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15/08/2016
MOISÉS MENDES
COLUNISTA

Francisco no mundo dos pokémons

Francisco no mundo dos pokémons

Foto: reprodução Instagram

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Muitos dos que se agarram ao papa Francisco como referência, quase como salvação, são da geração que submeteu a Igreja Católica, seus líderes e suas pregações a julgamentos implacáveis na segunda metade do século 20.

A Igreja não nos salvaria de nada, nem depois desta vida, pois estava de conluio com o diabo para nos enrolar. E hoje o papa – e não a Igreja! – é quase só o que nos resta de lastro moral e político íntegro, como figura mundial, num ambiente de líderes frouxos, indecisos, omissos ou imorais.

É o papa Francisco, muito mais do que o Obama decidido do final do mandato, a figura que atenua nosso desamparo.

A geração hoje ao redor dos 60 anos, que perseguiu, achou e extraviou utopias, teve heróis (faça a lista dos seus) e amaldiçoou a Igreja, agarra-se agora a um papa preocupado com a vida terrena.

Francisco ocupa o vácuo das nossas carências políticas. As crises do século 21 não têm equivalentes para os líderes convencionais que ajudaram a salvar o século passado (um Franklin Roosevelt), ou fora da linha (um Gandhi), ou revolucionários (um Fidel). A política há muito tempo é dos táticos, de uma Angela Merkel ou mesmo de um Obama.

No Brasil, a referência de certo público desiludido com a política é Sergio Moro. Não é brincadeira. Já foi Joaquim Barbosa. Quase foi, no desespero, uma Janaína Paschoal.

O mundo do século 21, em que as mulheres, os gays, os refugiados e os diferentes são estupradas, massacrados, perseguidos e rejeitados não cabe mais no espaço gasoso da política institucionalizada.

Instituições, autoridades, lideranças da política formal fracassam todos os dias, nos pequenos e nos grandes gestos. A política das representações, dos eleitos, dos indicados, dos ungidos a alguma missão em nome de algo que tenha a ver com a democracia não tem um equivalente de Francisco porque está muito preocupada em salvar a si mesma. Talvez, um Mujica, mas Mujica não chega a ser um nome mundial.

É quase inacreditável, para quem esnobou a Igreja a partir da adolescência e passou a cultuar o ateísmo quase como religião, que o papa argentino diga o que quase ninguém consegue dizer hoje.

O racismo, a homofobia, a xenofobia e a defesa do ambientalismo são as grandes questões do papa. Não são questões da Igreja. São de Francisco. E nós, tão racionais, tão dedicados a enxergar o mundo pelas luzes das ciências, temos um religioso a nos sensibilizar.

A geração que rejeitou a Igreja e suas vozes conservadoras foi desamparada pelos políticos, pela Justiça, pela ONU e pela sociologia que tudo explicava. As gerações que se socorrem do papa foram traídas por seus sonhos, pelo marxismo, pelas esquerdas, sem nenhuma outra forma de compensação.

Francisco é o nosso papa feminista, nosso escudo contra o avanço do reacionarismo mundial. Não é a religião que nos socorre, mas o cara que fala em nome dela. Passamos a depender de um sujeito que chegou ao posto que ocupa para ser dogmático e inflexível.

O papa é o político do século 21. Se estivermos enganados, terá sido apenas mais um engano, enquanto o mundo se distrai com as caçadas aos pokémons.

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