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27/06/2017
COLUNISTAS - MOISÉS MENDES
COLUNISTA

O Brasil governado por Bolsonaro

Foto: arte de Fábio Alves (Bold comunicação) sobre foto de Wilson Dias/ABr

Foto: arte de Fábio Alves (Bold comunicação) sobre foto de Wilson Dias/ABr

Brasília arde na mais prolongada seca do Planalto Central. O presidente da República circula em seu Fusca conversível vistoriando os gramados da Esplanada dos Ministérios.

A umidade do ar chegou a 2%. É grande a mortandade de emas, jacarés e jaburus. Não há o que fazer, enquanto não recebermos mais recursos dos Estados Unidos, disse o presidente em pronunciamento ontem pela TV.

Jair Bolsonaro pede verbas para abrir poços artesianos e lançar um programa de financiamento de ventiladores. Fala dos programas e solta uma gargalhada, para passar autenticidade.

Desde que compraram o Brasil, há meio ano, os Estados Unidos regulam gastos e investimentos. Bolsonaro foi mantido no poder, para que os governos sigam o modelo de gestão das empresas americanas no Exterior.

Os EUA são os donos, mas o gerente do país continua sendo brasileiro. Bolsonaro submete-se às ordens do presidente Homer Simpson. Nos primeiros meses, despachava com o criador de Homer, o desenhista Matt Groening.

Desde janeiro, os dois presidentes conversam diretamente, sem intérpretes, por meio de um sistema de interação inventado pela Apple, porque Homer teria adquirido vida própria. A prioridade de Homer é concluir o muro que Trump começou a erguer em Miami, para que os cubanos não voltem para Cuba.

Se elegeram Trump, por que os americanos não poderiam eleger Homer e aceitá-lo como presidente capaz de governar? No Brasil, dizem o mesmo de Bolsonaro, que se dedica agora a questões internas estruturais.

Na semana passada, Bolsonaro revogou a lei que permitia o casamento de gays (o Congresso não existe mais) e arquivou um processo do Supremo em que era acusado de exaltar o estupro (o Supremo também foi extinto).

Mas foi mantida a Comissão de Ética do Senado, mesmo que não exista mais Senado. A comissão é um organismo autônomo e sobreviveu para que preservasse a experiência acumulada nessa área.

A Globo, aliada nas eleições de 2018 em que Bolsonaro venceu Doria Júnior com 234 votos de diferença (apenas 4 mil eleitores votaram; abstenção, nulos e brancos chegaram a 99,9%), rebelou-se contra o presidente, tentou derrubá-lo, como fez com o jaburu-rei em 2017, e foi encampada como patrimônio público. Agora, transmite filmes religiosos e seriados dos anos 70.

Bolsonaro somente deixou com os Marinho a casa da ilha de Paraty (que a família finalmente admitiu ser dela, porque não tem onde morar) e os apresentadores Luciano Huck e Faustão.

A prioridade do presidente este ano são as reformas política e tributária, mesmo que não exista mais política. O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, pretende pedir que as pessoas devolvam com juros, em nome da austeridade, o dinheiro do FGTS sacado anos atrás.

O modelo econômico da gestão Bolsonaro é o do escambo liberal. Quem planta batatas troca com quem produz mandioca. Atualmente, faltam mandiocas. A taxa de desemprego é 54%, com tendência de queda. Os juros estão em 4.234% ao ano, com viés de alta.

Na última pesquisa DataFolha, o índice de aprovação do presidente era de 2,2%, abaixo da margem de erro de 3% para mais ou para menos. Bolsonaro é impopular, sofre pressão das redes sociais do Uruguai (a internet foi bloqueada no Brasil logo depois da eleição), mas avisa todos os dias que não irá renunciar, até porque quem manda nele é o Homer.

A extinção dos partidos acabou com o caixa 2, como deseja a Lava-Jato, que continua ouvindo delações. Não há partidos e por isso não há eleições, mas o presidente diz que as instituições continuam funcionando. O juiz Sergio Moro tenta um acordo com o ex-ministro Antonio Palocci, desde que ele denuncie Lula.

Lula já foi condenado em nove dos 22 processos que enfrentou em Curitiba, com direito a prisão domiciliar com tornozeleira, por causa da idade. Mas, como não havia dinheiro para comprar tornozeleiras, foi liberado, conseguiu enganar Curitiba e se asilou na casinha de Mujica no Uruguai.

É de lá que conspira contra o governo-empresa. Apesar da grande rejeição, Bolsonaro não enfrenta problemas no Brasil. ONGs que sobrevivem clandestinamente tentaram organizar manifestações domingo passado e reuniram 22 pessoas na Avenida Paulista e 14 na Redenção, em Porto Alegre. Foi o maior público desde 2022.

A democracia brasileira é um grande negócio, disse Bolsonaro às gargalhadas num encontro com ministros-gerentes, ao observar que finalmente o liberalismo venceu e o governo passa a ser gerido como uma empresa.

O povo parece conformado, apesar de não ter internet, emprego e o direito de votar. O povo só torce para que não tenha que devolver o dinheiro do FGTS, sacado há 12 anos.

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