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21/02/2017
ENTREVISTA | MAHER HANINE

Solidariedade e resistência civil

Por Stela Pastore

Solidariedade e resistência civil

Foto: Abib Samoud/Acervo Pessoal/Divulgação

Foto: Abib Samoud/Acervo Pessoal/Divulgação

Não se amedrontar frente ao avanço da extrema direita e do fundamentalismo religioso; resistir, se organizar e acreditar na solidariedade, na união e no humanismo. A mensagem do tunisiano Maher Hanine durante a Assembleia dos Povos no Fórum Social das Resistências, realizado em Porto Alegre de 17 a 21 de janeiro, foi aplaudida pela plateia. Hanine é o representante da Tunísia no Conselho Internacional do Fórum Social Mundial e defende o poder da união das forças de esquerda de todo o mundo para superar os ataques aos direitos humanos, sociais e trabalhistas. Berço da Primavera Árabe desencadeada em 2010, a Tunísia inspirou movimentos por democracia, soberania, direitos humanos e liberdades individuais em vários países do norte da África e Oriente Médio e também foi alvo de ataques terroristas do Estado Islâmico. Em 2013 e 2015, sediou o Fórum Social Mundial. A Tunísia está em seu esforço de transição democrática para superar a ditadura. Formulou uma nova Constituição, considerada uma das mais avançadas do mundo árabe, e elegeu democraticamente um novo governo e um novo parlamento em 2014. A transição é lenta, com avanços e retrocessos. O país se equilibra na busca do aprofundamento da democracia. Confira a entrevista exclusiva para o Extra Classe concedida por Maher Hanine durante sua estada em Porto Alegre.

Extra Classe – Quais suas impressões sobre o avanço da extrema direita e como enfrentá-la?
Maher Hanine – Necessitamos refletir juntos o que fazer diante do avanço da direita. Uma direita que assume múltiplas expressões no mundo. Uma direita populista, nacionalista, que ameaça até com o retorno de um certo fascismo cultural, etnocêntrico com relação aos imigrantes, os estrangeiros, os africanos, os muçulmanos que vivem nos países europeus. Um populismo americano de direita também, fortemente apoiado pela mídia e financiado pelas empresas de petróleo. A direita na América Latina ameaça as conquistas sociais e as aquisições conquistadas pelo povo com a ascensão da esquerda, que governou durante alguns anos. E um populismo bastante violento, agressivo e extremista, à semelhança dos grupos jihadistas, terroristas e do Estado Islâmico, que ameaçam não apenas na região do Magreb e do Oriente Médio, mas uma parte da Europa. Pode dar a impressão de que o povo não se organiza mais e que vamos no caminho de uma guerra religiosa. Não acredito nisso. Acho que as pessoas não estão numa dinâmica de confrontação, as pessoas querem se amar, conviver, dialogar, e essa união e esse diálogo vem de pessoas que estão fora da direita. Consideramos que o desejo de união nos movimentos na sociedade é tanto que poderá combater as forças de direita, mesmo que seja por etapas.

EC – Como é a realidade na sua região?
Hanine – Infelizmente a região de onde venho foi totalmente dilacerada pelas guerras que têm a mão invisível de potências coloniais, potências estrangeiras, que fizeram do Oriente Médio mais uma vez uma região de litígio mundial. É a população civil que está pagando o preço. São os emigrados, as mulheres e crianças que deixam suas casas e se encontram nas estradas de países europeus, às vezes, acolhidos por humanitários e humanistas e, às vezes, rechaçados pelas forças de segurança europeias.

EC – Que estratégias comuns podem ser adotadas para fazer o enfrentamento à nova onda neoliberal que tenta varrer os direitos sociais
Hanine – Há uma necessidade de construir laços com o que eu chamo de sociedade civil de esquerda que existe em todo o mundo. É essencial que falemos a mesma língua, que não se refere ao idioma, mas ter as mesmas categorias de análise, as mesmas preocupações, os mesmos sentimentos humanistas. Tenho certeza de que assim como houve momentos fortes de luta contra o racismo, contra o Apartheid, contra a colonização, de apoio aos palestinos, bem como a luta pelos direitos das mulheres, haverá a luta também forte na defesa dos direitos dos povos e do planeta, acreditando que um outro mundo é possível.

EC – Como vê o processo do Fórum Social Mundial neste cenário?
Hanine – Há alguns anos fala-se que não há alternativas ao neoliberalismo, ao capitalismo e tenta-se dizer a toda população do planeta que é preciso aceitar os dogmas da economia de mercado, do negócio, da comercialização de todos os aspectos da vida. Mas as pessoas dizem não a este pensamento difundido pelo determinismo do capital. Dizem que existem outras respostas. Uma delas foi dada em Porto Alegre há alguns anos ao semear o Fórum Social Mundial. Porto Alegre deu muita esperança, deu muita razão ao povo e à nossa dinâmica. Finalmente, o povo está podendo ouvir a si mesmo, juntar-se e encontrar pontos de convergência e de conexão para lutar contra as forças neoliberais. Ao longo do caminho, houve momentos difíceis, momentos de reflexão, momentos de retomar nosso movimento e, de repente, veio a revolução do povo tunisiano, egípcio, marroquino e depois de toda a região, demonstrando que os planos de ajuste estrutural de impostos a essas populações deram a elas apenas pobreza, exclusão social, humilhação e um sentimento de ser de novo colonizadas.

EC – Sua manifestação na Assembleia dos Povos, no Fórum Social das Resistências, foi muita animadora e aplaudida ao convocar à resistência. Como fortalecer esse ideário?
Hanine – Os líderes dos movimentos sociais, os sindicalistas, os políticos, os escritores, os intelectuais assumem o dever de dar esperança em certos momentos. De dizer que a política é a arte do impossível. Que nos engajemos porque a constituição da nossa força é possível. Então, há duas tarefas: a primeira é dar um corpo sólido, um corpo fisicamente existente, que ocupe a rua, os espaços públicos, que esteja nas universidades, na sociedade. Esse corpo não é feito em mármore, pedra ou madeira, é um corpo vivo, que tem espírito, que tem alma. A alma é a solidariedade, é o afeto, a vontade, é querer mudar, é ser forte. O afeto quer dizer o sentimento de estar junto e ter atitudes fortes é essencial para não cair na desilusão e no niilismo. A América Latina nos mostrou durante anos que é uma terra do renascimento, da esperança sobre a qual podemos nos inspirar para um futuro revolucionário. Deve-se isso talvez à natureza, ao céu, à história, mas é verdadeiro. Nos apaixonou e nos convenceu a estar sempre numa dinâmica de esperança e não de desesperança.

EC – Como vê a questão do Brasil atualmente?
Hanine – O Brasil de Lula inspirou muitos movimentos progressistas no mundo e o Brasil de Temer é um Brasil triste. Tenho conversado com meus amigos brasileiros e eles têm mais elementos para uma leitura crítica e objetiva. Mas verdadeiramente houve um golpe da direita, digamos “constitucional”, um golpe político, para fazer a esquerda recuar. Vejo premissas de que a esquerda e os movimentos sociais no Brasil estão tentando se aproximar e juntar esforços para fazer, num primeiro momento uma avaliação do que se passou no Brasil e na América Latina, mas também para ter um plano de ação futura.

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