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26/10/2017
POLÍTICA

Soberania e política externa sob regressão

Para o embaixador Celso Amorim, país fez opção pela desnacionalização após criminalizar empresas, perde soberania e projeta imagem vergonhosa para o mundo
Da Redação
Celso Amorim, com Edegar Pretto, presidente da Assembleia Legislativa: "grupos internacionais ou estatais estrangeiras estão se apoderando de nossas riquezas"

Foto: Marcelo Bertani/ Agência ALRS

Celso Amorim, com Edegar Pretto, presidente da Assembleia Legislativa: “grupos internacionais ou estatais estrangeiras estão se apoderando de nossas riquezas”

Foto: Marcelo Bertani/ Agência ALRS

Palestrante da 7ª edição do Fórum Grandes Debates da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, na noite de quarta-feira, 25, no Teatro Dante Barone, o ex-ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, criticou as políticas adotadas pelo atual governo, que segundo ele envergonham o país e representam muitos retrocessos, e condenou a conduta dos juízes da Lava Jato pela tentativa de criminalização generalizada. “A Lava Jato promoveu uma brutal criminalização de tudo, inclusive, de práticas absolutamente normais, feitas em todos os países”, alertou o diplomata. Sob o tema A Política Externa Brasileira e o Desenvolvimento, o evento foi coordenado pelo professor Benedito Tadeu Cézar, membro do Comitê Gaúcho do Projeto Brasil Nação.

Formado pelo Instituto Rio Branco e pós-graduado em Relações Internacionais pela Academia Diplomática de Viena (Áustria), Amorim ocupou por duas vezes o cargo de ministro das Relações Exteriores do Brasil: de 1993 a1995, no governo Itamar Franco, e de 2003 a 2010, no governo Lula. Também foi ministro da Defesa de 2001 a 2015, no governo Dilma Rousseff. Durante o governo Lula, foi responsável pela formulação e coordenação da chamada “diplomacia ativa e altiva”, que caracterizou a política externa independente, soberana e multilateralista do país durante o período. Incluiu entre os principais objetivos da política exterior a luta contra a fome, a pobreza e o unilateralismo, a defesa da integração latino-americana e sul-americana, além da paz entre os povos. Também formulou coalizões com países do hemisfério sul e participou ativamente na institucionalização dos BRICs – bloco de países emergentes formado pelo Brasil, Rússia, Índia e China e África do Sul.

Para o embaixador, a operação da Polícia Federal colocou um grande número de empresas sub judice, contribuindo para a destruição de ativos nacionais. “Mais do que privatizações, há um processo em curso de desnacionalização de nossas empresas. Não se vê empresa nacional comprando ativos na área do petróleo ou na área elétrica. São grandes grupos internacionais ou estatais estrangeiras que estão se apoderando de nossas riquezas”, apontou.

Debate A Política Externa Brasileira e o Desenvolvimento e foi coordenado pelo professor Benedito Tadeu Cézar, membro do Comitê Gaúcho do Projeto Brasil Nação

Foto: Marcelo Bertani/ Agência ALRS

Debate A Política Externa Brasileira e o Desenvolvimento e foi coordenado pelo professor Benedito Tadeu Cézar, membro do Comitê Gaúcho do Projeto Brasil Nação

Foto: Marcelo Bertani/ Agência ALRS

Ele condenou ainda a postura do governo brasileiro em relação à crise na Venezuela. “O governo pode ter a preferência que tiver, mas não pode se dar ao luxo de não dialogar. Muito menos perder as condições de fazer mediações porque tomou partido. Isso foi, sem dúvida, um giro na política externa do Brasil, que sempre foi chamado para facilitar a conversa em todo o mundo”, comparou.

A portaria do Ministério do Trabalho que abranda os critérios para o enquadramento do trabalho análogo à escravidão, suspensa por liminar do STF, foi um erro estratégico e representou um golpe para o país. “É uma vergonha. O Brasil passou da condição de exemplo mundial no combate ao trabalho escravo para uma situação em que só reconhece a escravidão se houver restrição do direito de ir e vir. Praticamente, exige a presença do grilhão. Obviamente, isso reflete na política externa e provoca perda de respeitabilidade e prestígio para o país”, enfatizou.

Amorim destacou, ao avaliar as políticas externas adotadas pelo país nos governos Lula e Dilma, a criação dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), após o surgimento do IBAS (Índia. Brasil e África do Sul). “O IBAS (Fórum de Diálogo Índia, Brasil e África do Sul) foi uma iniciativa do segundo dia do governo Lula, que abriu espaço para os BRICS”, lembrou. “Uma das grandes mentiras da grande mídia é que o Mercosul não deu certo. Até 2012, o comércio na região cresceu 12 vezes contra um avanço três vezes menor do comércio mundial”, comparou. Também destacou o papel central do Brasil no fim dos subsídios agrícolas concedidos pelas grandes potências econômicas, ao liderar uma aliança de 110 países na Organização Mundial do Comércio (OMC).

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