Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 069 | Ano 8 | Mar 2003
ESPECIAL

Paulo César Teixeira

Uma nova tempestade armada no céu do deserto. Doze anos depois, os Estados Unidos preparam-se* para atacar mais uma vez o Iraque a fim de depor o presidente Saddam Hussein. Em 1991, George H. Bush, pai do atual presidente dos EUA, chamou de “tempestade no deserto” a operação que praticamente aniquilou a infra-estrutura do país situado no Golfo Pérsico, com uma população de 24 milhões de habitantes, dono da segunda maior reserva mundial conhecida de petróleo, calculada em mais de 113 bilhões de barris – estima-se que outros 220 bilhões estejam ocultos sob o solo. Agora, George W. Bush justifica a intervenção militar em nome da democracia e da luta contra o terrorismo. São 210 mil militares americanos e 40 mil britânicos, com o arsenal mais poderoso e sofisticado do planeta, contra 420 mil soldados iraquianos agarrados a equipamentos obsoletos. Cabe a pergunta: por que o Iraque representa uma ameaça tão grave, a ponto de provocar a primeira guerra do século XXI?

Os mísseis só não cruzaram ainda antes o céu de Bagdá por causa da reação da opinião pública mundial. Em fevereiro, cerca de 6 milhões de pessoas foram às ruas em protesto contra a guerra, em 150 cidades e 60 países. Vale lembrar que as manifestações populares que ajudaram a empurrar os EUA para fora do Vietnã, no final dos anos 60, só começaram após o envolvimento no conflito. Depois, ganharam fôlego graças à cobertura da mídia, em especial às imagens da televisão. As manifestações de fevereiro de 2003, ao contrário, ocorreram antes do primeiro disparo. Adepto da doutrina da “guerra preventiva”, segundo a qual os EUA se arrogam o direito de atacar qualquer nação que, supostamente, abrigue ou favoreça a ação de terroristas, Bush foi surpreendido por uma onda de protestos de caráter igualmente “preventivo”, que mobilizou todos os continentes.

“O saldo dos atos de contestação é o fato de que elevaram imensamente o custo político da ação militar, sobretudo, no âmbito dos países aliados dos EUA, particularmente Inglaterra e Itália e, em menor medida, Espanha, Portugal e Austrália”, afirma o professor do Instituto de Relações Internacionais da PUC-RJ, Luís Fernandes. Às voltas com quedas acentuadas dos índices de pesquisa eleitoral, o primeiro-ministro britânico Tony Blair assistiu, de camarote, à reunião de 1 milhão de manifestantes, em Londres. “A guerra no deserto terá que ser rápida e fulminante. Caso contrário, as condições políticas de apoio a um conflito prolongado ficarão a cada dia mais difíceis”, completa Fernandes.

Um presidente sem estatura de estadista

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Alguns analistas entendem que Bush tem motivos de sobra para atacar o Iraque. É o caso do professor de Pós-Graduação em Economia da Ufrgs, Ronald Hillbrecht, para quem Saddam é “mau e cruel, talvez o pior ditador da face da Terra”. Entretanto, ele salienta que o presidente do Iraque é extremamente racional e, como tal, “só acredita em ameaças críveis e concretas”. Cita como exemplo a mensagem enviada por Bush pai, na Guerra do Golfo, indicando que revidaria com um ataque nuclear, caso Saddam jogasse bombas químicas ou biológicas nas tropas dos EUA. Outros especialistas, no entanto, custam a crer que a iniciativa americana tenha como justificativa a natureza autoritária do regime iraquiano. “Há ditadores aos montões na África, causando morte e violência. Quando bate a fome, morrem 1 milhão de africanos em dois ou três anos e ninguém se incomoda”, ressalta Maria Aparecida de Aquino, professora de História Contemporânea da USP.

Para ela, a atitude bélica de Bush se explica por razões políticas. Antes dos atentados de 11 de setembro de 2001, contra Nova York e Washington, o presidente enfrentou séria crise de legitimidade, com a contestação da sua vitória nas urnas diante de Al Gore. “Sem espessura e densidade de um estadista, era como se ele não tivesse uma razão de ser. A reação contra o terrorismo da organização Al Qaida, de Osama Bin Laden, garantiu sustentação interna a Bush”, observa a professora da USP. A guerra é também o meio de desviar a atenção do desempenho da economia americana, que, em janeiro de 2003, fez soar o alarme do gabinete oval da Casa Branca. A inflação de 1,6% foi a pior em 13 anos – as previsões eram de 0,5%. Só o preço da gasolina aumentou 13,7% no mês, o que representa um escândalo para o consumidor americano. O déficit das transações com o exterior é o maior de todos os tempos, na ordem de US$ 435,2 bilhões, valor equivalente ao PIB do Brasil.

Um país esfacelado pela guerra

A Guerra do Golfo, em 1991, e o posterior embargo econômico imposto pela ONU destruíram a infra-estrutura econômica do Iraque, afetando dramaticamente os índices de alimentação, saúde e educação da população. Antes, 4,5% das crianças nasciam abaixo do peso mínimo aceitável. O percentual subiu para 24,7%. A taxa de mortalidade infantil até os cinco anos de idade, que era de 26 por 1000 nascidas vivas, pulou para 131. Em outras palavras, cerca de 13% dos pequenos iraquianos morrem antes de completarem cinco anos de idade.

