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20/03/2017
TÉLIA NEGRÃO
COLUNISTA

Da minha pilha de livros sai uma história das mulheres

Da minha pilha de livros sai uma história das mulheres

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Tenho sobre minha mesa, quase sempre, uma pilha de livros. Costumo lê-los e relê-los, acrescentando mais algum, como que para encontrar continuidades e descontinuidades. Neste exato momento, à minha direita vejo O Martelo das Feiticeiras (Malleus Maleficarum) escrito em 1484, encostado nele Mansfield Park, de Jane Austen, de 1814, e sob os dois, O Golpe de 2016 e a Reforma da Previdência – Narrativas de Resistência, organizado por um grupo de intelectuais que Gramsci chamaria de “orgânicos”.

À minha esquerda, minha pilha reúne, de cima para baixo, Direitos das Mulheres e Injustiça dos Homens, tradução livre feita em 1883 por Nísia Floresta, da obra magnífica de Mary Wollstonecraft, inglesa que a antecedeu, e sigo olhando A Mulher na Sociedade de Classes – Mito e Realidade, de Heleieth Saffioti, O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, Diez Palabras Clave Sobre la Mujer, de Celia Amorós. Sob todos, Mulheres, Feminismo e Ação Política no Brasil, recém lançado pela professora gaúcha Jussara Reis Prá, que trata da baixíssima presença das mulheres no poder e o significado de participação.

À exceção do “Martelo…” – exemplar autografado por Rose Marie Muraro, o escrito de inquisidores para enquadrar e mandar à fogueira ou cadafalso aquelas que por suas ideias, ações ou comportamentos eram inaceitáveis pelo estado teocrático com articulações de sexualidade e poder, as outras compõem um recorrido histórico do pensamento das mulheres ao longo do século. E mostram cabalmente que o desejo de uma vida mais igual e menos injusta tem ao menos uns quatrocentos anos historicamente contados.

Por que escolho abordar de forma tão trivial a trajetória do pensamento e da ação das mulheres? Simplesmente porque a vida como ela é me pregou peças esta semana: levou Lícia Peres, com quem convivi nos últimos 25 anos, ela que me abriu as portas para o movimento feminista no Rio Grande do Sul. Ela que tinha como luta maior a memória e a dignidade dos mortos e desaparecidos da ditadura militar no Brasil. Porque nessa despedida pude abraçar Enid Backes. Aos 86 anos mantém-se como um carvalho ao vento, sendo capaz de chorar e manter-se em pé. Suas mãos e braços são como galhos, que já não gostam mais de escrever ou fazer compotas, mas acompanham a música clássica que embala a sua vida. E porque nesse mesmo dia, no mesmo local, em outro momento, homenageamos Jussara Reis Prá, que recebia um título por sua contribuição teórica ao empoderamento feminino. Algumas poucas reunidas à noite em sua casa, brindamos às que se foram e às que aqui estão.

Não tenho o mesmo e consolidado conteúdo de Jussara para repetir suas palavras tão educadoras na Câmara Municipal. Me lembro que ela usou a expressão “elas que nos antecederam”, e isso me lembrou uma camiseta das dominicanas, que nunca permitiram o esquecimento das Hermanas Mirabal. Deram a vida pela luta contra a ditadura de Trujillo, assassinadas a pauladas quando retornavam à casa. Esse episódio originou o dia internacional de luta contra a violência à mulher.

Jussara falou de Christine de Pisán, que no século XV alimentou um debate literário e filosófico conhecido como Querelle des Femmes, e no qual com brilhantismo defende 4 mil versos romanescos sobre o florescer das rosas e mulheres com rosas inacessíveis e se contrapõe a 18 mil outros em que o amor é tratado como a satisfação dos instintos e domínio sexual. Um tema antigo, que insiste em permanecer entre nós. Beauvoir, em sua obra máxima (1949), diz lá bem no comecinho: “Hesitei muito tempo em escrever um livro sobre a mulher. O tema é irritante, principalmente para as mulheres. E não é novo. A querela do feminismo deu muito que falar: agora está mais ou menos encerrada. Não toquemos mais nisso… No entanto, ainda se fala dela. E não parece que as tolices que se disseram neste último século tenham realmente esclarecido a questão. Ademais, haverá realmente um problema? Em que consiste? Em verdade, haverá mulher?”.

