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24/08/2017
MOVIMENTO

Sob pressão da tropa de choque, ocupantes do Lanceiros Negros negociam saída

Ainda sem definição de local para abrigar despejados, Fasc iniciou cadastramento e inserção das famílias no Aluguel Social
Por Adriana Lampert
Durante todo o dia, a quadra do prédio ocupado, entre as ruas João Manoel e Caldas Júnior, ficou isolada pela Tropa de Choque da BM

Foto: Igor Sperotto

Durante todo o dia, a quadra do prédio ocupado, entre as ruas João Manoel e Caldas Júnior, ficou isolada pela Tropa de Choque da BM

Foto: Igor Sperotto

Sirenes, pneus cantando, gritos e risadas de policiais deram o alerta: a Brigada Militar havia cercado o prédio do antigo Hotel Açores, no Centro de Porto Alegre, onde desde 4 de julho mais de 30 famílias da ocupação Lanceiros Negros estão alojadas. Foi sob esse clima de tensão que homens, mulheres e crianças que estão residindo no espaço precisaram interromper o descanso noturno para permanecer em vigia até o início da manhã de quinta-feira, quando dois representantes do grupo foram até o 1º Batalhão da Polícia Militar, na rua dos Andradas, para tentar negociar uma saída pacífica do local. Até o meio da tarde, ainda não havia definição sobre o destino das famílias. Mas a Fasc passou o dia realizando cadastramento para a participação do programa Aluguel Social, responsável por uma ajuda de custo na locação de moradias. O presidente da Fundação, Solimar Amaro, bem como representantes das direções Administrativa e Técnica da Fasc, acompanharam o processo, que segundo os moradores do prédio, “foi bastante demorado”.

Famílias foram impedidas de entrar no prédio pelo Choque

Foto: Igor Sperotto

Famílias foram impedidas de entrar no prédio pelo Choque

Foto: Igor Sperotto

A secretária municipal de Desenvolvimento Social, Maria de Fátima Záchia Paludo, entrou na negociação com as autoridades, disponibilizando cota de 20 aluguéis sociais para as famílias. O valor é de R$ 500,00 mensais.  “Tínhamos sido avisados pelo comando da Brigada Militar, no início da semana, sobre os preparativos da reintegração de posse, mas o local oferecido pelo governo (Centro Vida) é totalmente inadequado, sem água e luz”, comenta um dos coordenadores do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), Matheus Portela. Morador da ocupação, à tarde ele estava visivelmente cansado, após passar a madrugada inteira (até cerca de 5h da manhã) sofrendo “terrorismo psicológico”, para depois enfrentar horas de negociação na busca de outras alternativas para o alojamento dos integrantes do movimento.

As conversas ocorreram na esquina da Rua dos Andradas com a Jerônimo Coelho, em frente ao Hotel Açores, e envolveram representantes da Defensoria Pública, BM, Fasc, Demab e Ministério Público, além dos deputados estaduais Gabriel Souza (PMDB) e Marcelo Van Harten (PP). Apesar de esperançoso com a ideia do Aluguel Social, Portela afirma que há receio, em vista do histórico de atrasos no repasse da verba aos integrantes do programa.

Na tarde de quinta-feira, uma comissão formada por representantes do governo, das famílias envolvidas e dirigentes sindicais se deslocou até um conjunto habitacional localizado no bairro Restinga, para avaliar a possibilidade de ocupação de parte do empreendimento pelas famílias. Outra alternativa sugerida é um centro de treinamento da BM ao lado do Centro Vida. “O lugar ofertado é bem ruim, o banheiro não tem descarga; tem uma parte do prédio que está sem telhado, chove direto no pavilhão; e tem infiltração nas paredes, o que causa alagamento em dias de chuva”, explicou Portela.

Famílias denunciaram brigadianos de "tortura psicológica"

Foto: Igor Sperotto

Famílias denunciaram brigadianos de “tortura psicológica”

Foto: Igor Sperotto

Durante todo o dia, a quadra do prédio ocupado, entre as ruas João Manoel e Caldas Júnior, ficou isolada pela Tropa de Choque da BM. Nenhuma loja, escritório, bar ou restaurante que funcionam na área pode abrir as portas, uma vez que o acesso foi impedido. Desde às 11h, nas imediações do prédio, cerca de 40 pessoas se aglomeraram para apoiar o movimento de famílias, gritando palavras de ordem. Alguns moradores da ocupação também precisaram passar o dia do lado de fora do prédio, porque haviam saído na noite anterior não conseguiram mais voltar para a casa.

A tentativa de reintegração de posse dos Lanceiros Negros ocorreu um dia depois da ação da Brigada Militar na Ilha do Pavão, onde foram despejadas cerca de 1 mil pessoas. Segundo relatos, muitas das casas da região onde será construída a ponte do Guaíba (uma área federal), existiam há mais de 20 anos e foram demolidas com patrolas. Durante a tarde de quinta, as famílias despejadas realizaram um protesto em frente à Prefeitura.

DESPEJO – Após um dia inteiro de negociações, as famílias da ocupação Lanceiros Negros foram desalojadas do prédio do Hotel Açores, no Centro de Porto Alegre, onde estavam residindo desde o dia 4 de julho. O oficial de Justiça que apresentou a ordem de reintegração de posse chegou ao local por volta das 18h30min, quando cerca de 24 famílias estavam no prédio. A saída ocorreu sem truculência, mas só foi efetivada após horas de tensão, que iniciou no final da noite anterior. Uma comissão foi formada envolvendo representantes da Brigada Militar, do Movimento de Luta nos Bairros e Favelas (MLB), da Defensoria Pública e do Ministério Público, além de deputados estaduais. Pelo acordo, as famílias serão conduzidas inicialmente ao Centro Vida, na Zona Norte da Capital, com a garantia de reformas no espaço. Futuramente, elas devem ser encaminhadas para o condomínio Belize, localizado na Restinga, onde viverão (a princípio somente até seis meses) sob a garantia de recebimento de aluguel social do Departamento Municipal de Habitação (Demhab), com valor mensal de R$ 500,00.

Mais sobre o movimento de ocupação:

Lanceiros Negros: o estado contra o social

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