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22/02/2017
ENTREVISTA | CHRISTOPHE AGUITON

Os novos extremos no mundo

Por Stela Pastore

Os novos extremos no mundo

Foto: Igor Sperotto

Foto: Igor Sperotto

Os novos movimentos sociais são mais autônomos e individuais, superando a lógica hierárquica e centralizada de partidos e sindicatos. Por trás disso, há mudanças na direita e extrema direita, que sinalizam também perdas na social democracia e na centro esquerda. Esta é a visão do sindicalista e ativista político francês Christophe Aguiton, que esteve em Porto Alegre durante o Fórum Social das Resistências.  Aguiton é o  responsável pelas relações internacionais da Associação pela Tributação das Transações Financeiras em Apoio aos Cidadãos (ATTAC), uma das entidades que organiza o Fórum Social Mundial desde sua criação em 2001.

Ele participou do movimento  Nuit Debout (Noite de pé),  em abril de 2016, na Praça da República em Paris, que surgiu espontaneamente contra a reforma trabalhista e por renda básica, que se estendeu por várias cidades francesas. Suas pesquisas e análises estão no livro O mundo nos pertence, em que apresenta uma radiografia das recentes lutas sociais e suas reações à “mercantilização do mundo” com entendimentos sobre o sindicalismo atual, desemprego, trabalho rural,  movimentos da juventude,  feminismo, a ação dos ecologistas e outros temas.

Essas legiões rebeldes se insurgem em diferentes países e se manifestam de forma autônoma, muitas vezes de modo caótico e contraditório, de uma maneira mais líquida, sem um comando. Estão conectadas por identidades. Podem ainda não ter uma nova utopia única e ordenada, mas se expressam de novos modos mostrando seu descontentamento, registra Christophe Aguiton. Ele argumenta que a alternativa à barbárie neoliberal é um desafio teórico e prático, do qual a construção já se iniciou. Ele compara essa horizontalidade dos novos movimentos com a metodologia adotada pelas entidades que organizam os fóruns sociais e demais fóruns regionais e temáticos desde 2001, mantendo a diversidade como melhor método, não a centralidade e a hierarquia.

Nesta entrevista, analisa as alterações na forma de luta social e organização frente à mobilidade propiciada pelas redes sociais, novas formas de trabalho e maior nível educacional e como esse ativismo se conecta com as lutas no espaço territorial nessa mudança de ciclo.

Extra Classe — Que mudanças se observam nos movimentos sociais nos últimos anos e quais suas características?
Christophe Aguiton — A forma de organização e mobilização atual mudou radicalmente do que conhecíamos até recentemente. Não funcionam mais com hierarquia como no passado. No século XX e até a pouco, a classe trabalhadora era considerada a única capaz de  conduzir este processo rumo ao socialismo ou ao que se convenha chamar; e os demais, como os  camponeses, deviam seguir. E esse movimento se guiava pelas orientações de um partido, que também era hierárquico e centralizador. Isso mudou profundamente faz cinco ou seis anos, depois da Primavera Árabe  e dos movimentos de  2015, na Espanha, com o Podemos, nos EUA, com o  Ocuppy, e outros países. Depois de 2011 houve outros movimentos, como no Brasil com o Passe Livre, como os turcos, as sombrinhas em Hong Kong, na França recentemente com o  Nuit Debout. Todos esses movimentos têm em comum serem individuais. Podemos ser integrantes, membros. Mas estamos na causa como indivíduos, como fulano, como sicrano, não como movimento, e isso coloca novos problemas.

