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15/09/2017
ENTREVISTA | WAGNER BARJA
CULTURA

Bancada evangélica tenta constranger exposição por conter nudez

Por Marcelo Menna Barreto
Wagner Barja, diretor do Museu da República

Foto: Minervino Júnior/Museu da República/Divulgação

Wagner Barja, diretor do Museu da República

Foto: Minervino Júnior/Museu da República/Divulgação

Na esteira dos protestos protagonizados em Porto Alegre, que culminaram no cancelamento antecipado da exposição Queermuseu no Santander Cultural, membros da Frente parlamentar Evangélica foram ao Museu Nacional Honestino Guimarães (Museu Nacional da República) em Brasília nesta quarta-feira, dia 13, para “inspecionar” a exposição Não Matarás.

O grupo foi capitaneado pelo coordenador da Frente Parlamentar, Takayama (PSC-PR), e pelo Pastor Marco Feliciano (PSC-SP) e decidiu visitar o museu depois de receber “denúncia” pelo WhatsApp de uma mãe que alegou ter ficado incomodada ao levar o filho menor de idade ao centro cultural e se deparar com imagens de corpos nus.

Além de Takayama e de Feliciano, também participaram da “vistoria” os deputados Arolde de Oliveira (PSC-RJ), Lincoln Portela (PRB-MG), Marcos Soares (DEM-RJ) e Luciano Braga (PRB-BA).

Sobre o episódio, o Extra Classe ouviu Wagner Barja, artista plástico e diretor do Museu Honestino Guimarães (Museu Nacional da República), vinculado à Secretaria de Cultura do Distrito Federal.

Extra Classe – Tomamos conhecimento que no último dia 13, um grupo de deputados da bancada evangélica foi ao Museu da República para fazer uma vistoria na mostra Não matarás, pois fiéis haviam denunciado conteúdo considerado por eles “ofensivo”. Procede?
Wagner Barja –
 Olha eu não sei se foram fiéis, mas houve uma denúncia e eles foram lá. Eu não estava presente, mas pessoas da equipe do museu os receberam. Quando cheguei já tinham saído. Foi uma visita no dia 13, no horário do almoço.

Extra Classe – E como foi?
Barja – Eles saíram meio que sem graça porque não tinha nada que pudessem ver como abusivo. Eles estão procurando demonizar as coisas. Aliás, isso é terrível, não é? A nudez nunca vai ser castigada no universo das artes. Recentemente, a gente fez uma performance com 150 pessoas. Por mais que eles queiram, eles têm que que se acostumar com isto. Está desde os primórdios da história. Se você for ver as cerâmicas peruanas, colombianas, marajoara, sei lá o que mais, em diversas regiões do mundo, nos primórdios da civilização a sexualidade é um elemento importante. Não pode ser tratada dessa forma que eles estão querendo tratar, cheio de dogmas, cheio de problemas, preconceitos… A gente tem que viver em um mundo normal, não de pessoas anormais.

EC – Interessante como o nu choca certas pessoas…
Barja – O nu atravessa a arte desde os seus primórdios. Nós vamos fechar o Louvre, vamos censurar o Museu do Prado, a Capela Sistina? Então, a gente vai ter que descer o poço do fundamentalismo, seja ele de que natureza for, para exercer uma censura na esfera da humanidade, que é contada fundamentalmente pela história da arte? Então essas pessoas não nos representam. Elas não são bem-vindas com esse olhar. Elas devem entrar num museu e refletir sobre a história das pessoas, da humanidade

Zaragoza, ao fundo, e o nu considerado polêmico

Foto: Divulgação

Zaragoza, ao fundo, e o nu considerado polêmico

Foto: Divulgação

EC – Quais foram as obras, em específico que os deputados foram “vistoriar”???
Barja –
 Não houve uma obra específica, pois não é uma exposição de gênero, discutindo a questão sexualidade, mas é uma exposição chamada Não matarás, que é uma coleção que recebemos José Zaragoza antes dele falecer recentemente. Na verdade, a exposição tem três partes de inspiração.

EC – Quais?
Barja – Uma, a coleção Não matarás (que dá nome à mostra) é uma coleção sobre o golpe de 64. Ao todo, são 59 obras doadas pelo Zaragoza (pintura, escultura e desenhos), apresentadas com frases de autores diversos da literatura e da poesia que falam da violência dos regimes totalitários, da violência urbana, no campo; a segunda, uma obra que ganhou o Grande Prêmio do Salão de Arte do Distrito Federal em 1967, que foi fechado pela ditadura, uma obra do João Câmara, uma pintura a óleo sobre madeira que fala sobre instrumentos de tortura. Obra emblemática, porque houve esse prêmio e o salão foi fechado e as obras confiscadas. A terceira e última fonte de inspiração é uma frase do Mario Pedrosa que diz assim: ‘Em tempo de crise, melhor ficar do lado dos artistas’.

