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04/04/2017
CIÊNCIA

A ameaça das superbactérias

Micro-organismos resistentes a quase todos os antibióticos conhecidos provocam 700 mil mortes por ano em todo o mundo
Por Gilson Camargo
Cultura da bactéria Shigella sonnei, em laboratório no Instituto de Biologia (IB) da Unicamp

Foto: Unicamp/ Divulgação

Cultura da bactéria Shigella sonnei, em laboratório no Instituto de Biologia (IB) da Unicamp

Foto: Unicamp/ Divulgação

A disseminação e o uso indiscriminado de antibióticos, interrupção ou erro na administração de medicamentos por pacientes, automedicação e falta de assepsia nos ambientes hospitalares estão selecionando e produzindo bactérias multirresistentes a quase todos os antibióticos conhecidos, um fenômeno que provoca, em média, 700 mil mortes por ano em todo o mundo. Ao divulgar pela primeira vez no início deste ano a lista de bactérias super-resistentes que devem ser combatidas com urgência porque representam uma ameaça a humanidade, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendou à indústria farmacêutica o desenvolvimento de novos antibióticos capazes de combater esses micro-organismos.

Durante encontro em Brasília, no final de março, para discutir estratégias conjuntas com a América Latina para o enfrentamento da resistência antimicrobiana, o comissário da União Europeia para Saúde e Segurança Alimentar, Vytenis Andriukaitis afirmou que as superbactérias já representam uma ameaça à saúde pública em nível global. “Desde a década passada, o Brasil adotou várias iniciativas em relação ao enfrentamento da resistência antimicrobiana, com medidas como a obrigatoriedade da prescrição do uso de antibióticos, com protocolos para utilização adequada de antibióticos em uso hospitalar, e o fortalecimento das ações de vigilância, pois é importante que cada país saiba exatamente qual é sua carga de infecções antimicrobianas, para que tenhamos dados confiáveis e capazes de serem utilizados pelos tomadores de decisões”, explicou o diretor-presidente da Anvisa, Jarbas Barbosa.

Os “agentes patogênicos prioritários” resistentes aos antibióticos constam de um catálogo de 12 famílias de bactérias que representam a maior ameaça para a saúde humana. A lista foi elaborada numa tentativa de orientar e promover a pesquisa e desenvolvimento de novos antibióticos, como parte dos esforços do órgão vinculado às Nações Unidas para enfrentar a crescente resistência global aos medicamentos antimicrobianos. “A resistência aos antibióticos está crescendo, e estamos ficando sem opções de tratamento. Se deixarmos as forças do mercado sozinhas, os novos antibióticos que precisamos mais urgentemente não serão desenvolvidos a tempo”, explica Marie-Paule Kieny, subdiretora-geral da OMS para Sistemas de Saúde e Inovação.

A lista é dividida em três categorias de acordo com a urgência de novos antibióticos: prioridade crítica, alta ou média. O grupo mais crítico inclui bactérias multirresistentes, que são particularmente perigosas em hospitais, casas de repouso e entre os pacientes cujos cuidados exigem dispositivos como ventiladores e cateteres intravenosos. Entre bactérias que desenvolveram resistência aos antibióticos de última geração, as mais comuns são AcinetobacterPseudomonas e diversas Enterobacteriaceae (incluindo KlebsiellaE. coliSerratia e Proteus).

São bactérias que podem causar infecções graves e frequentemente mortais, como infecções da corrente sanguínea e pneumonia. Esses micro-organismos tornaram-se resistentes a um grande número de antibióticos, incluindo carbapenemas e cefalosporinas de terceira geração, que são os mais eficientes antibióticos disponíveis para tratamento de bactérias multirresistentes. No demais níveis de prioridades estão as bactérias cada vez mais resistentes aos fármacos e que provocam doenças comuns, como gonorreia ou intoxicação alimentar causada por salmonela.

De acordo com a farmacêutica clínica e docente da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da Unicamp, Patrícia Moriel, o crescimento dos casos de infecções hospitalares causados por bactérias, especialmente nas Unidades de Terapia Intensiva (UTI), levou à reintrodução de uma das únicas armas no mundo no combate às bactérias resistentes: as drogas polimixinas E (colistina) e B. “As polimixinas tinham deixado de ser usadas por décadas, sobretudo por serem nefrotóxicas e desencadearem lesões renais. Com isso, conseguiram driblar o modo de ataque das bactérias, que se ‘esqueceram’ delas”, explica. A professora vem investigando a resistência microbiana em busca da inibição das bactérias. “O caminho que vem sendo trilhado é a escolha de um antibiótico ao qual elas sejam sensíveis”, aponta – Leia a íntegra da entrevista de Patrícia Morel.

Para a especialista, é preocupante a falta de antibióticos para eliminar as bactérias mais resistentes e a falta de perspectiva de novos medicamentos. Para se ter uma ideia, bactérias comuns têm a capacidade de se duplicar a cada 20 minutos aproximadamente. Atualmente, nos hospitais, muitos pacientes morrem com infecção por bactéria, e não pelo motivo da sua internação. Segundo Patrícia, diversas razões levam a essa maior suscetibilidade à aquisição de bactérias. Porém, as bactérias hospitalares já são mais resistentes pelo seu contato com multi-tratamentos. Professores da área de química farmacêutica da FCF estão desenvolvendo pesquisas básicas sobre modificação molecular para identificar as mutações que tornam as bactérias imunes aos medicamentos. Daí até a geração de um antibiótico, decorre um tempo muito longo e é preciso considerar o interesse da indústria farmacêutica – o desenvolvimento de antibióticos demanda décadas de pesquisas e altos investimentos e não contempla os interesses da indústria farmacêutica, que está mais focada nos medicamentos de uso contínuo.

Para inibir o crescimento das bactérias, os hospitais estão criando grupos de segurança do paciente e protocolos de higienização das mãos, explica Patrícia. “Também é preciso levar em conta que existe uma maneira adequada de tomar os antibióticos. Há aqueles para ingerir em dose única, três dias, sete dias e dez dias, e é necessário seguir religiosamente o que o médico prescreveu”. Os esforços para que a farmácia seja um estabelecimento de saúde e não um mero ponto de comércio e que a receita médica seja retida, conforme preconizam a Anvisa e o Conselho Federal de Farmácia, são outros desafios no combate à proliferação de superbactérias. “Ocorre que muitas drogarias acabam vendendo sem receita. Parte da população acha isso interessante, entretanto precisa acordar para essa realidade. Se tem uma legislação, isso tem uma razão”, defende.

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