Entre os dias 2 e 7 de fevereiro deste ano, uma comitiva de quatro deputados federais do PT e do PC do B viajou até Bagdá para conhecer de perto as condições de vida do povo iraquiano. Lá, visitou hospitais, escolas e abrigos antiaéreos destruídos pelos bombardeios, além de manter contatos com autoridades locais. “A visita ao Al-Mansur Hospital Pediátrico, em Bagdá, foi um dos momentos mais dolorosos de nossa agenda. Não há como conter o espanto e a indignação ao ver como seres humanos são condenados a morrer, quando já existem todas as condições de cura das enfermidades que os atingem”, afirma o deputado Tarcísio Zimmermann (PT-RS), que integrou a comitiva.

O isolamento do país afetou a mesa dos iraquianos. A cesta básica distribuída a famílias de cinco membros sofreu drástica redução de proteínas e calorias. Atualmente, ela é composta apenas por 45 kg de farinha, 25 de arroz, 7,5 de açúcar, 2,5 de leite em pó, 1 de chá, 2 de detergente e 12 de sabão. A guerra deixou também graves seqüelas no sistema de ensino. Cerca de 60% dos prédios escolares foram danificados. Há carência de canetas, cadernos e livros escolares. Para agravar o quadro, o analfabetismo – que havia sido debelado na população com menos de 45 anos, entre 1975 e 1985 – voltou a preocupar. A falta de infra-estrutura escolar e a situação miserável das famílias obrigam muitos jovens a abandonarem os estudos. De acordo com o Ministério da Educação do Iraque, entre 1991 e 2002, mais de 1 milhão de crianças em idade escolar deixaram de freqüentar as escolas antes de alfabetizarem-se.

A partilha do Iraque custará bilhões de dólares

Não custa lembrar que a região do Oriente Médio é o “calcanhar de Aquiles” da política externa americana, de acordo com o coordenador do Núcleo de Estudos Estratégicos da Unicamp, Geraldo Cavagnari. Nos anos 70, era responsável por 90% do abastecimento de petróleo dos países desenvolvidos. Hoje, corresponde a 65%, com o ingresso no mercado das nações do Leste Europeu, que pertenciam ao bloco comunista. Os EUA é o maior importador e trata de poupar as próprias reservas, que devem esgotar-se em cinco anos, se o consumo interno continuar crescendo. Por isso, manter o controle sobre as fontes energéticas no exterior é questão prioritária. Além disso, o Golfo Pérsico representa importante passagem da Europa para a Ásia. “Quem não gostaria de entrar nos gigantescos mercados da China e da Índia?”, indaga Maria Aparecida.

Os interesses econômicos estão por trás também das posições de França, China e Rússia no Conselho de Segurança das Nações Unidas, em favor da via diplomática, de longo prazo, como estratégia para desarmar o Iraque, em contraposição à intervenção militar. “Na aparência, o que motiva esses países é um comportamento moral inatacável. Na realidade, a razão é puramente comercial”, afirma o professor Cavagnari, da Unicamp. Há um ano, eles assinaram pré-contratos de exploração do petróleo iraquiano no valor de US$ 45 bilhões – o embargo econômico imposto pela ONU impede que sejam colocados em prática. Além disso, está em jogo a reconstrução do país após o cessar fogo. No conflito com o Irã, a indústria petrolífera do Iraque sofreu danos significativos. Na Guerra do Golfo, foi praticamente destruída. Agora, tudo indica que não restará pedra sobre pedra. Embora seja um investimento de risco, a reconstituição da infra-estrutura iraquiana envolve algumas dezenas de bilhões de dólares. “Como até agora os EUA não deram indícios de que realizarão a partilha do Iraque, franceses, chineses, russos e alemães endureceram o jogo.”

De outra parte, França e Alemanha não querem a solução das armas porque não desejam pagar a conta. “Na Guerra do Golfo, os americanos forneceram ¾ dos meios militares e apenas ¼ dos recursos investidos na operação militar. Tudo indica que, agora, a ocupação do Iraque terá um preço ainda mais salgado”, pondera o professor Paulo Fagundes Vizentini, diretor do Núcleo de Relações Internacionais da Ufrgs. Ao mesmo tempo, ao afrontar França e Alemanha, Bush ergue uma barricada contra o avanço do euro, que a cada dia torna-se um concorrente mais aguerrido do dólar. “Não podemos esquecer que a supremacia americana está baseada em três pilares: o arsenal superior, o controle sobre as organizações internacionais e o dólar, moeda que domina os mercados mundiais.”