Os novos extremos no mundo

Foto: Igor Sperotto

Foto: Igor Sperotto

EC — Que problemas ou desafios são esses?
Aguiton —
 Por exemplo, quando se está em um movimento hierárquico, com uma direção e aquela instituição fará um ato, mas, por alguma questão não poderá ser esta semana e remarca para outra, os integrantes se organizam para estar na data determinada pela direção. As pessoas se adequam ao calendário porque querem estar dentro do movimento. Mas quando é fulano, sicrano e tem um aniversário da sua mãe, do seu filho, qual a prioridade, qual o critério que determina que a prioridade do outro, do coletivo, seja maior que a minha? Isso cria uma situação muito mais difícil na condução dos movimentos, porque as organizações que conhecemos têm continuidade, tem estrutura, tem  memória, tem história. E as individuais são como fungos: crescem aqui, desaparecem, crescem noutra parte com outra temática. Essa é a realidade dos novos movimentos. Não sei se é bom ou ruim, mas devemos viver com esta característica, porque a maioria dos movimentos funcionará deste modo. Ver como se pode atuar com eles é toda a questão da rede. A internet é chave para a coordenação dessas pessoas e movimentos. Mas também a questão desta rede virtual e sua ação no território. São duas pontas que dialogam.

EC — Como é a relação desses movimentos de rede virtuais com o território, com o espaço físico local?
Aguiton — O território é central e cumpre papel muito importante para se conhecer as pessoas e estabelecer relações reais, presenciais. O encontro no espaço local da luta, da causa, da resistência. Isso é chave na articulação entre essas duas coisas: poder integrar o movimento em rede com o território. Na Primavera Árabe esses locais foram as praças. No Passe Livre, claramente foi no centro da cidade. Na França, foi na praça também. Eu vivo num bairro de Paris, e na Nuit Debout   fui à praça e conhecia muita gente. Estas são pistas dessas novas maneiras de  como viver com este movimento que tem um aspecto líquido demasiado forte. Cada sociedade tem um nível de fortalecimento do tecido social diferenciado. A sociedade norte-americana, por exemplo, é mais individualista; isto dá mais liberdades individuais, mas tende a gerar muita solidão.  Mas em outros lugares, com tecido social mais forte, como o mundo árabe, o efeito é outro.

EC — Este crescimento do individualismo é consequência do capitalismo, do descrédito nas instituições ou uma mudança de ciclo?
Aguiton — Obviamente o capitalismo inflexiona o individualismo no aspectos da concorrência, produtividade, meritocracia, regras que mudaram nos espaços de atuação profissional onde antes havia mais uniformidade. Mas também é uma profunda evolução e demanda da sociedade. É uma mudança que para mim não é tão negativa. Sei que na esquerda há pessoas que dizem que os vínculos do funcionamento mais articulado, com organizações, era melhor. As pessoas estavam em empresas, em um mesmo lugar, num determinado espaço físico e aquela forma de organização  era importante por estas razões. Eu entendo isso. Mas ao mesmo tempo as pessoas no passado não tinham tanta mobilidade,  estavam num lugar fixo, organizado. Hoje as pessoas são mais móveis, querem viver uma vida mais autônoma. Não tinham nível de educação muito alto como há hoje. Tem muito mais gente do povo na universidade, negros, indígenas e um nível educacional muito maior, 100 vezes maior que seus pais e antepassados. Tudo isso explica porque a individualização é produto de tudo isso.

EC — O que estas mudanças significam?
Aguiton — As pessoas querem sua autonomia. É uma profunda evolução em que a realização de si mesmo passa por ter essa autonomia. E essa autonomia, na grande maioria dos casos, não é individualista nem egocêntrica. As pessoas têm sentimento de solidariedade, compaixão e interesse muito forte pelos outros. E nas redes sociais, como na internet, apoiam esse princípio solidário. Mas querem mais liberdade. Essa maior autonomia nos permite ver todos os problemas desta individualização, sem supervalorizar a sociedade organizada, porque há aspectos sufocantes nela. Estar em sociedade e integrado em um sistema é positivo por exemplo quando alguma criança se perde e solidariamente todos buscam seus pais e se cria uma rede boa para recolocá-la na sua família. Mas quando se é adulto, a pessoa é homossexual, ou é mulher e quer trocar de parceiro, a pressão social te mata. As pessoas não querem se sentir obrigadas a casar aos 18 e estar condenadas a viver com a mesma pessoa para sempre. Não é essa vida que queriam ter.

