Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 062 | Ano 7 | Jun 2002
EDUCAÇÃO

Jorge Larrosa e Carlos Skliar

O tempo Presente se apresenta a nós de forma incompreensível e, ao mesmo tempo, como aquilo sobre o qual somos obrigados a pensar. Existem formas (teoricamente) diferentes para definir a natureza deste tempo: um tom elegíaco no qual pensamos sobre o que fomos e já não somos, um tom épico em que ressoaria a conquista daquilo que seremos, mas que ainda não conseguimos ser, um tom clássico de ordem e estabilidade em que poderemos nos refugiar satisfeitos a partir daquilo que somos ou acreditamos ser.

Porém o tempo Presente é sobretudo um tempo de desorientação cultural, um tom caótico, confuso, desordenado; uma dissonância de descontinuidades, de fragmentos, de fracassos e silêncios. O deslocamento massivo de populações, a violência racial, os enfrentamentos no interior das cidades, o caráter plural, mestiço e, ao mesmo tempo, crescentemente segmentado das comunidades, a progressiva destruição e burocratização dos espaços de convívio, a proliferação das trocas e as comunicações, a afirmação das diferenças em um mundo cada vez mais globalizado produzem a destruição de todos aqueles projetos arrogantes da modernidade com os quais o homem ocidental tem desejado construir um mundo organizado a sua imagem e semelhança, na medida do seu saber, do seu poder e da sua vontade, por meio de sua expansão racionalizadora, civilizadora e colonizadora.

Ao redor deste tipo de nova Babel, colocam-se em jogo as questões da unidade e da pluralidade, da dispersão e da mistura, da ruína e da destruição, das fronteiras e da ausência de fronteiras, da territorialização e da desterritorialização, do nômade e do sedentário, do exílio e do desenraizamento.

Contudo, a atualidade do mito babélico “não está na sua capacidade de expressar algo universal da condição humana, ou na sua especial adequação às características peculiares de nosso presente”, mas, sim, no modo como o traduzimos, ou seja, no modo como o colocamos novamente em nosso imaginário e o transformamos numa espécie de dispositivo metafórico para dar sentido a nossa experiência. Babel fala de unanimidade, de totalidade e de mesmidade: de uma cidade, de uma torre, de um nome e de uma língua, que são para todos os mesmos. Fala também do fim da unanimidade, da totalidade e da mesmidade: da dispersão dos homens, da destruição da torre, da perda do nome, da confusão da língua e do aparecimento de outros homens, de outras torres, de outros nomes e de outras línguas.A dominante interpretação do relato em termos de culpa, castigo e expiação tem apresentado a condição babélica como uma catástrofe que teríamos de superar. Daí vem a antiga tendência de pensar antibabelicamente a política, a sociedade, a cultura, a ética, a linguagem ou a própria condição humana. Lamentavelmente moramos em Babel, assim como lamentavelmente fomos expulsos do Paraíso e, se nossa tarefa já não é reconquistar o Paraíso, é, sem dúvida, refazer a Unidade ou, pelo menos, administrar a Diversidade, ainda que do ponto de vista do lucro do Capital e da ordem do Estado.

Circula hoje um certo antibabelismo, um pensamento segundo o qual Babel é o sintoma de alguma das nossas doenças. Por isso ter-se-ia que compor e recompor uma e outra vez a pluralidade humana, ter-se-ia que aceitar e celebrar as diferenças, mas, com certeza, representando-as, desativando-as, ordenando-as, fazendo-as produtivas, transformando-as em problemas bem definidos ou em mercadorias bem rentáveis; ter-se-ia que produzir e canalizar os fluxos e os intercâmbios, porém de forma ordenada, vigiada e produtiva. Seria necessário convocar toda a diversidade possível, permitir todas as comunicações, mas,é claro, calando, dosando, criando novos significados e harmonizando as vozes dissonantes, governando os silêncios lacerantes e regularizando os movimentos.

