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Nº 062 | Ano 7 | Jun 2002
LUIS FERNANDO VERISSIMO

Luis Fernando Verissimo

Muitos admiradores do Desailly e do Zidane podem ter votado no Le Pen sem necessariamente se acharem incoerentes.

Meu trajeto para a Copa será mais exótico do que o da Seleção. Estou em Paris, irei a Sydney (me convidaram para um festival de escritores, aceitei ligeiro antes que descobrissem o engano) e de lá para a Coréia, onde certamente caminharei no teto durante alguns dias até me adaptar.

Quando chegamos a Paris, a mobilização nacional ainda não era para a Copa, era para deter o Le Pen. Tratavam de defender a república do seu inesperado sucesso no primeiro turno das eleições presidenciais e corrigir o cochilo cívico que favorecera a extrema direita. Centro-direita e esquerda se uniram para dar 80% dos votos do segundo turno a Chirac, que nem nos seus sonhos mais megalomaníacos chegou tão perto de se sentir um De Gaulle reconvocado para salvar a pátria. A reação ecumênica ao avanço do fascismo xenófobo foi um belo espetáculo de amor a valores democráticos, mas não foi exatamente um belo exemplo de democracia. Le Pen tinha todo o direito de reclamar da sua demonização, que incluiu o engajamento sem disfarce de toda a grande imprensa na vitória de Chirac. No segundo turno cuidou-se pouco de coisas como reciprocidade, espaço e boa vontade iguais para os dois candidatos, direito de resposta – enfim, as formalidades. Afinal, estava-se preservando a civilização francesa. Depois da contagem dos votos, ficou no ar um sentimento de alívio e dever cumprido, mas também um certo embaraço. As democracias estão sujeitas a isso: sustos profiláticos e hipocrisias passageiras.

A vitória da seleção multirracial da França em 1998 foi vista como uma vitória também sobre as idéias de Le Pen. Seleções como a da França, da Inglaterra e da Holanda, principalmente, demonstravam na prática o proveito da imigração e da mistura racial. Mas nos quatro anos desde 1998 o problema dos imigrantes e da sua rejeição agravou-se numa Europa em crise econômica. Derrotou todas as atenuantes sentimentais e apelos esportivos.

Na França, muitos admiradores do Desailly e do Zidane podem ter votado no Le Pen sem necessariamente se acharem incoerentes. A questão da imigração e do nacionalismo racista é cada vez mais a questão política dominante na Europa e é contra esse fundo degradado que se tenta preservar a nobre idéia da integração pelo futebol. Outra hipocrisia necessária.

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