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01/12/2017
MOVIMENTO

Documentário e livros resgatam luta de Dom Evaristo Arns contra ditadura e em defesa dos direitos humanos

As muitas vidas do Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns resgata trajetória do religioso, que entrou em prisões do Dops para resgatar presos políticos e confrontou líderes militares nos anos de chumbo
Por Marcelo Menna Barreto
Arns com o jornalista Ricardo Carvalho, autor do documentário sobre a trajetória do líder religioso falecido no ano passado: correspondência com Fidel Castro, visitas aos porões da ditadura, resgate de presos e busca de desaparecidos

Foto: Divulgação

Arns com o jornalista Ricardo Carvalho, autor do documentário sobre a trajetória do líder religioso falecido no ano passado: correspondência com Fidel Castro, visitas aos porões da ditadura, resgate de presos e busca de desaparecidos

Foto: Divulgação

Dezembro de 2016, às 11h45 do dia 14 dava seu último suspiro na capital paulista o Cardeal da Igreja Católica Dom Paulo Evaristo Arns. Agora, às vésperas do primeiro ano de sua morte, eventos organizados pelos mais variados setores da sociedade buscam formas de homenagear o homem que, junto a Dom Hélder Câmara, personificou a luta da Igreja progressista contra a ditadura dos militares e a defesa intransigente dos direitos humanos.

Resultado de um trabalho de quatro anos do jornalista Ricardo Carvalho, sob o título Coragem! As muitas vidas do Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, o país ganha o primeiro documentário sobre o religioso, o mais importante Cardeal brasileiro do século 20, com pré-estreia marcada para 11 de dezembro, às 20 horas, no Cine Caixa Belas Artes, em São Paulo (SP), e estreia comercial simultânea em Porto Alegre (RS) e na capital paulista, no dia 14 de dezembro, no Espaço Itaú de Cinema.

O documentário tem a narração de Paulo Betti e, segundo Ricardo Carvalho, já provocou um comentário recorrente por quem o assistiu em primeira mão: “Dom Paulo está fazendo muita falta neste país conflagrado”. Segundo o jornalista, que soma ao roteiro e direção do documentário dois livros escritos sobre o Cardeal (O Cardeal e o Repórter, Editora Global, e O Cardeal da Resistência – As muitas vidas do Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, editado pelo Instituto Vladimir Herzog), o vasto material reunido e a proximidade com Dom Paulo o motivou a elaborar o filme.

“Por conta de minha experiência profissional acumulada em tantos anos de trabalho, achei que era hora de escrever e dirigir um documentário que pudesse expandir ainda mais o trabalho de Dom Paulo”, explica Carvalho. Tomada a decisão, o jornalista acrescentou às informações já guardadas (reportagens, encontros com o Cardeal, fotos, gravações) o amplo material garimpado graças a colaboradores como Maria Angélica Borsoi (secretária de Dom Paulo por mais de 40 anos), que lhe deu acesso à Sala Cardeal Arns; à família do religioso; veículos de comunicação como Folha de São Paulo, TV Globo, TV Cultura, TV PUC e Rede Rua, que cederam material de arquivo. “Foi um trabalho de ourivesaria”, afirma o autor, “buscando a melhor fala, descobrindo coisas pouco conhecidas, entrevistando pessoas-chaves.

Entre as revelações, o público saberá sobre o encontro de Dom Paulo com o general Emílio Garrastazú Médici (presidente militar de outubro de 1969 a março de 1974); a correspondência de Dom Paulo com Fidel Castro; as visitas aos porões da ditadura militar para resgatar presos e reuniões em Brasília em busca de desaparecidos.  O teólogo Leonardo Boff, que foi aluno de Dom Paulo e deve a ele a sua formação intelectual, pontua o documentário com mais revelações.

Em 1h15 minutos, o filme “vai levar para o cinema o trabalho que ele fez pelos pobres da cidade grande, pela resistência ao regime militar, pela periferia de São Paulo, pela democracia, tudo que o faz o grande Cardeal brasileiro do século 20”, expõe Carvalho ao registrar que, três meses antes de morrer, Dom Paulo assistiu a uma das versões quase prontas do filme. Ele ainda lembra a emoção do “Cardeal da esperança” ao abraçá-lo e a Ivo Herzog, diretor do Instituto Vladimir Herzog, que apoiou a realização do filme que tem como coprodutora a Globo Filmes.

Biografias: segredos do coração

A jornalista Evanize Sydow, biógrafa de Evaristo Arns: respostas a questões fundamentais sobre a história de milhares de vítimas de perseguições e do arbítrio

Foto: Divulgação

A jornalista Evanize Sydow, biógrafa de Evaristo Arns: respostas a questões fundamentais sobre a história de milhares de vítimas de perseguições e do arbítrio

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Escrita pelas jornalistas Evanize Sydow e Marilda Ferri em 1999 e publicada pela Vozes, Dom Paulo, um homem amado e perseguido biografia autorizada pelo próprio religioso chega agora ao público pela Editora Expressão Popular de forma revisada e ampliada, com os acontecimentos na Igreja Católica dos últimos 17 anos.

