Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 068 | Ano 7 | Dez 2002
CULTURA

Marco Aurélio Weissheimer

Contar histórias é uma das atividades mais antigas do mundo. É uma prática fundamental de qualquer comunidade. Todos nós contamos histórias e gostamos de ouvi-las também. Sem elas, não estaríamos conscientes do nosso passado nem das nossas relações com o próximo ou com o mundo. Mas contar histórias, ao contrário do que querem alguns, não é uma atividade destinada a seres iluminados, inspirados por um gênio divino ou algo do tipo. É sempre um trabalho, que faz parte da vida de uma comunidade tanto quanto o de apagar incêndios, fabricar cadeiras ou plantar alfaces. Em outras palavras, o bom contador de histórias não é um artista, mas sim um artesão da narração. Essas são algumas idéias do grupo cultural italiano Wu Ming (expressão chinesa que significa algo como “sem rosto”, “sem nome”, “sem autoria definida”), um experimento político-literário que vem causando grande repercussão na Europa por seus princípios e práticas em favor da criação de uma nova linguagem narrativa e contra a transformação da cultura em mercadoria.

Os fundadores do Wu Ming são Roberto Bui, Giovanni Cattabriga, Luca Di Meo, Federico Guglielmi e Riccardo Pedrini. Todavia, esses nomes têm pouca importância e talvez sejam eles mesmos fictícios. Todos os seus trabalhos são assinados por Wu Ming, expressão chinesa freqüentemente utilizada para designar publicações dissidentes e clandestinas. Um dos criadores do Wu Ming esteve recentemente em Porto Alegre. No dia 15 de novembro, Roberto Bui realizou uma palestra na Casa de Cultura Mário Quintana, onde falou um pouco sobre a história e o trabalho do grupo. Embora tenha se apresentado como Roberto Bui, não há como saber com certeza se esse é seu nome verdadeiro, ou se designa uma personagem, alter ego ou pseudômino. Essa proliferação de identidades fictícias é uma das marcas do grupo. Em suas aparições públicas, eles não permitem fotografias ou filmagens. Seu lema é: “estar presente, mas não aparecer; transparência com os leitores, opacidade para com a mídia”. Tudo para não cair no “culto entediante da personagem”, um dos traços fundamentais da indústria cultural contemporânea. A palestra de Bui serviu também como introdução oficial do mais novo eixo temático do Fórum Social Mundial: “Cultura, Mídia e Hegemonia”.

Formado em 1994, em Bolonha (Itália), o grupo conseguiu sobreviver até hoje em países como Espanha, França, Inglaterra e Brasil graças à Internet, instrumento de disseminação de suas idéias e também palco de ações políticas e literárias. Seguindo a lógica da “guerrilha semiológica”, o grupo começou a aparecer em diferentes contextos da geografia global, sempre através de um personagem único, um ente coletivo que identifica o trabalho de vários escritores e ativistas políticos. Entre as ações já realizadas pelo grupo estão manifestos, histórias em quadrinhos, performances de rua, notícias falsas disseminadas na mídia, sermões pseudo-religiosos transmitidos pelo rádio e outras ações que faziam um chamado permanente: é preciso transformar. Embora pouco conhecido no Brasil, o trabalho do grupo começa a ganhar simpatizantes por aqui.

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