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28/03/2018
MOISÉS MENDES
COLUNISTA

O supremacista, uma figura nem sempre percebida como tal entre os que jogaram pedras em Lula, é um atormentado pelas ameaças das esquerdas e dos avanços civilizatórios

 

Foto: Guilherme Santos/Sul 21

Foto: Guilherme Santos/Sul 21

Se os imigrantes europeus do século 19 desembarcassem hoje no Rio Grande do Sul, seriam enviados de volta no mesmo dia. Alemães, italianos, poloneses, austríacos, portugueses e de tantas outras etnias seriam escorraçados pelos próprios descendentes. A xenofobia e o racismo alastraram-se entre a sétima ou oitava geração dos primeiros imigrantes.

O que mobiliza suas raivas e seus ódios, como os manifestados contra a caravana de Lula no estado, não é necessariamente um mecanismo acionado por conflitos de classes. É a expressão de uma distorção de imagem.

O racista gaúcho descendente dos europeus considera-se um ser superior, como muitos dos seus antepassados e de seus parentes mais recentes se consideravam. O racista pode ser um trabalhador comum, um pobre ou apenas um ajudante do grande racista, seu chefe ou seu patrão.

O supremacista que ataca as esquerdas não lastreia suas manifestações necessariamente em bases ideológicas bem sustentadas, mesmo que tenha curso superior, um bom trabalho e uma família sólida, como as pesquisas mostram que é boa parte do eleitor de Bolsonaro.

O supremacista, uma figura nem sempre percebida como tal entre os que jogaram pedras em Lula, é um atormentado pelas ameaças das esquerdas e dos avanços civilizatórios. Lula atrai seus ressentimentos.

Na cabeça do antiLula e do antiDilma, o Rio Grande do Sul deve ser uma terra imune a ideias que ameacem a sua superioridade branca. O lulismo não pode contagiar o estado que mais cultua pretensas tradições e se agarra a gestos e ilusões de bravura para escamotear suas misérias.

O supremacista mal sabe que não descende, pelos conceitos que defende, de seres superiores. Se não fosse hipnotizado pelo autoengano, saberia que a maioria dos imigrantes era a rafuagem econômica e social da Europa, na mesma definição que o racista usa contra quem ele odeia.

Descendentes de alemães, por exemplo, deveriam saber (e alguns sabem, mas negam) que os primeiros a chegar ao estado no início do século 19 não eram os que a História apresenta de forma romântica como colonos em estado de pureza em busca da terra prometida. Eram criminosos de todo tipo arregimentados em cadeias alemãs para o reforço da guarda nacional e para ocupar territórios.

É o que pode ser lido em qualquer livro básico sobre as imigrações. Os colonos eram a sobra de mudanças profundas na estrutura socioeconômica da Europa, nas cidades, com a industrialização, e no campo, com a reacomodação do feudalismo e da estrutura agrária aos ventos do capitalismo. Os colonos eram artesãos sem ocupação e mão de obra rural descartada pela supremacia de “gente superior”.

Mas eram mais do que pobres coitados, eram também o que o supremacista branco gaúcho define como bandido. O racista gaúcho mandaria de volta muitos dos seus ancestrais, se ficasse diante da história que eles traziam para o Brasil. Os primeiros imigrantes alemães eram ex-condenados e encarcerados que só teriam a chance da liberdade aqui.

O racista eleitor de Bolsonaro, que aplaude os tiros contra a caravana de Lula e que repete a frase de que bandido bom é bandido morto, pode ser também ele um descendente de bandidos. Não apenas jovens ladrões de batatas sem trabalho que viravam mendigos e passavam a furtar, mas de assassinos.

No rastro dos criminosos, empolgados com a possibilidade de receberem terra de graça no Brasil, vieram os miseráveis que mais tarde, se não viessem, poderiam virar presidiários. Não só os pobres, mas os miseráveis mesmo, o lúmpen da Alemanha e da vizinhança. O sangue europeu do brasileiro é de gente que o capitalismo expurgava.

Eu, meus filhos e mais meus netos com seus sangues de poloneses, alemães, italianos e portugueses degredados, misturados aos sangues de índios e negros, somos descendentes de gente que veio parar aqui porque poderia morrer de fome na Europa, como muitos morreram. Uma minoria descende da elite econômica dos imigrantes, mas nem esses podem reivindicar superioridade alguma sobre ninguém.

O supremacista, que se apresenta como um antiesquerdista, mas é bem mais do que isso (muitos são homofóbicos), é um xenófobo que, na média, talvez tenha apenas a suspeita de onde veio. Mas que se nega a ir a fundo na busca da sua identidade e das suas origens verdadeiras.

O supremacista que odeia negros, que rejeita cotas na universidade, que atribui aos nordestinos os fracassos nacionais e que faz discursos contra o Bolsa Família (enquanto sonega e pega empréstimos subsidiados dos governos) é um sujeito transtornado pela impotência do sentimento de inferioridade.

O antilulismo e o antipetismo são apenas pretextos para que o supremacista ataque quem promoveu políticas de afirmação de pobres e negros. O supremacista é um acovardado diante da sua verdadeira face como descendente de quem ele desejaria matar pela negação.

O fascista que odeia pobres é um assassino da própria história e da memória dos seus ancestrais.

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