Jussara seguiu seu discurso para citar Eleanor Roosevelt e Carole Pateman. Sobre essa última lembro-me da referência ao seu Contrato Sexual, uma classificação feita pela cientista política australiana da inclusão das mulheres no contrato social sem que as mesmas fossem ouvidas, passando a fazer parte da propriedade masculina. Dessa forma, permitindo a invasão desautorizada de seus corpos. Pateman costuma dizer que sem o reconhecimento como cidadãs repletas de direitos, as mulheres se submetem à condição de eternas mendicantes.

Nas últimas semanas essa ameaça proferida pela autora estava à tona. Como nunca se recorreu ao resgate das histórias de conquistas das mulheres nos campos econômico, social e político no Brasil mediante as duras medidas que pretende aprovar o governo atual. Além do congelamento de investimentos sociais por vinte anos, a redução dos recursos para as classes mais baixas do programa habitacional minha casa minha vida, a ilação acerca dos usos inadequados dos dinheiros da bolsa família repassados em 90% dos casos às mulheres, acima nossas cabeças uma nuvem de medo e insegurança. O medo de jamais poder se aposentar.

Fomos obrigadas a olhar para os anos da redemocratização do Brasil, nas décadas de 1980 em diante, e recuperar as lutas históricas empreendidas pelo Lobbi do Batom em favor das mulheres e a seguridade social como direito constitucional. Parece que no imaginário dos que habitam a capital federal somos além de absoluta minoria política – não mais que 10% dos que estão no poder – somos cama, mesa e banho, nascemos e morremos sem nenhuma importância, secundárias que somos na cidadania. O trabalho reprodutivo, que consiste em todo o universo de cuidados, gestação, parto, puerpério, amamentação, educação, enfim, reprodução social da espécie numa sociedade que ainda lança sobre as mulheres total responsabilidade, é mantido invisível pela reforma da Previdência. Retomamos, dessa forma, no mês de março alusivo às mulheres, bandeiras históricas referentes à segunda onda do feminismo, em que direito ao voto, ao trabalho e seguridade constituiu a coluna principal.

Uma das várias campanhas publicitárias lançadas pelos movimentos sociais reproduz retratos de mulheres como eu, ou minha mãe e Enid Backes, ambas da mesma idade, com a frase “Vocês não tem esse direito”. Ouvidos surdos preferem as vozes do mercado, da submissão do país ao realinhamento neoliberal, obviamente de narizes fechados. Pois o cheiro que se espalha vem também da carne podre dos que sustentam o projeto por ora vencedor, mesmo sem votos.

Olho de volta à minha pilha. Talvez tenhamos que ler Christine de Pisán ou retomar as teses de Angela Davis e Saffioti, para quem não se separa classe, sexo e raça. Nesse mês de março nunca fomos tão estruturalistas. Comentava-se muito nos atos que articularam as bandeiras da exploração e opressão, simbolizadas pelas palavras de resistência e luta pelos direitos sociais, por igualdade de gênero, contra o racismo e os preconceitos. Chega de eufemismos.

Do livro da Jussara Prá, destinado a analisar o significado de ação política das mulheres não restrita à política representativa e vinculado profundamente à participação e aos direitos humanos como critério de cidadania, copio um pedacinho de uma frase: “…é possível supor que os obstáculos que as mulheres enfrentam para exercer sua prática política sejam mais numerosos e onerosos do que é reconhecido previamente”. Acho que sim. Sabemos que dias valem por séculos. Mas que em poucos dias retrocedemos décadas. Como articular conquistas com mudanças culturais e elevação de consciências parece ser um desafio maior do que ler os 22 mil versos comentados por Christine de Pisán.

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