabure/Fotos Públicas

Senador Aécio Neves (PSDB/MG) cumprimenta Vargas Llosa, presidente da Fundação Internacional para Liberdade, em seminário sobre a América Latina, no Peru, organizado pela entidade presidida pelo escritor em março de 2015

Foto: Cecilia Larrabure/Fotos Públicas

Llosa é o arroz de festa da direita. Mas não há nada que possa acrescentar como novidade ao discurso liberal e à matraca dos medianos: livre mercado, menos Estado, menos impostos, liberdades amplas e irrestritas (desde que retóricas), pau nas esquerdas e nas utopias e, se preciso, um golpe.

O que seria desse pessoal sem o desprendimento do sempre presente Vargas Llosa. Estariam aplaudindo Rodrigo Constantino, Diogo Mainardi, Demétrio Magnoli, Arnaldo Jabor ou algum engenheiro religioso de Massachusetts, num rodízio permanente de pregadores de segunda linha.

A direita perdeu consistência. Nem Henrique Meirelles, um prático, vinha conseguindo refletir, como articulista, com alguma profundidade sobre o que pensa (e agora faz) em nome da salvação pela austeridade. Meirelles é um prestativo, nunca será um aprendiz de Roberto Campos.

É assim que Vargas Llosa aparece como salvador, para endossar até o golpismo. Com sua eloquência e seu vigor narrativo, a direita fica literária.

Outro que o conservadorismo brasileiro idolatra, num estágio abaixo, é o americano Francis Fukuyama, o cenarista que ganhou fama e fortuna com uma previsão furada.

Fukuyama anunciou, nos anos 90, uma pilantragem chamada O Fim da História. Os valores da democracia, da ética e das liberdades ocidentais triunfariam e passariam a orientar a humanidade.

O mundo articulou uma série de eventos para responder a Fukuyama. Os valores ocidentais são confrontados, desde muito antes do 11 de Setembro, com guerras infindáveis, conflitos tribais-religiosos, com a crise dos refugiados, a barbárie do Estado Islâmico, o crescimento da xenofobia, do racismo e da homofobia no mundo civilizado e, agora, com a ameaça isolacionista do Reino Unido.

Por isso os dois, Vargas Llosa e Fukuyama, estão sempre por aqui. Porque o pensamento conservador que representam (o americano com alguma autocrítica) contempla as demandas de um público que se acostumou com o conforto da repetição, mesmo que equivocada.

A direita não depende mais de gente como eles para orientar suas ações, mas apenas para dar charme aos seus eventos e mostrar que é possível estar em boa companhia.

O atraso brasileiro se sustenta mesmo no pragmatismo do Congresso que fez o golpe, no suporte de um Ministério Público e de um Judiciário cada vez mais vulneráveis a dúvidas e suspeitas e na reaglutinação das forças empresariais (e sindicais) reacionárias do país.

Com um Eduardo Cunha (descartado depois de feito o serviço sujo), um Michel Temer, três centenas de deputados de má fama, um grupo de senadores manobráveis e uma mega-operação anticorrupção politicamente orientada, a direita não precisa de mais nada.

Ideias que estejam um pouco acima do pensamento básico apenas divertem seus membros bem instruídos. A direita não precisa mais de referências intelectuais e teóricas, mas somente do enfeite de velhos pontos de vista bem embalados.

Tudo é somente espetáculo. Vargas Llosa, que vem se dedicando a estudar os impactos da cultura do entretenimento de massa, sabe que aparece aí de vez em quando só para isso mesmo, para entreter esse pessoal e, se for preciso, ajudar na tentativa de legitimar o golpe.

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