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11/09/2017
CULTURA

Ato em defesa da liberdade de expressão artística será nesta terça-feira

Protesto ocorre depois de encerramento precoce da mostra que reunia mais de 250 obras de 85 artistas, com ênfase no universo LGBT, no Santander Cultural
Por Flávio Ilha
Obra de Fernando Baril, que fazia parte da mostra

Foto: Reprodução

Obra de Fernando Baril, que fazia parte da mostra

Foto: Reprodução

Instituições culturais, grupos LGBTs e outros coletivos de arte estão organizando um ato público pela liberdade de expressão artística contra a LGBTTFobia, desencadeada pelo término prematuro da exposição QueerMuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira em razão dos ataques de ordem moral liderados pelo MBL. A exposição foi encerrada pelo Santander Cultural no domingo, 10, em Porto Alegre.

O ato será realizado nesta terça-feira, 12, a partir das 15h30, em frente ao Santander Cultural (Rua 7 de setembro – Centro Histórico), dois dias depois da instituição anunciar oficialmente o fechamento da exposição, que tinha previsão de permanecer aberta até 8 de outubro. A mostra reunia mais de 250 obras de 85 artistas com ênfase no universo LGBT. Foi a primeira exposição com essa temática realizada no Brasil e exaltada pela própria direção do centro cultural, que considerou a considerou na inauguração a diversidade “como um conceito no qual realmente acreditamos”.

Nesta segunda-feira, 11, o caso continuou repercutindo. Num pequeno artigo reproduzido na capa do seu site com o título Museu brasileiro fecha exposição depois de protestos, a prestigiada revista de arte contemporânea londrina ArtReview noticiou o cancelamento da mostra no Santander, que apresentava obras de importantes artistas brasileiros como Adriana Varejão, Cândido Portinari, Alfredo Volpi e Leonilson, e questionou a decisão do centro cultural depois de tê-la classificado, no material distribuído à imprensa, como uma “iniciativa sem precedentes”. A publicação diz também que o cancelamento provocou uma “generalizada condenação”.

Uma das artistas da mostra, Cibelle (Cavalli Bastos), também fez uma publicação indignada no seu Instagram afirmando que a ditadura brasileira se revela de modo devagar, mas firme. “Esse grande show sobre gênero e diferença (Queer Museu) foi encerrado após protestos de dezenas de pessoas de direita. Meu trabalho, aqui retratado, e o de muitos amigos, está lá. Sério, isso é tão ofensivo? WTF (what the fuck, ou que porra é essa?)? Por favor, espalhem as notícias da merda”, escreveu.

No Brasil, as notícias sobre a censura promovida pelo Santander à sua própria agenda expositiva continuou causando uma onda de indignação. O secretário municipal de Cultura Luciano Alabarse se disse “totalmente contrário” ao fechamento da exposição. “Sou contra qualquer tipo de censura, em especial a censura artística. Essa é a minha posição, pessoal e intransferível”, afirmou o diretor teatral.

O prefeito Nelson Marchezan Jr. (PSDB), que no domingo, 10, havia endossado as posições do MBL sobre conteúdo “pedófilo” e de “zoofilia” na mostra, em um post numa rede social, deletou o conteúdo da mensagem. Desde então, não se manifestou mais sobre o episódio – bem como o secretário estadual de Cultura, o cantor nativista Victor Hugo.

O presidente da Bienal do Mercosul, Gilberto Schwartzmann, se declarou “triste” com o episódio. “As pessoas não estão preparadas para tratar das suas diferenças. É claro que um cidadão tem todo o direito de não gostar (da mostra), de não querer que ela exista, mas é necessário respeitar as opiniões em contrário. Nunca proibir o outro de ver”, ponderou. Segundo ele, esse tipo de episódio poderia ser evitado “se tivéssemos educação artística desde a infância, na escola”. A Bienal ocorre entre abril e junho de 2018 com o tema O Triângulo do Atlântico – uma alusão à mistura de etnias que ajudou a formar o povo brasileiro.

