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Nº 053 | Ano 6| Jul 2001
AMBIENTE
AMBIENTE

Paulo César Teixeira

Com proliferação da enfermidade bovina da “vaca louca” na Europa, sem falar na ameaça constante da febre aftosa, a criação de gado com alimentação 100 % natural desde o pasto até o uso de homeopatias apontam para um novo estilo de pecuária.

 

O discurso caberia na boca de um militante xiita do movimento ecológico, do tipo que invade McDonald’s ou ateia fogo em plantações de transgênicos. “O consumidor está preocupado com a segurança alimentar. Ele quer também garantias de que o alimento que está ingerindo não está comprometido com nenhum tipo de agressão ao meio ambiente.” Mas quem fala é o presidente do Sindicato Rural de Pelotas, Roberto Zago. Sinal dos tempos: um apetitoso mercado está transformando os pecuaristas da região sul do Estado em ferrenhos defensores da natureza. Acuados com o mais recente surto de febre aftosa, que abalou as exportações brasileiras, nossos criadores de gado estão rezando a cartilha verde para tentar recuperar a contabilidade. E o motivo é simples: do outro lado do Oceano Atlântico, apavorado com o surgimento de doenças transmitidas pela carne bovina, como a vaca louca, o consumidor europeu de alto poder aquisitivo agora só quer cravar o garfo em bifes acima de qualquer suspeita.

É daí que nasce a idéia do boi ecológico – o animal criado em pastagens naturais, sem o consumo de anabolizantes, antibióticos ou alimentos vegetais derivados de transgênicos. Os produtores gaúchos planejam exportar a carne com o selo verde cravado na embalagem a partir de 2003 – tempo necessário para consolidar o sistema que começa a ser adotado. A grande vantagem é o preço no mercado europeu, cerca de 30% superior ao da carne com resíduos químicos. A convite da Embrapa, da Farsul e dos sindicatos dos produtores, técnicos da empresa certificadora holandesa Skal visitaram recentemente pecuaristas da região da campanha, onde estão 60% das 14 milhões de cabeças de gado do Rio Grande do Sul. “Atualmente, a carne com certificado de produto orgânico representa de 3% a 5% das importações em 40 países da Europa e nos Estados Unidos. A expectativa é que o nicho irá se expandir, com um crescimento de 20% a 50%”, prevê o representante da Skal na América do Sul, o peruano Jaime Mendivil.

“A proposta do boi ecológico é boa, mas é preciso verificar se,
no final das contas, ela não acabará beneficiando só as
grandes empresas do agrobusiness”.

Credenciada pelo governo holandês para carimbar o selo ecológico nos produtos que desembarcam no porto de Roterdã, a Skal tenta arrebanhar adeptos do boi verde no sul do Brasil. A idéia é incentivar projetos-piloto em Bagé, Aceguá, Lavras do Sul e Pelotas. No Uruguai, cerca de 40 produtores já aderiram à novidade. Os europeus estão de olho também nas pastagens da Argentina e consideram o cone sul do continente americano um verdadeiro “oásis” para a modalidade. “A Europa não tem mais campos nativos. O solo está contaminado”, diz o engenheiro agrônomo Antônio Carlos Gonçalves, do Sindicato Rural de Pelotas. As raças de origem britânica Abeerdin Angos e Hereford, que ocupam nossas pastagens, são as mais adequadas para a implantação do projeto.

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