Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 059 | Ano 7 | Mar 2002
ELISA LUCINDA

Foi como um soco na minha cara, um chute na boca do meu estômago. “Cássia morreu”, dizia-me Lina, uma menina de 12 anos, lá no meio do mato onde estávamos em minha casa de praia, Itaúnas, Espírito Santo, quase Bahia. Notícia chocante que ela tinha recebido numa comunicação pouco clara por um celular, numa conversa com a mãe. Comecei a chorar e a Lina dizia: “Nossa, eu amava tanto ela. Conhecia o filho dela que estuda lá no meu colégio, a mulher dela é tão legal, tão atenciosa com o menino, uma verdadeira mãe”.

Do meio do meu choro, mesmo em desespero daquela perda inesperada, eu observava aquela garota bem criada emitindo declarações emocionadas sobre esta magnífica artista e sua família, sem nenhum resquício de moralismo no tom, nem nas palavras. Eu gritava: Nãaaaao !!! Eu queria falar com ela, queria parcerias com ela, fiz uma música para ela gravar, adorava aquela voz, ela era maravilhosa! Lina me olhava com seus olhos lindos, cheios de lágrimas. Nossos corações mudos cantavam talvez nesse momento a mesma melodia de desamparo: “Quem sabe ainda sou uma garotinha…”

Aquela morte me pegara como o pior presente que uma nação pode receber no meio das festas de final de ano e preparativos para um novo tempo. Cássia Eller era uma cantora sem concorrentes. Cantava até à rapa da panela, lixava o fundo das coisas. Era capaz de arrepiar fácil porque a sua emoção era o cavalo, as rédeas e o galope do seu cantar. Uma cantora com assinatura. Era fácil identificá-la no meio de um mercado tão rico de excelentes cantoras, mas ao mesmo tempo cheio de repetidoras de um certo modelo de voz, de um certo comportamento burocrático. O “mau comportamento” de Cássia assinava embaixo o atestado de um serviço útil à sociedade brasileira. No trote forte do seu dom, ela acabava por nos representar em ousadia, originalidade e coragem. Desde aquele dia é ruim pensar que não haverá outras músicas, a não ser as já gravadas, que terão direito à beleza de sua voz especial e à força de sua interpretação. Tudo que cantava ganhava sentido. Penso que se ela gravasse até “atirei o pau no gato” poderia virar um hino revolucionário na boca do povo. Estou viúva dela. O Brasil está. Somos todos “Eugênias” querendo o melhor para a melhor obra dela, para sua melhor interpretação do mundo, para sua melhor canção que atende pelo nome de Chicão.

Pelo amor de Deus, não é segredo para ninguém que Eugênia é a mãe do menino e deve continuar sendo. A essa altura dos acontecimentos, promover na vida dessa criança mais perdas seria um crime. Esse senhor, Altair, parece não estar apto a responder perguntas básicas sobre esta criança, por cuja guarda está brigando na justiça, porque simplesmente não a conhece. Chicão sabe disso – não o reconhece como parente próximo, não manifesta vontade de viver com ele. Esse avô desembarcou agora na vida do neto, me parece, por interesses alheios aos laços, já que o viu nos seus 8 anos de vida apenas 3 vezes. Ao ser perguntado sobre este fato, o advogado do Sr. Altair respondeu que achava esta questão irrelevante. Ah, dá licença, mas eu não acho. O que eu entendo até agora como normal clássico na atitude dos avós é o fato de eles paparicarem os netos e não o contrário.

Não sei nada sobre a vida que Cássia teve ao lado desse personagem militar. Imagino que, com sua alma livre, não deve ter sido fácil para ela. E também nem sei se Cássia era a filha preferida dele. Não sei se ele se orgulhava dela, de suas posições, seu jeito escrachado e seu gênero de amor.

Mas, nesta hora, eu tinha muita vontade que existisse assombração e que o fantasma de Cássia Eller aparecesse para esse senhor de madrugada e falasse forte, com aquele vozeirão: “Tu se liga, hein, meu velho! O Chicão vai ficar com a Eugênia e aproveita que eu tô calma”. Tenho certeza de que ele de novo voltaria atrás. Daria adeus aos milhões de reais, que o filho herdou da mãe e não o pai herdou da filha, e tudo ficaria, no mínimo, sensato.

Chicão quer Eugênia, Eugênia quer Chicão, os professores e a diretoria do Ceat são testemunhas contundentes da maternidade atuante que Eugênia exerce na vida desse garoto, os amigos do casal também, toda família de Cássia considera um absurdo o desejo do pai de brigar por essa guarda, era da vontade explícita de Cássia, e toda imprensa sabe disso, que o menino ficasse com Eugênia. E por fim a sociedade considera um impropério da parte desse avô, uma atitude mais próxima de uma questão ética, longe de ser amor e mais conhecida popularmente como “olho grande”.

Resta agora que a Lei preserve a causa ganha por Eugênia em primeira instância, respeite a vontade de Cássia e do menino, e não deixe que nenhum moralismo retrógrado ou algum falso testemunho contra a idoneidade dessa mãe venha inviabilizar uma possibilidade de equilíbrio e felicidade que essa criança está ardentemente procurando no meio desse caos. Basta de orfandades para Francisco. Será um absurdo que ele sofra o desamparo da mãe-lei que, em princípio, existe para protegê-lo.

Viúva de Cássia, choro. Choramos também, meu marido, meu filho, meus amigos. E no meio dessas lágrimas queria que a juíza dessa questão se chamasse Lina.

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