O grupo Psicanalistas pela Democracia também se manifestou contra o cancelamento da mostra. “A censura que se colocou em Porto Alegre contra a liberdade de expressão da arte e dos artistas autoriza e legitima a repetição dessas violências. Em acordo com o potencial crítico da arte sobre os discursos hegemônicos da sociedade, os Psicanalistas pela Democracia repudiam o encerramento prematuro dessa exposição e, como forma de resistência contra essa violência duplicada pelo Banco Santander, compartilha algumas das obras que se encontravam expostas para dar acesso àqueles que não tiveram a possibilidade de comparecer”, diz uma nota assinada pelo psicanalista André Costa no site da instituição. O site reproduz dezenas de obras que foram censuradas pelo Santander a partir das pressões do MBL e de seus simpatizantes.

Também em nota, o grupo Nuances – um dos organizadores do ato desta terça-feira – repudiou os ataques “conservadores e fundamentalistas” e as acusações “falsas e infundadas” de que a temática da exposição reverenciava atos de pedofilia e zoofilia, associando-os à população queer. “Repudiamos também a decisão do Santander Cultural de encer rar prematuramente a exposição, recuando diante das manifestações fascistas de ódio e preconceito”, diz a ONG.

O curador da exposição Gaudêncio Fidélis voltou a se manifestar sobre o encerramento da mostra. Ex-diretor do Margs e curador-geral da última Bienal do Mercosul, em 2015, Fidélis se mostrou preocupado principalmente com o triunfo de uma “narrativa falsa” como estratégia para jogar parte da população contra a manifestação artística. “Foi uma narrativa produzida em três, quatro dias, a partir de um movimento organizado, de integrantes que gravaram cenas constrangedoras dentro do espaço expositivo que depois foram lançadas nas redes sociais para formar uma suposta opinião hegemônica”, disse.

A preocupação tem sentido: Fidélis adverte que esses grupos conservadores, a partir da capitulação do Santander Cultural, começarão a acreditar que podem, efetivamente, decidir o eu as pessoas vão ver e consumir em termos de arte ou de cultura. “Temo, realmente, que a decisão unilateral de ceder a essa pressão nos leve a um futuro ainda mais obscuro em termos de liberdade de expressão”, lamentou.

NOTA – O Conselho Estadual de Cultura emitiu nota no final da tarde desta segunda-feira sobre o episódio. O Extra Classe reproduz o texto na íntegra.

INACEITÁVEL CENSURA
(Nota Oficial do Conselho estadual de Cultura sobre o triste episódio da exposição “Queermuseu”)

O Conselho Estadual de Cultura vem a público manifestar sua inconformidade diante da reação de intolerância que deu causa para o encerramento da exposição “Queermuseu – cartografias da diferença na arte brasileira” programada para permanecer aberta ao público até 8 de outubro, no Santander Cultural, em Porto Alegre. Esta mostra reúniu Pintores mundialmente reconhecidos como Alfredo Volpi e Cândido Portinari, além de outros 83 artistas.

A Constituição do Rio Grande do Sul em seu artigo 220 prevê que: “O Estado estimulará a cultura em suas múltiplas manifestações, garantindo o pleno e efetivo exercício dos respectivos direitos bem como o acesso a suas fontes em nível nacional e regional, apoiando e incentivando a produção, a valorização e a difusão das manifestações culturais. Parágrafo único: É dever do Estado proteger e estimular as manifestações culturais dos diferentes grupos étnicos formadores da sociedade rio-grandense”. A mesma Constituição prevê, em seu artigo 221, parágrafo V, inciso a: “as formas de expressão constituem direitos culturais garantidos pelo Estado”.

Lamentamos que tantos anos dedicados na separação dos direitos e deveres do Estado em relação à igreja e as ideologias sejam ignorados. Lamentamos constatar a apunhalada objetiva desferida contra a humanidade e o empobrecimento simbólico que este horror provocará

O Conselho estadual de Cultura afirma que a obra de arte não pode ser cerceada, limitada ou censurada e seu caráter sempre será promover a liberdade criativa, assim como refletir o seu tempo sob as diversas óticas e contradições.

Restrições a alguma obra asseguram ao público descontente o direito de abster-se de ir ao local de visitação, assim como acontece com qualquer outra manifestação de livre acesso.

O resultado destas manifestações, de indisfarçável intransigência e censura para com a referida exposição, evidencia a intolerância com o contraditório, o diferente, o novo. É sabido que não é função de uma exposição formar opinião ou definir posições ideológicas a partir do seu conteúdo e certamente isso não ocorrerá com o tema em tela.

Queremos um Brasil livre de medos, de preconceitos, de discriminação, de intolerância e por isso nos solidarizamos com o Curador e aos artistas da referida exposição.

 

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