Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
27/10/2017
CULTURA

Direitistas querem impedir vinda da filósofa Judith Butler ao Brasil

Americana participará do seminário internacional Os fins da Democracia, no Sesc Pompéia, entre os dias 7 e 9 de novembro.
Marcelo Menna Barreto

Após conseguir cancelar a exposição QueerMuseu, no Santander Cultural em Porto Alegre, e bradar pelo fechamento do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) devido a uma performance com nu artístico, agora grupos de direita estão pedindo o cancelamento da participação da filósofa norte-americana Judith Butler, da Universidade de Berkeley, Califórnia, no seminário internacional Os Fins da Democracia, no Sesc Pompéia, conceituado centro cultural de São Paulo. Judith é um dos mais importantes nomes na área dos estudos de gênero. Sua teoria defende que a identidade de gênero e a orientação sexual não estão necessariamente associados ao sexo biológico.

O grupo é liderado pelo ex-ator pornô Alexandre Frota, que promoveu nesta sexta-feira, 27, uma manifestação em frente ao Sesc Pompéia, onde se realizará o seminário entre os dias 7 e 9 de novembro. Ao protesto soma-se à uma petição anônima que foi lançada na quinta-feira, 26, que pede ao Sesc o cancelamento da visita de Butler e já conta com 88.821 assinaturas. “Não podemos permitir que a promotora dessa ideologia nefasta promova em nosso país suas ideias absurdas, que têm por objetivo acelerar o processo de corrupção e fragmentação da sociedade”, é como justifica-se o texto da petição.

A diretora da revista Cult, Daysi Bregantini, responsável, ao lado da filósofa Marcia Tiburi, pela primeira vinda de Judith Butler ao Brasil em 2015, conta que na ocasião houve manifestações da Tradição Família e Propriedade (TFP) e grupos neopentecostais, mas não de forma tão agressiva como a registrada nos dois últimos dias. “O Brasil está cada vez mais nas trevas”, declara. Daysi Bregantini ainda disse ao Extra Classe que entrou em contato com a direção do Sesc São Paulo e foi informada que “nem passa pela cabeça da direção da entidade a possibilidade de cancelar o seminário”.

Para Marcia Tiburi, que praticamente apresentou Judith Butler ao Brasil, a filósofa é uma pensadora importantíssima no cenário atual. “Ensino usando seu livro Problemas de Gênero há mais de 15 anos. Não vejo motivo para que as pessoas estejam tentando impedir sua vinda ao Brasil”, afirma. Marcia ainda registra sua indignação “me pergunto o que está acontecendo com essas pessoas que veem problemas em uma teoria que desconhecem. Duvido que a tenham lido. Se tivessem lido poderiam contestá-la pelos meios habituais, com mais elegância. Realmente soa incompreensível essa manifestação por quem não se dedica a estudar sua obra”.

Já o coordenador do seminário que acontecerá no Sesc Pompéia, Vladimir Safatle, filósofo e livre-docente da Universidade de São Paulo (USP), ironizou a atitude tomada por Frota e membros do Movimento Brasil Livre (MBL). “Olha, eu acho que eles tem razão no protesto deles. Nós representamos tudo aquilo que eles odeiam. Nós somos o inferno pra eles e isto não vai se resolver agora”. Para Safatle, a atitude tomada na realidade revela que os que estão usando uma espécie de discurso liberal, como o MBL, de fato são mentirosos. “Não existe nenhum liberal no mundo que iria perder o seu tempo para fazer alguém cancelar uma palestra, a não ser em casos muitos radicais como apologia ao Nazismo, por exemplo”, diz. Para o coordenador do seminário, “estamos tratando com os seres mais autoritários possíveis, que se travestem de liberais”. Ele lembra que a própria Universidade de Harvard, abriu suas portas para ouvir o então presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, considerado praticamente à época um dos principais inimigos dos Estados Unidos. “A Verdadeira prática de um liberal seria fazer outro seminário, ir discutir… Impedir está na ordem do mais completo absurdo”.

Conflito no Rio nos 100 anos da Revolução Bolchevique

Na última quinta-feira, 25, em conferência na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) que marcava os 100 anos da Revolução Bolchevique, a discussão acadêmica foi interrompida por um grupo que com gestos de intimidação afirmava, entre outras coisas, que a ditadura militar no Brasil nunca ocorreu. A professora titular em história Teresa Toríbio Brittes Lemos, especialista em América Latina, foi hostilizada diretamente por um dos ativistas que gritou “a senhora é comunista”. Brittes relatou que na ocasião os manifestantes filmavam e falavam que iam mandar para o comandante do Exército.
A segurança da Uerj foi acionada e dezenas de estudantes que estavam em salas e corredores rapidamente foram ao local em solidariedade ao evento.

Marcado .Adicionar aos favoritos o permalink.
© Copyright 2014, Jornal Extra Classe - Todos os direitos reservados.

Os comentários estão encerrados.


CONTEÚDOS RELACIONADOS