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04/11/2016
MOISÉS MENDES
COLUNISTA

Allende, os convertidos e as mulheres

Allende, os convertidos e as mulheres

Foto - Esquerda: Getty Images | Direita: reprodução

Foto - Esquerda: Getty Images | Direita: reprodução

Houve um tempo em que era possível eleger alguém como Salvador Allende. Os mais velhos deveriam falar hoje aos estudantes que ocupam as escolas sobre esse tempo tão ensolarado quanto improvável.

O socialista Allende foi eleito presidente do Chile há exatos 46 anos, na primavera de 1970, e tomou posse no dia 3 de novembro. Os estudantes adoravam Allende, a utopia latino-americana que durou apenas três anos.

Muitos dos exilados brasileiros que fugiram da ditadura de 1964 perambularam por outros países e finalmente buscaram refúgio seguro no Chile de Allende, até sua morte depois do golpe de Pinochet em 1973.

Alguns daqueles exilados vivem hoje no Brasil como abnegados convertidos à direita. Fernando Henrique Cardoso e José Serra são os mais conhecidos deles. FH era professor da USP em 64. Serra era presidente da União Nacional de Estudantes, a poderosa UNE.

Os estudantes que ocupam agora as escolas, para resistir às “reformas” da educação propostas pelos golpistas, devem saber disso – tanto os do ensino médio quanto os universitários. Para que cresçam, amadureçam e cheguem à idade adulta sempre alertas à sedução do reacionarismo e entendam o papel dos novos algozes dos avanços sociais e das esquerdas.

É assim, por algum descuido, como diziam os líderes dos estudantes do maio de 1968 na França, que um homem pode até virar o avesso do que foi em seu tempo de rebeldia.

FH confessa que nunca participou de nada de importante na Paris do fim dos anos 60, onde estudava. E de Serra pouco ou quase nada se sabe sobre o que fez até retornar ao Brasil em 1977 (dois anos antes da anistia…). Mas ambos eram dados como perigosos esquerdistas e desfrutaram dessa fama por um bom tempo.

Os dois – e outros que não merecem ser citados – passaram a circular, após a criação do PSDB, como os homens charmosos da ‘social-democracia’ brasileira. Há muito tempo são alguns dos inspiradores do liberal-conservadorismo nacional. A última linha no currículo de ambos precisa citar o protagonismo que tiveram no golpe que derrubou Dilma Rousseff.

Mas pra que falar disso agora, se os estudantes, as circunstâncias e os contextos políticos são outros? Porque é preciso entender as trajetórias que se entortam, do caminho da resistência juvenil à acomodação da política dos convertidos.

A melhor notícia hoje é a ampliação da participação das mulheres nos grupos de liderança das ocupações estudantis que afrontam o golpe e seus desdobramentos. Mas seria simplista demais exaltar tal fato com abordagens pretensamente feministas.

Também é tentador falar da performance da estudante Ana Júlia Ribeiro, de 16 anos, no já famoso discurso contra o desmonte da educação, na Assembleia do Paraná, e sugerir romanticamente que o Brasil é um país tomado de adolescentes politizadas. Não é.

Mas os cenários, aqui e em boa parte do mundo, inspiram o protagonismo das mulheres e o surgimento de mais Anas Júlias. Não foi o progressista Bernie Sanders o escolhido como adversário de Donald Trump na eleição americana. A maior aberração da política desde Hitler vai enfrentar uma mulher.

O confronto não se dá entre o ultraconservadorismo republicano e o sonho do socialismo democrata, mas entre primitivismo e civilização. Apesar das restrições que se faz à Hillary, o duelo tinha mesmo de ser com ela.

Mulheres saem às ruas no mundo contra estupros, assédios e toda forma de violência exercida pelos homens. Na Alemanha, a conservadora Angela Merkel enfrenta a extrema direita por concessões aos refugiados. Quem ataca Angela também por ser a mulher poderosa que se fragilizou diante de dramas alheios é outra mulher, a fascista Frauke Petry.

No Brasil, o golpismo expôs sua face misógina em vários momentos, até o desfecho do impeachment. O golpe foi o último recurso contra uma mulher e seus significados insuportáveis para a turma cansada de perder eleições e ver a ascensão de uma nova classe média nas lojas, nos aeroportos e nas universidades.

A revanche pode vir agora pela resistência feminina nos colégios. Elas estão na linha de frente desde o começo das passeatas do inverno de 2013. O jornalista Álvaro Andrade, autor de algumas dessas imagens, observa que as mulheres aparecem sempre em primeiro plano em fotos e vídeos, carregando faixas e cartazes. São elas que pedem a palavra em debates sobre a destruição da educação.

Torcer por elas, pelas alunas e pelas professoras, é desejar que as barricadas contra a destruição do ensino criem condições para o contra-ataque não só aos projetos do Palácio do Jaburu para a sala de aula, mas à arquitetura machista do governo.

As mulheres nos dão o direito de pensar que as bases da política no Brasil poderão ser outras, se conseguirem expandir o alcance de seus gestos.

Já terá sido muito se elas nos livrarem, daqui a alguns anos, de adultos que reprisem a triste caminhada de alguns dos combatentes da ditadura lá dos anos 60, hoje cópias maldisfarçadas dos que os perseguiam na juventude.

Que a juventude das mulheres do século 21 seja mais duradoura.

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