Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 065 | Ano 7 | Set 2002
ELISA LUCINDA

Elisa Lucinda

Durante o workshop que dei aqui em Barcelona, notei um tom de tristeza na leitura de um poema feita por um aluno de 23 anos. O poema do autor espanhol, Luiz Garcia Monteiro, dizia mais ou menos assim: “Como o primeiro cigarro, como os primeiros abraços, você tinha uma estrela dourada na maçã do rosto”. O poema seguia lembrando do começo daquele amor vitorioso e no final ele diz que ele é quem tem, hoje, uma estrelinha no lábio. E eu disse a Ysark:

– Por que você, tão jovem, está emprestando tanta tristeza a um poema onde não há tristeza? Por que este tom de despedida onde só há encontro, esse tom fúnebre onde não há morte?

– Não sei professora, eu nem percebo!

Vocês não se iludam. Esses velhos corcundas que se vê nas ruas da Espanha e do mundo não ficaram assim de um dia para o outro e pode não ter sido só a qualidade do colchão. Trata-se de uma atitude de vida. Estiveram viciados numa postura sem direito a céu. Um olhar que só pode considerar chão. E chão não como firmeza de solo, mas como falta de horizonte. É claro que o chão muitas grandezas nos ensina com seu cotidiano de plantios e brotações, mas é o céu que lhe dá regador e garantia de luz. Penso que, sem percebermos, vigora no mundo uma versão deprimida, uma versão triste da vida.

Uma vez eu estava andando na Lagoa de bicicleta, quando uma senhora que caminhava parou junto comigo numa barraca. Eu disse ao vendedor:

– Me dê uma água de côco, por favor.

E ela:

– Eu também quero uma , mas a minha eu quero bem docinha.

De minha parte tratei de esclarecer:

– A minha não, o meu côco eu quero verde.

Ela então, minha desconhecida companheira de saúde, mandou essa:

– A minha eu quero doce porque de amarga já basta a vida.
Silêncio. Deixei que as palavras dela soassem bem no cenário da quela estação. As palavras estalaram solitárias e não encontraram par. O dia estava radiante, brilhava nítido com suas azulesas, sua infinita possibilidade de pássaros. Olhei bem dentro dos olhos dela e perguntei:

– A vida TODA é amarga? Não é, né? É só uns pedaços …
Seu olhar se sentiu flagrado em uma espécie de mentira e ela, desarmada, viu-se obrigada a concordar comigo:

– É, a vida toda não é amarga não. É maneira de falar.

E eu disse:

– Mas essa não é uma maneira justa. Olha que dia lindo zombando de suas palavras! A não ser que você esteja com problemas nesse momento …

– Não. Você sabe que a minha vida até que tá boa. Acabei de comprar minha casa, a casa dos meus sonhos …

– E então?! Para que ficar falando mal da vida quando ela não merece?

– Você tem razão, a gente fala sem pensar. Eu mesma nunca tinha pensado nisso.

Segui meu passeio pensando nesses jargões que desmoralizam a felicidade, inviabilizam o prazer de viver e mancham a vida com um estigma permanente de melancolia. Há poucos provérbios otimistas na boca do povo e há sempre um desistido “vou levando” e um desencorajador “vou indo”, como resposta à corriqueira e importantíssima pergunta – como vai você?

Voltando a Barcelona, saí com meus amigos naquele mesmo dia e fomos procurar um Café para beber um drink. De um lado da rua havia os Cafés ao sol e do outro à sombra. Mais da metade do grupo queria sombra e eu disse:
– Vamos ao sol enquanto há sol. Virá a sombra, isso é certo. Por que tomamos tantas doses de sombra? Por que tomamos sombra antes da sombra chegar? Tomemos dos dois doses iguais. Para quê apressar a sombra? Ela virá. E um dia ainda virá aquela sombra. A última de nossas vidas e a mais fria, tomemos sol…

Graças a Deus, meu argumento valeu e fomos todos para o sol.

A partir desses fatos, me pus em campanha pelo sol e contra a versão pessimista da vida. A versão vigente onde um momento de dor macula toda o resto. Quero espalhar provérbios desenfeiando a lida, louvando a existência. Estou em campanha pela vida. Pela boa vida, quero dizer. Pela boa e ensolarada vida. Se você pode testemunhar de alguma maneira a beleza dela, entre nessa comigo. (Elisa Lucinda de Barcelona)

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