Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 061 | Ano 7 | Maio 2002
LUIS FERNANDO VERISSIMO

Luis Fernando Verissimo

As idéias precisam de caras. Para se realizarem, para se difundirem, para encararem outras idéias. Uma idéia sem cara é uma eterna teoria, uma intenção que nunca passa disto. O diabo é que junto com a cara vem uma biografia, uma dicção, um jeitão, enfim, uma pessoa e nós todos sabemos como pessoa é complicado. A idéia matriz por trás do Hugo Chávez era uma alternativa para o pensamento único que dominou o continente depois da era dos generais. O consenso neoliberal, aquelas coisas. Ele não era para ser um protótipo de alternativa, porque a Venezuela, com sua relação especial com os Estados Unidos e a hiperimportância do petróleo na sua economia, não é muito típica do resto da América Latina. Mas os problemas são os mesmos, a insuficiência do consenso para resolvê-los era o mesmo, e Chávez acabou sendo a primeira cara da alternativa. Mas além da cara havia a idéia que o próprio Chávez fazia de si mesmo e da sua missão. E o discurso messiânico, e o dado inesquecível de que sua outra participação na história do país tinha sido como militar golpista e, talvez o mais perturbador de tudo, seu hábito de terminar cada frase do discurso com uma inflexão de teatro antigo. Ou seja, não faltaram pretextos para combaterem a idéia dizendo que estavam combatendo a cara, ou o cara. Porque o outro lado tem mil caras, ou uma cara e mil máscaras.

Se Chávez iria mesmo construir uma alternativa para a submissão aos Estados Unidos, reverter prioridades, derrotar privilégios, distribuir renda enfim, ser o salvador da sua própria fantasia – é uma especulação agora irrelevante diante da reação orquestrada às mudanças, que seria a mesma, com a mesma violência, independentemente da cara da idéia. A reação mobilizou todas as suas frentes, disfarçadas ou não, contra Chávez e o derrubou. O golpe durou só 48 horas porque a oposição subitamente se lembrou de que os tempos são outros e não se faz mais isso. Com que cara ia ficar? Mas a lição foi dada. Agora Chávez conhece os seus limites. Deu, literalmente, de cara neles.

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