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07/02/2018
ENTREVISTA | PEDRO FERRARACIO CHARBEL

Boicote contra o apartheid israelense a palestinos

Por Marcelo Menna Barreto

Boicote contra apartheid israelense a palestinos

Acervo/Divulgação/BDS

Acervo/Divulgação/BDS

Pedro Ferraracio Charbel é o coordenador das campanhas da América Latina do Comitê Nacional Palestino no movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS). Iniciativa inspirada nos protestos de âmbito mundial que acabaram derrubando o regime segregacionista da África do Sul, o BDS está incomodando muito o governo de Israel que  mantem ocupação e colônias em terras palestinas desde 1948 em desacordo com resoluções tomadas pelas Nações Unidas.

Charbel é ativista e pesquisador brasileiro de direitos humanos e esteve envolvido em diferentes campanhas e lutas pela justiça, igualdade e liberdade no Brasil e em todo o mundo. É formado em Relações Internacionais pela Universidade de São Paulo (USP), onde atualmente faz seu Mestrado em Sociologia. Foi um dos fundadores da Frente Palestina da USP e da Rede Educacional para os Direitos Humanos na Palestina / Israel (FFIPP-Brasil). Ainda foi voluntário no Programa de Acompanhamento Ecumênico na Palestina / Israel (EAPPI), denunciando violações de direitos humanos e direito internacional e fornecendo presença protetora na Cisjordânia ocupada. Charbel participou de várias reuniões do Comitê das Nações Unidas para o exercício dos direitos do povo palestino como participante convidado e foi membro do Comitê Diretor da Conferência Internacional de Governos Locais e Civil do Comitê Organizações da sociedade em apoio dos direitos palestinos.

Antes de ingressar no BDS, Charbel trabalhou na Secretaria de Relações Internacionais do município de São Paulo, na Coordenação de Assuntos Internacionais e Cooperação Bilateral. Também foi pesquisador interno no Centro Nacional de Pesquisa da França (CNRS) e no laboratório PRISME da Universidade de Estrasburgo, desenvolvendo sua pesquisa sobre a responsabilidade dos direitos humanos das corporações e da Justiça Transitória, enquanto em programa de intercâmbio no programa de Mestrado em Estratégias Territoriais e Urbanas da Ciências.

Extra Classe – O BDS surgiu em 2005, no entanto poucas pessoas, fora ativistas e pessoas simpáticas à causa palestina o conhecem com mais profundidade aqui no Brasil. Existe alguma espécie de boicote ao BDS na mídia tradicional?
Pedro Charbel – O movimento BDS está na mídia mainstream dos Estados Unidos e Europa praticamente todos os dias. No Brasil, ainda há menos cobertura do movimento, o que se deve tanto às características da mídia tradicional brasileira, quanto ao tratamento dado a questão palestina no país de modo geral: fala-se mais em ocasiões emergenciais, sem muita informação constante sobre o tema.

EC O único e último dado oficial, dado por um organismo da própria Nações Unidas, que atribuiu a responsabilidade de grande parte da queda 50% de investimentos estrangeiros em Israel foi divulgado em 2014. Na sua opinião, existe também alguma tentativa de se boicotar também a divulgação dessas informações econômicas?
Charbel – Há diferentes esforços para medir o impacto econômico do movimento BDS, inclusive de organizações israelenses. Os êxitos do movimento BDS não se medem, no entanto, somente por seu impacto na economia de Israel. Empresas multinacionais como Veolia, G4S, Orange, Caterpilar, entre outras, registram centenas de milhões de dólares em prejuízos por contratos perdidos em decorrência de seus vínculos com o apartheid israelense. Há ainda, os impactos políticos e simbólicos do BDS, não mensuráveis em números mas fortemente evidentes – não à toa, Israel tem feito de tudo para tentar fretar o movimento.

ECMesmo com a pouca divulgação no Brasil, sabemos que o BDS tem incomodado muito o governo de Israel. O recente anúncio de não permissão de entrada de 20 organizações que apoiam o movimento no país, entre elas uma recebedora do prêmio Nobel da Paz (leia matéria relacionada) demonstra claramente. Fora isso, como se pode aferir que o BDS está atingindo seus objetivos?
Charbel – A recente lista publicada pelo governo israelense é apenas mais uma dentre muitas outras medidas. O BDS é um dos assuntos prioritários do Ministério de Assuntos Estratégicos de Israel, há leis criminalizando o movimento em Israel e legislações semelhantes sendo impulsionadas por grupos de lobby na Europa e Estados Unidos. Mas muitas reações do regime israelense de apartheid revelam a efetividade do movimento BDS.  No âmbito cultural, por exemplo, artistas internacionais recebem cachês muito superiores para tocar em Israel em comparação aos valores da Europa e seus contratos apresentam cláusulas extremamente mais rígidas sobre cancelamentos para tentar evitar que sejam convencidos a aderir ao movimento.

