Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
28/07/2016
MOISÉS MENDES
COLUNISTA

Jornalismos e liberdades

O cinismo nacional transferiu para a Turquia as atenções dos paladinos da liberdade de imprensa. Velhos aliados dos golpes no Brasil (inclusive o mais recente) lamentam com ardor que o governo autoritário, mas eleito, de Recip Erdogan esteja perseguindo jornalistas.

Erdogan caça repórteres e seus patrões e fecha jornais, rádios e TVs, com o argumento de que tentaram derrubá-lo. É um cenário que já merece acompanhamento dos organismos internacionais. Mas não merece o cinismo dos que condenam golpes e repressores apenas fora do Brasil.

Jornalismos e liberdades

Foto: Reprodução TV Al Jazeera - Erdogan vs Gulen: Behind Turkey's media crackdown

Foto: Reprodução TV Al Jazeera - Erdogan vs Gulen: Behind Turkey's media crackdown

 

O caso da Turquia é exemplar de como a exacerbação de conflitos políticos reproduz sempre a mesma bobagem: a liberdade de expressão é um direito absoluto. Absoluto mesmo, como diria um ajudante do diabo, nem Deus em seus melhores momentos.

Todos têm o direito de dizer o que pensam, desde que assumam a responsabilidade pelo que dizem. É acaciano. Até nas creches turcas sabem disso.

Liberdades essenciais (e eu defendo a liberdade de expressão com radicalidade) não podem ser impostas pelos que as contrariam.

Quem prega ideias totalitárias não tem legitimidade para defender a liberdade de expressão, se esta é contrariada pela própria pregação. No Brasil ou na Turquia.

Ah, dizem alguns, mas é assim que funciona a democracia, com o amplo direito de opinião inclusive aos que a questionam. Não, não é assim. Nem para turcos, tampouco para suecos, austríacos, italianos ou mexicanos.

Conspiradores que se armam contra a democracia devem se submeter às leis e às instituições que a protegem. Muitos setores da imprensa nacional, que se apresentam em defesa de colegas turcos, são os mesmos que em 1964 estiveram ao lado de golpistas civis e militares e agora, em 2016, ajudaram a fomentar o golpe no Congresso.

Por isso é interessante o debate sobre a prisão de mais de 40 jornalistas turcos acusados de terem participado da tentativa de golpe militar.

Golpistas (jornalistas, empresários, advogados, engenheiros, militares, professores, comerciários, juízes, ou de qualquer outra atividade) devem ser julgados como golpistas. É o que a democracia, em sua plenitude, continuará fazendo universalmente.

Só no Brasil os golpistas do século 20 (incluindo os torturadores que a eles prestavam serviços) saíram impunes. Inclusive na imprensa, que já teve sua postura analisada pelo próprio jornalismo e por pesquisadores da universidade (o livro 1964, de Jorge Ferreira e Angela de Castro Gomes, da Civilização Brasileira, é um bom exemplo do mapa do adesismo da imprensa antes e depois do golpe de 1964. Vamos esperar que alguém faça o mapa do golpe de 2016).

Os golpistas dos anos 60, inclusive dentro dos jornais que agora se rebelam contra a perseguição aos colegas das redações turcas, nada fizeram para pelo menos atenuar a caçada aos jornalistas brasileiros pelos militares e seus cúmplices.

Muitos perseguidos buscaram o exílio. Os que ficaram, sem direito a trabalhar no que sabiam fazer, viraram vendedores de livros e pecúlios. Os agora preocupados com os jornalistas turcos são os que, em muitas circunstâncias, ajudaram a ditadura brasileira a perseguir os próprios colegas.

É claro que, no caso turco, o governo aproveitou o ambiente de revanche para perseguir inimigos. Mas é falaciosa a defesa indiscriminada de golpistas em nome de um corporativismo à distância que só encobre outros discursos, como o da liberdade de expressão absoluta.

Golpistas, invariavelmente, são apegados ao direito apenas da opinião que eles defendem. Para dizer o óbvio, que os turcos saibam julgar os suspeitos de terem participado do golpe e que libertem os inocentes.

Mas golpistas são golpistas em qualquer parte, sendo jornalistas, deputados ou generais. Eu temo muito os jornalistas golpistas.

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