Conforme Evanize Sydow, que tem ainda em seu currículo a recente coautoria da Biografia de Frei Betto (Civilização Brasileira), o livro estava pronto para ser lançado em 2016, como parte das homenagens aos 95 anos de Dom Paulo, mas foi adiado pela repentina morte do cardeal 46 dias após a homenagem realizada no Teatro da Universidade Católica, o Tuca, última aparição pública de Dom Paulo. Na ocasião, mesmo com dificuldades para falar, Arns fez questão de usar o boné do MST que lhe foi entregue por militantes.

Considerada uma obra de referência para responder questões fundamentais que marcaram a história de milhares de vítimas de perseguições e do arbítrio durante o período do regime militar, a biografia, nas palavras do próprio biografado, foi o resultado de estudos de teses, leitura de vários relatórios, aprofundamento nos segredos de documentos e discursos muitas vezes difíceis de encontrar e “já, quem sabe, arquivados em lugares onde vão desaparecer”.

Dom Paulo, ainda no texto que dá testemunho à primeira edição e é reproduzido nessa reedição, não esconde o orgulho das autoras, a quem chama oficialmente suas biógrafas, pela coragem, “arrojo jornalístico” da consulta de 118 pessoas que “são contra ou a favor de Dom Paulo”. O cardeal ainda disse na ocasião: “Elas fizeram o que fez o maior escritor cristão da Antiguidade, São Jerônimo. Foram para scrinia cordis, quer dizer, examinaram os segredos do coração de algumas pessoas e puderam revelar aquilo dentro do livro. Coisas que eu mesmo confessei a elas e não confessei a outros”.

Legado para os jovens

O lançamento da versão atualizada de Dom Paulo, um homem amado e perseguido acontecerá no dia 13 de dezembro, às 19h no auditório do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp). No ato será realizado um debate sobre o legado do religioso, tanto para a Igreja Católica, quanto para os movimentos sociais, com a presença de Frei Betto, do jurista Fabio Konder Comparato, da desembargadora do Tribunal de Justiça de São Paulo Kenarik Boujikian, da presidente da Apeoesp Maria Izabel Noronha, do Pastor Ariovaldo Ramos, ex-presidente da Associação Evangélica Brasileira, e da vereadora de São Paulo Sâmia Bonfim (PSol).

Para a biógrafa Evanize, o debate que integra o lançamento de sua obra atualizada tem o objetivo de não ser só um evento para relembrar a vida de Dom Paulo, mas para aprofundar o “legado desse grande homem; discutir, por exemplo, que tipo de Igreja tínhamos na época dele e a Igreja que temos hoje em São Paulo”, contrapõe. Para a jornalista, o evento, nessa proposta, acabará se tornando uma discussão supra Dom Paulo: “Nesse olhar de retrospectiva, queremos olhar também para o que vivemos hoje, a Igreja do Papa Francisco, tão próxima a Igreja de Dom Paulo”, pontua Evanize ao destacar a sua preocupação com o conservadorismo que ainda está presente nos seminários, fruto dos dois pontificados anteriores a Francisco.

A biógrafa destaca ainda que o relançamento da biografia de Dom Paulo tem objetivos maiores: “Queremos nos aproximar da juventude, trazer Dom Paulo para esse público”. É nesse sentido a presença de Sâmia na mesa de debates, explica, pois se trata da vereadora mais jovem de São Paulo, com 28 anos de idade. Evanize revela que está programada uma exposição sobre Dom Paulo no Centro Cultural Correios de São Paulo, em 23 de junho de 2018, justamente para o público jovem.

Com itinerância ainda em discussão, a exposição sobre Dom Paulo, também sob a organização de suas biógrafas, usará muitos recursos lúdicos, de interatividade e meios multimídia. “Entendemos que esse personagem e a história que permeia a vida dele devem ser conhecidas por um público que não chegou a ter contato com a sua vida e, através de Dom Paulo também, contar a história do Brasil”, conclui Evanize.

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Concerto, coragem e esperança

A Catedral Metropolitana de São Paulo e referências das ações de Dom Paulo, como o ato ecumênico que denunciou o assassinato do jornalista Wladimir Herzog em outubro de 1975, considerado a maior manifestação contra a ditadura militar, integra a série de homenagens ao seu arcebispo emérito falecido. Além das missas em memória à Dom Paulo, no dia 10 de dezembro, na cripta da Catedral da Sé, às 12h30, haverá um concerto do Coro Luther King, com participação especial do Grupo Palimpsesto.

Segundo o Cura da Catedral, Padre Luiz Eduardo Baronto, Dom Paulo teve vários contatos com o maestro Martinho Lutero Galati. “Houve uma série de concertos Fé e Coragem, na ocasião do falecimento de Dom Paulo. Agora, um ano após sua passagem, eles voltam para mais uma vez prestar sua homenagem”, destaca Baronto. Em convite divulgado nas redes sociais, a Rede Cultural Luther King declara que Dom Paulo foi um “companheiro de estrada e de tantas lutas, fonte de inspiração para o Coro Luther King” e dá uma dica do repertório: “Celebraremos a vida e a transcendência com cantos natalinos de tradição latina, renovando sua mensagem de coragem e esperança”.

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