Um sintoma do fim das utopias históricas é a palavra “liberdade”; essa palavra, em que o pensamento ilustrado via nada mais e nada menos que os “telos” da história da humanidade, tem sido praticante abandonada pelo discurso político e conseqüentemente pelo discurso pedagógico. Agora, as palavras dúbias, cada uma delas com sua parte de verdade e sua parte de manipulação, são democracia, comunidade, coesão, diálogo e outras palavras relacionadas como diversidade, tolerância, pluralidade, inclusão, reconhecimento, respeito. E são essas as palavras que nos soam falsas quando são ouvidas no meio de muitos dos discursos dominantes no campo político, educativo, cultural, ético, estético ou inclusive empresarial. São palavras cada vez mais ocas e esvaziadas e que significam, ao mesmo tempo, tudo e nada: marcas, lugares comuns, rótulos de consumo, mercadorias que estão bem cotadas no mercado em alta da boa consciência; palavras que mascaram a obsessiva afirmação das leis e a excessiva ignorância dos sentidos; palavras que permitem nos escondermos detrás de nós mesmos e, ao mesmo tempo, representam uma mímica de alteridade que nos poupa da presença inquietante de tudo aquilo que deve ter um nome e um lugar para ser incluído, excluído, comunicado e, novamente, ignorado; palavras para ensurdecer os ouvidos e fazer-nos insensíveis às diferenças, para continuar sendo nós mesmos, com a mesma roupagem , a mesma arrogância, a mesma violência, o mesmo medo a nos abandonar, a nos sentir, perceber-nos ou sermos outro/s e em trânsito.

Parece que o problema agora não é a dominação e a impressão de que os homens não devem apreender a viver livres, mas, sim, a viver juntos e a comunicar-se ordenadamente.

Tem-se a impressão de que será necessário exorcizar os perigos de Babel e voltar a reunir os homens, não mais ao redor de uma cidade, de uma torre, de um nome e de uma língua, mas, sim, a partir da diversidade bem ordenada, bem comunicada de diferentes cidades, diversas torres, diferentes nomes, diferentes línguas.Tem-se a impressão de que o que importa é seguir administrando as diferenças, identificando-as a fim de intentar a integração de todos num mundo de forma inofensiva.Tem-se a impressão de que o importante é continuar administrando e governando as fronteiras, os atalhos na própria fronteira entre o sim e o não, o ser e o não ser, o possuir e o não possuir, o saber e o não saber, entre o mesmo e o diferente.

Assim, temos que problematizar as retóricas da diversidade que perpassam os discursos educativos e culturais contemporâneos os quais não fazem outra coisa senão garantir a boa consciência das práticas institucionais e criar a ilusão de que estão produzindo transformações significativas.

É preciso problematizar esse discurso que corre o perigo de transformar-se em um pensamento da falta de memória, da conciliação com o passado, em um pensamento frágil, light, leviano, que não chama ao questionamento e que tenta eliminar todo mal-estar; um pensamento que não deixa sinais, desapaixonado, descomprometido, desprovido de toda negatividade, que subestima o confronto por ser ineficiente. É necessário problematizar também as diversas maneiras de representação dos outros cujo efeito fundamentalmente é capturar, desativar e governar a potência desestabilizadora da diferença. É importante denunciar, por exemplo, essas operações de traduções em inúmeros mecanismos de manipulação dos textos dos outros, na medida em que se procede à usurpação de vozes da diversidade em que são transformadas, primeiro em vozes parecidas, mas não idênticas, e assimiladas depois a nossas formas já conhecidas de dizer e nomear. Trata-se de tradução como uma forma de eterno retorno à própria língua, como se não fosse possível escapar da gramática da língua que o tradutor incorpora para “ler” toda estrangeiridade.

Hannah Arendt escreveu que a condição humana da pluralidade decorre do fato de que “são os homens, e não o Homem, os que moram na terra e habitam o mundo.” A condição humana da pluralidade, podemos acrescentar, decorre do fato de que há muitos homens, muitas histórias, muitas maneiras de racionalidade, muitas línguas, e, com toda certeza, muitos mundos e muitas realidades. Isso é óbvio, embora não seja demais lembrá-lo e prevenir, de passagem, contra toda esta série de palavras genéricas e maiúsculas que nos escapam sem querer, quase constantemente, e também para desconfiar de todos aqueles que querem colocar-nos na sua realidade com a pretensão de ser essa a única realidade, em seu mundo com a pretensão de ser o único mundo, na sua linguagem com a pretensão de ser essa a única linguagem, na sua razão com a pretensão de ser essa a única razão, na sua história com a pretensão de ser essa a única história ou em sua humanidade com a pretensão de ser essa a única humanidade.

