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12/09/2017
CULTURA

Ato no centro de Porto Alegre protesta contra censura à exposição de arte

Reunindo artistas, professores, intelectuais e instituições de apoio a pessoas LGBT, a manifestação pediu a reabertura da exposição QueerMuseu, no Santander Cultural
Por Flavio Ilha

Censura não, gritavam manifestantes

Igor Sperotto

Um grande ato em protesto contra o encerramento da exposição Queer Museu – Cartografias da Diferença foi realizado em frente ao prédio do Santander Cultural, no Centro de Porto Alegre, na tarde desta terça-feira, 12, reunindo artistas, professores, intelectuais e instituições de apoio a pessoas LGBT. Recheado de performances e de discursos pela liberdade de expressão, a manifestação pediu a reabertura da exposição que, durante 26 dias, expôs 264 obras de 85 artistas com a temática central sobre a diversidade sexual.

O ato foi convocado por dezenas de entidades quando o Santander Cultural anunciou, no domingo, 10, o fechamento antecipado da mostra, depois que milicianos do Movimento Brasil Livre (MBL) gravaram cenas no interior do espaço expositivo e acusaram a exposição de estimular a pedofilia, a profanação de símbolos religiosos e o bestialismo. A mostra reuniu peças de alguns dos principais artistas brasileiros, como Cândido Portinari, Lygia Clark, Leonilson, Alfredo Volpi.

Fidelis, curador da Mostra: “tempos difíceis”

Igor Sperotto

A decisão do Santander gerou uma onda de críticas no Brasil e no mundo, com repercussão pelos principais veículos de imprensa do ocidente. O curador da mostra, o artista plástico Gaudêncio Fidélis, se disse “muito feliz” com o ato. “Nesses dias obscuros e assustadores, é preciso seguir acreditando na liberdade de expressão e no direito de ver e produzir o quer quisermos. É um momento de luta”, disse.

Em meio a manifestações de apoio e solidariedade, Fidélis também afirmou que o momento é de alerta. “Em apenas três dias, numa investida moralista e mentirosa, o Santander se rendeu a um pequeno grupo de radicais de direita. É um fenômeno aterrorizante de um grupo que trabalha na obscuridade”, afirmou, em referência ao MBL.

A exposição foi fechada após dois integrantes da milícia – Felipe Diehl e Rafael Silva Oliveira, o Rafinha BK – gravarem na última quarta-feira, 6, cenas no interior da exposição constrangendo frequentadores e manipulando imagens de obras de arte para denunciar supostos crimes cometidos pelos artistas. Os vídeos foram viralizados pelo MBL e geraram uma onda de protestos, levando o Santander Cultural fechar a exposição quatro dias depois.

SEM CRIME – O Ministério Público (MP) visitou a exposição um dia depois do encerramento e declarou que não há nenhum indício de pedofilia ou qualquer outra irregularidade na mostra. “O que existe são algumas imagens que podem caracterizar cenas de sexo explícito, mas do ponto de vista criminal, não vimos nada”, disse o promotor da Infância e da Juventude de Porto Alegre, Julio Almeida.

Em função disso, vários coletivos sociais ingressaram com uma representação junto ao MP para a abertura de inquérito civil para investigar o cerceamento da liberdade de expressão artística e a perseguição à livre expressão sexual desencadeada pelo MBL, além da reabertura imediata da exposição. O pedido é baseado no item IX do artigo 5º da Constituição: é livre a expressão da liberdade artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença.

Provocações e bombas

O filho da artista Lygia Clark, que veio do Rio de Janeiro especialmente para apoiar o ato, disse que nunca imaginou que estaria diante de uma situação como essa. “Tenhos 72 anos, enfrentei a ditadura militar e fico muito indignado ao constatar que está acontecendo hoje no Brasil. Eu corro o mundo inteiro com as obras de minha mãe. É uma obra assexuada, que nunca, jamais, suscitou qualquer reação moralista”, afirmou Alvaro Clark.

Com os punhos cerrados diante da encenação de uma das peças de Lygia, Eu e Tu, Alvaro também lamentou que o fechamento tenha se dado em Porto Alegre. “É uma pena, mas não surpreende. É um estado muito conservador”, disse. Perguntado se via algo de positivo no episódio, completou: “talvez o fato de que nunca mais aconteça, em lugar nenhum do país. É para morrer de vergonha”.

O ato, desde seu início, foi alvo das provocações de outros dois milicianos do MBL, Arthur do Val e Paula Cassol. Arthur, que é autor do canal Mamãe Falei, tentou por duas vezes gravar cenas no meio da multidão, com as provocações costumeiras. Foi impedido. Na segunda vez, teve de sair correndo sob ameaça de linchamento pelos manifestantes.

Antes disso, um pequeno grupo de mulheres vestindo a bandeira do Brasil e gritando palavras de ordem pela intervenção militar tentou abafar a manifestação, mas também foram afastados pelos manifestantes. Um dos integrantes do grupo, o advogado Leudo Costa, filiado ao PMDB, ameaçou de agressão jornalistas e fotógrafos que cobriam o ato, inclusive a equipe de reportagem do Extra Classe. Em 2014, Leudo foi candidato a deputado federal pelo PSDB.

No final da manifestação, os milicianos do MBL voltaram a atacar e provocaram um tumulto ao tentar gravar cenas do ato. Pressionados a deixar o local pelos manifestantes, Arthur do Val e Paula Cassol foram protegidos pela Brigada Militar, que usou bombas de gás e de efeito moral para dispersar a multidão que se aglomerava na Praça da Alfândega. Um agente da Polícia Federal que não se identificou também estava na área do conflito, dando instruções aos policiais.

Os dois integrantes do MBL tiveram proteção também de outro miliciano do grupo, o mesmo Rafael Silva Oliveira, o Rafinha BK, que gravou e manipulou cenas da exposição. Não houve informações sobre prisões ou feridos.

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