Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 063 | Ano 7 | Jul 2002
LUIS FERNANDO VERISSIMO

Luis Fernando Verissimo

Pediram para o Billy Wilder resumir numa frase quem era o Don Siegel e ele disse que se um dia acordasse numa cama estranha ao lado de uma prostituta morta com uma faca espetada no peito, chamaria o Don Siegel, que saberia o que fazer. Não li o resto para descobrir que poderes ou conexões tinha Don Siegel, lenda do cinema como ele, para salvar o Billy Wilder, mas fiquei pensando na frase. Você pode dividir sociedades inteiras de acordo com o que as pessoas fariam se um dia acordassem ao lado de uma prostituta assassinada sem saber como fora parar ali. Já que, decididamente, não é uma situação em que você pode chamar a mãe, ou um conselheiro espiritual, ou, em muitos países, a polícia. E também pensei: todo o mundo deveria ter um amigo como o Don Siegel para momentos assim – mas só para momentos assim. No resto do tempo, não seria alguém com quem você gostaria de conviver.

Teclados silenciosos – Os escritores que escreviam com penas de ganso escreviam muito mais do que nós, e acho que existe uma relação direta entre dificuldade e quantidade – e qualidade. Não há nada parecido, na era dos escritores eletrônicos, com o volume de correspondência dos escritores a pena, que além de manuscrever livros que pareciam monumentos manuscreviam cartas que pareciam livros. Quanto mais fácil ficou escrever, menos os escritores escrevem. Os livros ficaram mais finos e a correspondência se reduziu a latidos digitais, breves mensagens utilitárias, tecla “send” e pronto. Já um George Bernard Shaw escrevia uma peça atrás da outra com introduções maiores do que a peça e ainda tinha tempo para escrever cartas para todo o mundo. Geralmente xingando-os, o que exigia mais tempo e palavras. Desconfio que a nova técnica também constrangeu o jornalismo. As barulhentas redações pré-eletrônicas eram áreas conflagradas onde o combate com o teclado duro era um teste de resolução e resistência. Depois vieram os computadores e a briga diária com o instrumento de trabalho e, por extensão, com a empulhação oficial e com as idéias recebidas, foi substituída pela facilidade, e pela reverência. Enfim, pelo jornalismo pacífico. E isso que a gente muitas vezes confunde com subserviência ou abandono da crítica ou resignação ao Pensamento Único pode muito bem ser apenas um efeito dos teclados silenciosos.

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