EC E dentro de Israel? Você falou em criminalização do BDS. Também existe uma ação para frear os grupos dissidentes à política do governo?
Charbel – Dentro de Israel, organizações israelenses não podem receber financiamentos públicos caso apoiem o BDS, e até mesmo grupos artísticos são obrigados a se apresentarem em colônias ilegais  na Cisjordânia para terem apoio do governo.

EC Diante do crescimento do BDS, alguma coisa mais se verifica no ambiente econômico de Israel?
Charbel – Há diversos depoimentos de empresários israelenses afirmando que com o crescimento do BDS a América Latina, Ásia e África se tornaram mercados mais importantes para eles.

EC Em matéria recente do Extra Classe você afirmou que o Ministério de Assuntos Estratégicos de Israel tem uma pasta especificamente voltada para o BDS, com um grande orçamento. O cineasta israelense Eyal Sivan que apoia o boicote cultural contra Israel disse uma vez que o país “já não quer convencer, mas tornar-se atrativo”. Ele falou também da campanha Brand Israel, preocupada em vender ao mundo a imagem simpática da “única democracia do Oriente Médio”, onde o estado sionista alicia artistas e intelectuais a visitarem e atuarem em Israel com cachês milionários, “irrecusáveis”. Como você analisa isto?
Charbel – Assim como a África do Sul do apartheid, o regime israelense tenta adiar o inevitável momento em que será um Estado pária, financiando e impulsionando iniciativas culturais que pintem o apartheid contra os palestinos com tons positivos, criando uma máscara de normalidade. Em 2005, Israel iniciou, como você disse, um esforço publicitário oficial chamado Brand Israel, cujo objetivo é criar uma imagem moderna e positiva do regime israelense, instrumentalizando a cultura para desviar o debate sobre as violações de direitos humanos e do direito internacional. Esse esforço atinge de festivais de cinema e gastronomia a shows internacionais, de eventos esportivos a viagens gratuitas para celebridades e influenciadores digitais.

Boicote contra apartheid israelense a palestinos

Acervo/Divulgação/BDS

Acervo/Divulgação/BDS

EC Há informações de que o boicote cultural talvez seja o que tem mais preocupado o governo israelense. É verdade?
Charbel – O boicote cultural é uma ferramenta estratégica que se revelou muito mais eficaz do que qualquer outra medida para pressionar Israel a respeitar o direito internacional. Não se trata de boicotar indivíduos, mas de não se vincular institucionalmente com o regime israelense e seus esforços de propaganda. Nesse sentido, a recusa de artistas internacionais a fazer shows em Israel tem muito mais impacto sobre o apartheid israelense do que qualquer declaração crítica que pudessem fazer, ou do que qualquer apelo vão e genérico por “paz” ou “justiça”. Os palestinos e palestinas estabeleceram uma linha de piquete de modo similar ao que foi feito na África do Sul do apartheid, e sabemos o quão efetivos e fundamentais foram os boicotes culturais para o fim do apartheid nos anos 1990 naquele país.

EC – Sabe-se que especialmente no Rio de Janeiro, importantes lideranças e intelectuais de esquerda são convidadas a visitar Israel, talvez dentro deste programa Brand Israel. Um exemplo foi a polêmica visita do deputado Jean Willys, criticada até por alguns de seus pares no PSol. Agora, segundo uma fonte, estariam investindo em lideranças do movimento negro. Confere essa minha informação?
Charbel – A utilização cínica de causas e movimentos é comum à regimes repressivos e discriminatórios. O regime de apartheid israelense tenta a todo momento criar uma imagem positiva e moderna de seu arcaico sistema de discriminação racial, ocupação e colonização. É difícil , no entanto, imaginar que movimentos negros que lutam contra o genocídio da população negra e pobre do Brasil serão convencidos a apoiar o regime que treina e equipa as polícias brasileiras que perpetram esse genocídio. O mesmo regime que discrimina contra palestinos também aprisiona migrantes e refugiados africanos,  e até mesmo já esterilizou a força mulheres etíopes. Israel apoiou e armou o apartheid sul-africano e hoje lucra com o encarceramento em massa de negros nos Estados Unidos (Nota do Editor: por meio de empresas israelenses exportadoras de tecnologia em segurança). Não à toa, aqueles que lutaram contra o apartheid da África do Sul, incluindo o próprio Congresso Nacional Africano e movimentos como o Black Lives Matter, nos Estados Unidos apoiam o movimento BDS.