Saddam: de parceiro a inimigo

Houve um tempo em que EUA e Iraque eram, mais do que bons amigos, parceiros no jogo político do Oriente Médio. Após a revolução do aiatolá Khomeini no Irã, que derrubou o Xá Reza Pahlevi, em 1979, os americanos passaram a se preocupar seriamente com a expansão do fundamentalismo xiita. Naquele momento, o governo iraniano era identificado como o principal inimigo na região. Não por acaso, os EUA viram com bons olhos a guerra entre Irã e Iraque, que começou após um ataque de Saddam, recém-chegado ao poder através de um golpe militar. Saddam pertence ao grupo islâmico sunita, envolvido na disputa pelo poder no Iraque justamente contra os xiitas, que compõem a maior parte da população do país. Os iraquianos invadiram o Irã em setembro de 1980, a pretexto de anexar uma área em torno do canal de Chat Al-Arab. A guerra durou oito anos e deixou um saldo de 1 milhão de mortos, quase 2 milhões de feridos e US$ 400 bilhões de prejuízos.

Nesta época, explica o professor da PUC-RJ, Luís Fernandes, o governo dos EUA forneceu ao Iraque informações privilegiadas de alvos e movimentos de tropas rivais. Além disso, ofereceu bombas de fragmentação para atingir a chamada “onda humana”, formada por fanáticos religiosos, que se constituía na principal arma de defesa iraniana. Na verdade, os elementos cruciais para o desenvolvimento do programa de armamento do ditador iraquiano foram dados pelo governo americano – inseticida para a produção de bombas químicas e agentes que causam doenças, como a peste bubônica, para as biológicas.

Por que Saddam se transformou em vilão? Durante quase 50 anos, os EUA viveram à sombra da guerra fria, sobressaltados com a ameaça comunista do outro lado da Cortina de Ferro. Desde 1989, com a queda do muro de Berlim e a derrocada soviética, careciam de um “inimigo invisível”, anota a professora Maria Aparecida, da USP. Em 1990, George H. Bush elegeu Saddam como novo alvo. É verdade que o dirigente iraquiano deu o pretexto ao invadir o Kuwait, tradicional aliado dos EUA no Golfo Pérsico. O conflito dizia respeito a um litígio territorial histórico entre dois vizinhos, numa região altamente explosiva. Após receber tantos mimos, Saddam cometeu o erro de cálculo de pensar que não haveria reação da Casa Branca. Desde então, passou a encarnar o papel de inimigo número 1 do povo americano.

O professor Hillbrecht, da Ufrgs, apesar de justificar a operação militar de Bush, admite que não há indícios confiáveis de ligação do presidente iraquiano com a Al Qaeda. “A briga de Bin Laden não é só com as democracias liberais do Ocidente. Ele odeia também os regimes não-teocráticos do mundo islâmico, dos quais o Iraque faz parte.” Quanto ao argumento de que Saddam detém armas de destruição em massa e, por isso, precisa ser atacado de forma “preventiva”, Hillbrecht lembra que Rússia e China também as possuem e, nem por isso, encontram-se sob a mira dos americanos. O mais grave é que, ao afrontar o Conselho de Segurança da ONU e insistir na intervenção militar, custe o que custar, Bush põe em risco o sistema internacional de segurança coletiva, materializado há mais de meio século. “É uma ação desastrada que, em última instância, institucionaliza o domínio pela força e abre perspectivas nefastas para toda a humanidade”, conclui o professor Luís Fernandes, da PUC-RJ.

Brasil quer paz, mas é “figurante” na cena internacional

O Brasil apóia a posição de França e Alemanha, favoráveis a uma saída diplomática para a crise entre EUA e Iraque. Em declaração conjunta com os demais membros do Mercosul, em fevereiro, o país reiterou o papel do Conselho de Segurança como “o órgão responsável pela manutenção da paz e da segurança internacional, e o único com legitimidade para autorizar o uso da força.”

Durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, o presidente Luís Inácio Lula da Silva fez um apelo à paz. O discurso motivou críticas do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, para quem o país não pode almejar uma postura de protagonista na cena internacional. “Não deixa de ser despeito de FHC, que era conhecido em grupos restritos de intelectuais. Ao contrário, junto com Pelé, Ayrton Senna e Guga, Lula é uma personalidade brasileira de renome mundial”, diz o professor Geraldo Cavagnari, da Unicamp. Entretanto, ele ressalta que a notoriedade de Lula não se converte em capital político para o Brasil, que ocupa uma posição de assistente e figurante. “As grandes potências fingem que não ouvem.”

Antes do embargo econômico, Brasil e Iraque mantiveram uma relação comercial que movimentou US$ 4 bilhões ao ano para as nossas exportações, entre 1972 e 1991. Parte do petróleo importado era pago com automóveis, máquinas agrícolas, caminhões, ônibus, armas e produtos animais (sobretudo carne de frango) ou serviços como obras rodoviárias e ferroviárias realizadas por empresas brasileiras. A embaixada em Bagdá foi desativada em 1991, durante a guerra. O Itamaraty informou ao EXTRA CLASSE que apenas quatro brasileiros – na realidade, cidadãos nascidos em território iraquiano, com dupla nacionalidade – permanecem na terra de Saddam. São eles o zelador do prédio da embaixada, Awni Al-Dairi, e seus familiares, responsáveis pelo patrimônio que lá ficou.

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