Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 061 | Ano 7 | Maio 2002
NEI LISBOA

Nei Lisboa

Le Pen deve perder a eleição do dia 5, na França, mas o fato de ter chegado ao segundo turno já assusta e é mais um sintoma da guinada à direita que assistimos nos últimos tempos. Direita, aliás, que pode-se dizer nunca deixou de comandar a cena, se tomarmos a palavra como representação da intolerância predatória dos donos do arsenal bélico e da riqueza desse mundo. Mutante esperta, quando a economia vai bem e a insatisfação popular é minimizada, permite-se (e nos concede) ares liberais e democráticos; quando a barriga dos miseráveis ronca perigosamente, aperta o garrote e parte pra porrada o quanto for necessário.

Le Pen, Berlusconi, o novo führer austríaco que não lembro o nome, Bush, Sharon e outros tantos compõem no todo um quadro lamentável de poder prepotente, segregacionista, usurpador, militarista e quantos outros péssimos adjetivos se puder juntar. Não há de ser por acaso, meu velho Ubaldo, que esses fantoches são erguidos um após o outro, e grandes interesses econômicos comemoram por trás do pano. Como sempre, a parcela rica e reacionária da população escudará seu apoio em argumentos facilmente descartáveis mais adiante, quando a garantia de uma situação confortável permitir que se horrorize com pequenas atrocidades e genocídios colaterais cometidos no caminho do Bem.

Há coisa de um mês, vi muita gente esclarecida preocupar-se em rechaçar a comparação feita por Saramago entre os acontecimentos na Palestina e os horrores de Auschwitz. A reação em Israel, compreensível, beirou a histeria. Uma repórter quis que o escritor lhe apontasse onde estavam as câmaras de gás. Uma cineasta, emocionada, exigiu-lhe que jamais pronunciasse tal palavra. Sinceramente, não acho que tais pudores contribuam para alguma coisa. Se há exagero na chocante metáfora usada por Saramago, bem, foi para chocar e para qualificar um exagero que a usou.

Não tenho outra definição para um sujeito que se explode dentro de um ônibus urbano senão a de um terrorista psicopata e sádico, e para o mandante do massacre de centenas de civis em Jenin não tenho outra senão a de um primeiro-ministro terrorista psicopata e sádico. Também não vejo problema nenhum em comparar Le Pen a Hitler, ou Berlusconni a Mussolini, ou Bush a ele próprio. Se esperarmos que se tornem o que pensam que são antes de denunciá-los, será tarde demais.

Esses dezoito meses de intifada iniciaram com a visita de Sharon à Esplanada das Mesquitas, muito pertinente se pensarmos que a radicalização que se seguiu elegeu-o primeiro-ministro. Mas outro episódio revelador deu-se nos primeiros dias de novembro de 2001, quando dois atentados do Hamas fizeram 28 mortos e centenas de feridos. Sharon reuniu-se com Bush em Washington para declarar que Arafat estava obrigado a prender os autores dos atentados. Acuado ou a contragosto, o fato é que Arafat anunciou de imediato a captura de 75 militantes do Jihad Islâmica e Hamas – entre eles três líderes deste. Resposta de Sharon, no dia seguinte: bombardear instalações da Autoridade Palestina.

Entre Sharon e Le Pen, Bush e Hitler, qualquer desses magnânimos líderes mundiais, a diferença talvez fique apenas em quais povos gostariam de exterminar, e nas facilidades que encontraram ou não para isso. Entre Auschwitz, Jenin e um ônibus destroçado em Tel Aviv, talvez estejamos falando de abismos estatísticos e métodos bem diversos, mas nada que invalide a declaração de Ghandi, quando lhe perguntaram o que achava da civilização ocidental: “Seria uma boa idéia.”

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