EC – Um desenho viralizou na internet como fosse de sua autoria, como uma espécie de desagravo ao cancelamento da QueerMuseu e uma resposta a ida destes deputados ao Museu da República.
Barja –
 Atribuíram a mim um desenho grotesco, que eu não faria, até porque a minha arte não é voltada para esse tipo de representação. Usaram a minha figura de diretor, que é um cargo público.  

EC – Independente da questão estética do referido desenho, como o artista Wagner Barja, e não o diretor de museu, viu tal ato de protesto?
Barja – Veja bem, nós somos um museu republicano, que conta a história da República. A ditadura, ninguém passou uma borracha em cima. A gente está num momento delicado da história brasileira, o que que eu posso fazer? Deixar de fazer as coisas por causa do MBL, por causa da bancada evangélica? Isso eu não posso! O ato de protesto não é o que estou julgando, eu estou julgando a utilização do meu nome atribuindo a autoria de uma coisa que eu não fiz. Eu nunca confrontaria dessa forma. Agora, é uma forma de protestar legítima também porque quem fala o que quer ouve também o que não quer.

Obras referem ao golpe de 1964

Foto: Reprodução

Obras referem ao golpe de 1964

Foto: Reprodução

EC – A que o senhor atribui ter circulado o desenho como de sua autoria?
Barja –
 Realmente não sei. Para mim foi uma forma equivocada, pois ao invés de ir ao cerne da questão, o comportamento de segmentos sectários da sociedade, que se autodenominam censores. Quero deixar claro que censura não é com eles; nós (Museu Nacional da República) é que temos que ter noção do que fazer para expor ao público. Eu tenho um público de um milhão de pessoas por ano, então eu não estou aqui fazendo brincadeiras. Posso ser irônico, bem-humorado, mas eu não estou brincando onde estou trabalhando. E essa questão que veio à imprensa está me tomando muito tempo, ter que me justificar, ter que explicar, entendeu?

EC – Além da visita desses deputados ao Museu da República, no início do ano o vereador Fernando Holiday de São Paulo, ligado ao MBL, realizou visitas de surpresa a escolas do município em nome de verificar se estaria havendo o que diz doutrinação política por parte dos professores. Tivemos recentemente o caso da exposição fechada em Porto Alegre e, agora, o caso da exposição Não matarás. O que o senhor pensa dessa sequência de eventos?
Barja – Eu estou diretor de museu, mas eu sou artista. Eu não me reconheço, não me identifico nesses movimentos arbitrários. Eu estou do lado dos artistas como disse o Mário Pedroso. Eu não acredito nesse tipo de intervenção que vem com um olhar censor sobre a arte. Não criei nenhum movimento importante, sou um servidor público, mas essencialmente eu sou artista e a princípio eu sou contra, aliás totalmente, frontalmente contra porque eu acho que a censura deve ficar a cargo das pessoas e não deve ser exercida por grupos que não representam a sociedade como um todo.

EC – O Senhor falou da alta demanda da imprensa, devido a repercussão, que lhe toma tempo. Mas, tem algo positivo além disto?
Barja –
 Deputados prestaram apoio ao museu e não foram poucos. Eles virão fazer uma visita ao museu na próxima terça-feira (19/9), um número bem expressivo de deputados, um movimento suprapartidário, inclusive com uma parlamentar evangélica não radical que vai estar presente. Então pra você ver que, literalmente, pra uma ação existe uma reação. É importante também dizer que a gente tem que atender os apelos da sociedade. Nós não somos um museu republicano do século 19. A gente sabe onde está. Sabemos quem somos e sabemos com quem a gente está falando a um público muito amplo. Não é um chilique de alguém que se arvora censor que vai fechar uma exposição ou retirar alguma obra de uma exposição. Eu espero que os deputados evangélicos visitem o museu com um outro olhar. De outras religiões também! Mas a princípio estamos num espaço laico e não devemos satisfação a nenhuma religião, apesar de eu achar o maior artista brasileiro o Aleijadinho. O dia que eu tiver uma obra original do Aleijadinho aqui no Museu, eu vou me sentir realizado.

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