Babel é o mito da perda de algo, que, quem sabe, nunca tivemos: uma cidade, uma língua, uma terra, uma identidade ou um mundo. Por isso, depois de Babel, estamos exilados de nossa pátria, de nossa língua, de nossa terra, de nosso nome, de nosso mundo. O relato de Babel pode nomear tudo que é estrangeiro, a própria condição humana como estrangeira. E, com isso, pode ajudar a reformular um velho motivo, o da existência mesma como exílio, mas agora radicalmente: como exílio constitutivo, sem remédio. Grande parte da nossa tradição elabora o tema da existência como uma passagem: temos perdida a pátria, ou a cidade, ou a língua, ou a terra ou a natureza … e nossa tarefa é recuperá-la. Por isso e também em relação ao exílio, deve-se pensar Babel babelicamente, ou seja, sem saudades e sem esperanças. A condição babélica não é algo transitório cujo destino seja a própria supressão. Se pensarmos assim, não a consideramos e, o que é pior, justificamos todas as violências feitas à própria condição humana no que tem de plural, de dispersa, de confusa, de exilada, de babélica em suma. Isso porque são formas de violência todos os gigantescos movimentos de apropriação da natureza que destroem a própria natureza (o que a natureza tem de diverso, de estranho, de acolhedor e inóspito ao mesmo tempo, de inalienável, de território da experiência), os movimentos de apropriação do mundo que destroem o mundo, os movimentos de apropriação dos espaços públicos que destroem a comunidade humana, os movimentos de apropriação da língua que destroem a intimidade da língua, ou os movimentos de apropriação da identidade que destroem a identidade.

Nossa época mostra-nos inumeráveis exílios: alguns deles na forma de um exílio exterior dolorido – as deportações, os deslocamentos massivos de refugiados, de esfomeados, de expropriados, de sem pátria e perseguidos, as diversas modalidades da exterminação; outros sob a forma de um exílio exterior gratificante e cheio de possibilidades – as viagens, as misturas, as comunicações, os intercâmbios, as diferentes modalidades do cosmopolitismo, da evasão ou da saída dos próprios limites; outros, por último, na forma de um exílio interior – de um desenraizamento, ou de uma marginalidade, ou de uma distância entre nós e nossa pátria, entre nós e nossa língua ou entre nós e nosso nome.

A afirmação das diferenças enfraquece a utopia da igualdade? Igualdade ou diferença? A pergunta não parece escapar do mundo das oposições (binárias) no qual temos vivido nos últimos séculos. E, para sair do isolamento, quem sabe seja melhor pensar em outras perguntas que explicitem menos uma oposição e mais uma interpretação sobre a importância da tradução entre culturas e dentro das culturas. É possível que o conceito de “temporalidade disjuntiva”, criado por Homii Bhabha, resolva parte desta questão: as diferenças não podem ser igualadas, nem afirmadas, nem negadas, nem “toleradas” nem “aceitas”, pois elas existem (pré-existem, co-existem e pós-existem) a toda pretensão de igualdade, afirmação, negação, tolerância ou aceitação que venha a se estabelecer sobre elas.

Igualdade e desigualdade? Diversidade ou diferença? A “igualdade” é significativa e política quando se refere a um movimento contrário à desigualdade, quando se instala para romper a simetria das representações culturais e a desastrosa distribuição dos recursos humanos e materiais. Mas, quando a igualdade se estabelece como normalização, como sistema de poder estabelecido a partir de uma perspectiva (con)cêntrica, não podemos senão voltar a lembrar as trágicas pressões “para/de ser iguais” que a maioria de sujeitos e de comunidades sofreram durante séculos. A “diferença”, como termo cultural e – político – opõe-se, pelo contrário, não à igualdade , mas, sim, à mesmidade, ao fato de somente poder ser um mesmo, a negar que exista algo/alguém fora de nós mesmos, a não nos reconhecermos nos outros, a não ser, justamente, em nós mesmos.

Jorge Larrosa é professor de Filosofia da Educação na Universidade de Barcelona e doutor em Pedagogia. Realizou estudos de pós-doutorado no Instituto de Educação da Universidade de Londres e no Centro Michel Foucault da Sorbonne, em Paris.

Carlos Skliar é professor no Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Em 2000, recebeu o prêmio como pesquisador destaque na área da Educação e Psicologia do RS, outorgado pela Fapergs.

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