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24/02/2017
MOISÉS MENDES
COLUNISTA

Jucá e o bloco Ó Nóis da Suruburu

Jucá e o bloco Ó Nóis da Suruburu

Foto: reprodução das redes sociais

Foto: reprodução das redes sociais

Romero Jucá desce as escadas do Congresso alisando o bigode, quando uma senhora o reconhece e abre os braços.

– Meu ídolo, meu ídolo – ela grita e agarra-se à cintura do senador.

Jucá, um emotivo incorrigível, abraça a mulher demoradamente.

– Eu me chamo Rosa, participei de passeatas na Paulista, vesti a camiseta da Seleção, apoiei todos vocês na derrubada daquela… Vim de Curitiba só para conhecê-lo.

– Parabéns, minha nobre cidadã – diz Jucá, como se forçasse o sotaque de coronel de Roraima.

Dona Rosa estava no saguão do Congresso de tocaia, à espera do senador. Agarra Jucá pelo braço, com as duas mãos, e pergunta:

– Posso falar com vossa excelência?

– Só se for rápido, porque estou indo para uma suruba.

A mulher se contrai e faz cara de espanto:

– Pois é exatamente disso que vim tratar, se me permite. Eu sou religiosa. Vim dizer que não gostei da história das surubas.

O senador dá um pulo e uma risada, vira-se para o assessor que está ao lado, percorre com os olhos o corpo da mulher, ergue as mãos (que parecem imitar as mãos do homem do Jaburu) e exclama:

– Mas, minha cidadã, aquela suruba a que me referi é uma suruba figurada.

– Então me conte – diz a mulher.

– É uma suruba política. Agora há pouco aconteceu uma no Senado. A sabatina do Alexandre de Moraes foi uma festa esfuziante da nossa gente.

– Mas aquilo foi uma suruba? – indaga a mulher.

Jucá abraça dona Rosa de novo com força, tentando acalmá-la, e explica:

– Sim, foi parte de uma suruba maior, estratégica. Temos surubas todos os dias no Congresso. Participei de grandes surubas no governo, como ministro. Me correram de lá, mas eu continuo participando. Sairemos agora com o bloco Ó Nóis da Suruburu. Captou? É uma junção de suruba com Jaburu.

– Que ideia – diz dona Rosa, com os olhos arregalados.

O líder do governo no Senado dobra um pouco o corpo, abaixa a cabeça para falar mais perto do rosto da mulher baixinha, e finge murmurar um segredo no ouvido dela:

– Mas lhe conto que as melhores surubas mesmo são as do Judiciário e do entorno.

– Ó, meus Deus!!!

– Quando eu disse que, se derrubarem o foro privilegiado para políticos, é preciso pegar todos os envolvidos na suruba, eu quis dizer isso, que peguem também os juízes, os promotores, os procuradores, os desembargadores, os ministros do Supremo. Que peguem Judiciário e Ministério Público.

Dona Rosa ergue a cabeça, olha Jucá lá no alto, percebe que seu bigode grisalho é milimetricamente aparado e pede que ele conte mais, que não pare de narrar. Ele continua:

– Brasília é uma grande suruba, dona Rosa. Todo mundo participa. O Judiciário não poderia ficar de fora. Nem a imprensa fica.

– A imprensa? – espanta-se ela, com os olhinhos arregalados.

– Temos nossos amigos jornalistas. Muitos são recatados, disfarçam, dissimulam, mas pelo menos contemplam com admiração.

Dona Rosa quer saber se todos se envolvem ativamente. Jucá esclarece:

– Não, minha cidadã. Alguns só olham. São pessoas mais discretas. Outros participaram, saltaram fora e esperam a próxima suruba com outros participantes.

– Diga algum nome.

– Não posso. Eu somente daria nomes numa delação, mas nunca serei um delator, porque nunca serei preso.

E Jucá solta uma gargalhada que ecoa pelo saguão do Congresso e é ouvida pelas emas e pelos jaburus à beira dos lagos de Brasília.

– Eu sou o fanfarrão do golpe, dona Rosa. Eu digo o que a imprensa quer ouvir. Fui eu quem disse numa conversa com o Sergio Machado que era preciso fazer um acordo com todos, inclusive com o Supremo, para estancar a sangria da Lava-Jato. O acordo está andando.

– Eu acompanhei – diz dona Rosa, que junta as mãozinhas, como se estivesse rezando, com a boca entreaberta de admiração, e pede que o senador não pare.

– Pois eu disse tudo aquilo ao Machado sabendo que estava sendo gravado e que depois a conversa seria divulgada. Poderiam ter me acusado de tentativa de obstrução da Justiça. Mas nada. Eu continuo solto. O Padilha mesmo disse que o governo escala ministros medíocres em troca de apoio. Foi em uma palestra, pra todo mundo ouvir. Tenho reivindicado publicamente que o governo não esconda as nossas surubas. Eu sou pela transparência total e absoluta.

– Por isso eu admiro vossa excelência.

– Eu digo as verdades, e a imprensa nossa amiga se diverte, dando a entender que sou apenas um bobo alegre. Eu sou um zombeteiro. Mas a imprensa é mais cínica do que eu.

Dona Rosa volta a agarrar o senador pela cintura, como tiete mesmo. Ele não se esquiva do carinho, passa o braço em volta dos ombros da mulher, puxa a cabeça dela contra seu corpo e diz:

– Fique tranquila, minha cidadã. As nossas surubas são de outro feitio.

– Eu imaginei. Vocês derrubaram a Dilma em nome da família – diz a curitibana, que leva no peito um bótom com o rosto de Sergio Moro.

– Exatamente. Agimos em nome da família tradicional, com marido, esposa, filhos, sogra. E atuamos na defesa intransigente da moral e também da austeridade.

A mulher passa as mãos no rosto, quase em êxtase, e diz:

– Que Deus o abençoe.

Jucá aplica dois beijinhos no rosto de dona Rosa, que desce as escadas abanando e saltitando. E então o senador vira-se para o assessor e ordena:

– Liga para o Geddel e para o Padilha e pergunta se eles ainda estão a fim de uma suruba hoje.

Moisés Mendes | Jornalista, autor do livro Todos querem ser Mujica – Crônica da Crise (Diadorim Editora, 154 páginas).

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