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23/01/2018
MOVIMENTO

No dia anterior ao julgamento do ex-presidente Lula, ativistas pela democracia mudaram a rotina da capital gaúcha, vindos do interior, de outros estados e do exterior
Por Cristina Ávila
Ato na Esquina Democrática reuniu cerca de 80 mil pessoas para ver e ouvir Lula

Foto: Igor Sperotto

Ato na Esquina Democrática reuniu cerca de 80 mil pessoas para ver e ouvir Lula

Foto: Igor Sperotto

O ex-senador e atual vereador da cidade de São Paulo, Eduardo Suplicy, desceu um trecho de 200 metros da Borges de Medeiros, entre a Esquina Democrática e a Prefeitura, no centro de Porto Alegre, sem poder andar direito, como um pop star rodeado de celulares levantados, abraçado, esmagado. Era por volta de 17h desta terça-feira, 23, cerca de duas horas antes da chegada de Luiz Inácio Lula da Silva, e o centro da capital gaúcha esquentava minuto a minuto, inchando a cada grupo das colunas dos movimentos sociais que chegavam em caminhada dos extremos da cidade. A zona central esteve cercada por centenas de policiais, que assistiam a tudo praticamente sem sair do lugar nas ruas periféricas à multidão, com olhares plácidos de quem recebera severas ordens para não manchar o cenário com os espetáculos que costumeiramente deixam manifestantes feridos no Rio Grande do Sul, por bombas, gás lacrimogênio e surras de cassetete. Desta vez – em que 300 a 400 jornalistas brasileiros e de outros 11 países estão em Porto Alegre – não houve nada disso. As redes sociais pulsaram durante os últimos dias, acompanhando as viagens das caravanas vindas pelas rodovias federais. O dia anterior ao julgamento de Lula reuniu entre 70 e 80 mil pessoas na Esquina Democrática – convergência histórica dos movimentos sociais – para acompanhar o pronunciamento do ex-presidente.

O ex-senador e atual vereador de São Paulo, Eduardo Suplicy chegou à capital gaúcha à tarde

Foto: Cristina Àvila

O ex-senador e atual vereador de São Paulo, Eduardo Suplicy chegou à capital gaúcha à tarde

Foto: Cristina Àvila

O céu nublado que parecia desabar a qualquer momento não intimidou a multidão, que provocou uma mutação nas ruas da cidade, entre as 15h e 16h30min desta terça-feira. Todo mundo corria em direção ao centro, ao contrário do que acontece todos os dias. O trânsito praticamente travou, mas ninguém buzinou, e a paciência desfilou principalmente na altura do viaduto da Borges de Medeiros e na Salgado Filho. Um taxista passou xingando o governo, pedindo Lula de volta e reclamando da jornada obrigatória que cumpre depois de um enfarte, para compensar a concorrência com o Uber – “uma multinacional que não paga impostos”.

Jailma Almeida Borges viajou de Itu, no interior de São Paulo, para acompanhar o julgamento

Foto: Cristina Àvila

Jailma Almeida Borges viajou de Itu, no interior de São Paulo, para Porto Alegre

Foto: Cristina Àvila

Não foram apenas lulistas que tomaram as ruas da cidade, embora as estrelas vermelhas tenham contribuído para incendiar os ânimos. As pessoas não cansaram de caminhar. Especialmente os integrantes da Via Campesina que viram o acampamento às margens do Guaíba também crescer mais e mais durante o dia todo. Um clima de festa, mais do que de manifestações contrárias às causas tão dolorosas que afetam as classes trabalhadoras. Mas, mais do que alegria de militantes de várias gerações, Porto Alegre agregou o Brasil em um amplo e caloroso compromisso com a democracia.

“É meu dever estar aqui. O Lula me deu muito apoio, e hoje é ele quem precisa. Larguei a minha casa em São Paulo, e estou em Porto Alegre pra ajudar o movimento aqui. Há dez anos luto por moradia. Eu recebo auxílio-moradia que foi o governo Lula que me deu”, conta Jailma Almeida Borges. A agricultora de Itu, do interior paulista, vestiu uma camiseta vermelha e encarou cerca de 30 horas em quatro ou cinco baldeações de ônibus para desembarcar na frente da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, perto do meio-dia. Nem deu tempo de largar a mala. Foi empurrando a bagagem, cujo principal conteúdo era uma barraca, e se juntou ao grupo do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) para ouvir senadoras e a ex-presidente Dilma Rousseff no grande encontro feminino na Praça da Matriz. Tímida, de pouca fala, tirou self de celular e seguiu com o grupo para o acampamento às margens do Guaíba, perto do Anfiteatro Pôr-do-Sol.

Elza, 79, e o filho, José, de Caxias do Sul

Foto: Cristina Àvila

Elza, 79, e o filho, José, de Caxias do Sul

Foto: Cristina Àvila

A solidariedade trouxe gente das cinco regiões geográficas do Brasil e muita gente do interior gaúcho. Elza da Silva Braz, de 79 anos, aproveitou que os manifestantes ainda chegavam devagar durante a manhã para descansar um pouco na praça, ao lado do filho José Tadeu, mas sem deixar cair os cartazes com dizeres feitos a mão. “Viemos em defesa dos direitos da classe trabalhadoras, e na defesa do Lula, que todos sabemos que é inocente”, relata a mãe, merendeira aposentada da rede pública de ensino em Caxias do Sul.

Teixeira, fundador do PT em Santo Ângelo

Foto: Cristina Àvila

Teixeira, fundador do PT em Santo Ângelo

Foto: Cristina Àvila

“Essa eleição a gente pode ganhar sentado, sem fazer nada”, calcula Luizão Teixeira, que partiu de Santo Ângelo vestindo bombachas, sem desgrudar da bandeira vermelha. Fundador do PT, em tempos vividos com Olívio Dutra nas greves dos bancários nos anos 70, ele se admirou da passividade da segurança pública. “Fomos parados na viagem pela Brigada Militar, eles revistaram o veículo, mas educadamente”, relatou.

Edneide Arruda, Alinne Marques e Mariana Rose, do Movimento de Mulheres de Brasília

Foto: Cristina Àvila

Edneide Arruda, Alinne Marques e Mariana Rose, do Movimento de Mulheres de Brasília

Foto: Cristina Àvila

Pioneira do feminismo na Paraíba e em Rondônia e atualmente moradora de Brasília, Edneide Arruda veio acompanhada por Alinne Marques e Mariana Rose, do Movimento de Mulheres do Distrito Federal, numa viagem que considerou “cheia de percalços”, mas movida “por grande paixão” pela importância do acontecimento. Ela conta que a caravana de três ônibus do DF veio com 159 pessoas e teve algumas confusões no caminho, inclusive com abordagem policial, mas também sem nenhum incidente marcante. “Estamos em uma corrente de amor, gratidão e defesa do homem que tirou muitos da miséria”, bradou Mariane. Foram 40 horas de ônibus – entre a tarde de domingo e a manhã desta terça-feira – mas elas estão de alma lavada, prontas para voltar amanhã mesmo, depois de verem Lula na Esquina Democrática, e da concentração redobrada aos acontecimentos desta quarta-feira no Tribunal Regional Federal da 4ª Região.

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