EC — Quais as mudanças que se observam após a crise financeira de 2008 nas questões políticas e governos?
Aguiton — O ponto comum da crise financeira de 2007 e 2008 tem consequência em muitos países, especialmente na Europa e EUA em particular, com uma rejeição ao neoliberalismo. O resultado político disso é crescimento de duas novas forças: uma para a direita e extrema direita e de forças radicais de esquerda. Há cinco anos era muito claro para a maioria dos partidos de direita o neoliberalismo como pensamento único mundial, mercado livre, abertura das fronteiras comerciais, o Consenso de Washington determinando a ampliação do neoliberalismo na América Latina. Mas houve mudanças importantes para mudar a opinião pública frente às crises de 2007 e 2008 e réplicas dessas crises em diferentes continentes. Na Europa o que influenciou a mudança é a dívida pública e a política de austeridade; aqui no Brasil pode ser mais o preço das commodities – como petróleo e produtos agrícolas com o PIB e cria problemas que conhecemos.

EC — Quais as características dessa nova direita e onde se apresenta com mais força?
Aguiton — Podemos chamar essa direita xenófoba de novo populismo de direita, exorbitado com Donald Trump, na América. Na Europa, temos o Brexit na Inglaterra; o Partido Alternativa para a Alemanha (AfD),  que avança e lucra com a crescente insatisfação em relação à política de refugiados; a Frente Nacional da ultradireitista Marine Le Pen, e vários outros exemplos. Em cada país europeu podemos ver o crescimento  dessas ideologias  entre 25 a 30%. O racismo e a luta contra imigrantes muçulmanos se comparte na direita e extrema direita. A nova direita não tem as mesmas posições que antes. Temos um  triângulo com três tipos de posições: um desses ângulos é xenófobo, contra os direitos humanos, contra os imigrantes, com racismo. Outro ângulo  é muito antissistema,  antiglobalização, anti União Europeia. O terceiro ângulo tem diferenças em cada país e aparece com reivindicação de questões sociais. Isso é inteiramente novo.  Trump fala da necessidade em defender empregos e salários dos trabalhadores norte-americanos, isso não estava presente na posição de Bush. Mas os outros dois ângulos,  a rejeição dos mercados de livre comércio e a defesa do salários dos  trabalhadores não são da direita, são dos novos partidos extremistas.

EC — E na esquerda o que há de novo?
Aguiton — Ao mesmo tempo, na esquerda, houve crescimento de forças radicais. Em diferentes lugares como na Grécia, com o Syrizia; na Espanha, o Podemos; na França a Frente de Esquerda, com Jean Luc Melenchon; na Inglaterra, com Jeremy Corbyn, do velho Partido Trabalhista; nos EUA aos mesmo tempo que há Trump por um lado, há o socialista  Bernie Sanders. Isso é comum na maioria dos países. Quem perde neste cenário é a social democracia e a centro esquerda.

Os novos extremos no mundo

Foto: Igor Sperotto

Foto: Igor Sperotto

EC — As pessoas estão um tanto perdidas nesta mudança de ciclo. Em que ponto estamos?
Aguiton — Há três níveis de problema.  Um é a  instabilidade do mundo, consequência de Trump, Brexit, que gera incertezas. Isso é totalmente novo. Não era assim nos anos 90, por exemplo. Agora qualquer coisa pode mudar em um mês e isto dá as pessoas a  sensação de estarem  perdidas. A segunda questão complexa é como atuar nos novos movimentos, porque é mais fácil manter-se nas lógicas anteriores, centralizadas. Agora são movimentos de pessoas.  Veja como organizações tradicionais tiveram dificuldade em se posicionar e se manejar no movimento do Passe Livre no Brasil. Esse problema não é só brasileiro, é global. Para isto creio que há soluções. Mas aterceira questão é mais complexa com novos partidos de esquerda. Na América Latina não há esses novos partidos. Porque aqui se está na fase da queda e fragilidade dos partidos de esquerda que ganharam governos há 10, 15 anos e agora não estão mais. Primeiro é preciso fazer uma avaliação, um balanço, um debate sobre o que ocorreu. Isso precisa ser feito antes de tudo e não é simples. Depois é preciso reconfigurar e rearticular novas formas de esquerda. Penso que estamos nesse momento.

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