EC Falando em Estados Unidos, o governo Trump, desconsiderando recomendações da ONU, decidiu pelo deslocamento da Embaixada americana de Tel Aviv para Jerusalém. Qual a avaliação do Comitê responsável pela articulação do BDS no mundo sobre isto?
Charbel – O ato de Donald Trump em relação a Jerusalém se configura como uma grave tentativa de dar legitimidade ao controle ilegal desta cidade por Israel. Trata-se de uma iniciativa que aprofunda e consagra ainda mais a cumplicidade dos Estados Unidos com o apartheid israelense, encorajando Israel a continuar a limpeza étnica e colonização da cidade. Este processo é muito visível: entre 2004 e setembro do ano passado, por exemplo, Israel demoliu 730 casas palestinas em Jerusalémm e proibiu 14.500 palestinos de viver na cidade. Os palestinos residentes em Jerusalém sequer têm direito de votar nas eleições nacionais e para o parlamento, sendo que 1/4 deles vivem isolados pelo Muro de Apartheid israelense. O apartheid de Israel separa famílias e amigos, impede que muçulmanos e cristãos acessem locais sagrados na Cidade Velha, destrói a economia palestina. Tudo isso com o apoio dos Estados Unidos e agora com essa chancela diplomática vergonhosa.

EC Como se pretende tratar isto?
Charbel – Os palestinos continuam  a insistir em alcançar seus direitos estipulados pela ONU. Não há melhor resposta ao ato de Trump do que o aumento da resistência popular e do movimento global de Boicote, Desinvestimento e Sanções ao apartheid, colonialismo e ocupação israelenses.

EC – E você otimista diante dessa realidade?
Charbel – É importante dizer que ainda em dezembro de 2017, em uma sessão de emergência, a esmagadora maioria das nações do mundo na Assembleia Geral da ONU votou em favor de uma resolução contra a decisão dos EUA de reconhecer Jerusalém como a capital de Israel. O próprio Conselho de Segurança das Nações Unidas também rejeitou a posição Estados Unidos. Mas o movimento BDS exige sanções significativas. É hora de transformar declarações em ações. Seguir o exemplo do Congresso Nacional Africano (ANC), da África do Sul, que em sua conferência geral aprovou por unanimidade o fim dos laços diplomáticos com Israel. Avançar rumo a um embargo militar contra o regime de opressão de Israel, coisas desse tipo.

EC – Falando em Embargo Militar, soube que em julho o Rio sediará um Tribunal Popular internacional justamente neste tema. Poderia comentar sobre isso?
Charbel – Movimentos de favela do Rio de Janeiro organizam há alguns anos o Julho Negro, uma série de eventos para denunciar o militarismo e as conexões da indústria global de injustiça que afeta povos em todo o mundo. Neste ano, um dos momentos deste evento será um Tribunal Popular organizado em coordenação com movimentos sociais e organizações de direitos humanos de toda a América Latina, África do Sul, Índia e Palestina. O objetivo será colocar Israel no banco dos réus em casos de violações de direitos humanos em nossa região. Temos que evidenciar as conexões da industria do apartheid israelense com os processos que oprimem, matam, discriminam e militarizam populações em nossas sociedades, das ditaduras da América Central, ao muro dos Estados Unidos na fronteira com o México; dos guardiões da PM paulista, ao BOPE no Rio de Janeiro.  Um embargo militar a Israel é urgente para que paremos de importar as tecnologias e discursos desenvolvidos pelo regime de apartheid contra os palestinos. 

EC – Como o cidadão comum, aquele que não é um ativista disposto a sair às ruas com uma faixa de “Palestina Livre” em punho, mas que acha injusto o descumprimento das resoluções internacionais e o tratamento que o estado de Israel dispensa ao povo palestino pode fazer para contribuir com o movimento BDS?
Charbel – O movimento BDS começou, em 2005, com um chamado do povo palestino a todas e todos nós ao redor do mundo. O objetivo é pressionar Israel a respeitar o direito internacional, rompendo os vínculos de cumplicidade e apoios diretos ou indiretos à colonização, apartheid e ocupação perpetradas contra o povo palestino. A força do movimento reside no fato de que todos podemos contribuir. A participação se dá de vá4rias formas, até pressionando para que o condomínio onde mora ou a empresa em que trabalha não contrate serviços de empresas cúmplices do apartheid israelense como a empresa de segurança G4S, responsável por treinar a polícia israelense – e até recentemente gestora das prisões em Israel. No meio acadêmico, reivindicando que a universidade em que estuda não tenha convênios com instituições israelenses como a Universidade Hebraica e a Universidade de Tel Aviv, intimamente ligadas às violações de direitos humanos contra os palestinos ou organizando boicotes locais a produtos de empresas como HP, Caterpillar e Cemex, dada a participação destas empresas nos crimes israelenses, e assim por diante…

 

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