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Nº 071 | Ano 8 | Mai 2003
ENTREVISTA | DOM MAURO MORELLI

Ana Esteves e César Fraga

Dom Mauro Morelli se tornou conhecido pela luta no combate à fome. Ele tem se destacado por uma ação firme em favor de uma Igreja aberta ao mundo e na luta pela dignidade humana. Hoje é uma das principais expressões nacionais no combate à fome e à miséria.

Depois de integrar, junto com Herbert de Souza, o Betinho, a Campanha da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, ele tem continuado a buscar, junto de governos, ONGs e entidades civis, soluções para os graves problemas nacionais, além de assessorar iniciativas de combate à fome em todo o Brasil. Atualmente está percorrendo várias cidades brasileiras com o objetivo de promover ações integradas ao Programa Fome Zero, do qual, apesar de ser um crítico pontual, também é um dos seus principais expoentes. Dom Mauro é bispo diocesano de Duque de Caxias (desde 1981), na Baixada Fluminense (RJ), e coordena um programa que está ajudando a diminuir os casos de desnutrição infantil no município. Também é presidente do Conselho Estadual de Segurança Alimentar Nutricional Sustentável de Minas Gerais (CONSEA/MG), membro da Coordenação do Fórum Brasileiro de Segurança Alimentar Nutricional Sustentável, conselheiro do Conselho Nacional de Segurança Alimentar Nutricional Sustentável (CONSEA) e integra o UN-SCN Distinguished Nutrition Advocate- ONU, no qual é promotor e defensor da nutrição e alimentação para o mundo, com mandato conferido pela Organização das Nações Unidas (ONU). O bispo foi um dos colaboradores do PT na elaboração do projeto de erradicação da fome apresentado na campanha eleitoral e também protagonizou momentos de crise envolvendo o atual governo, mais especificamente com o Ministério Extraordinário de Segurança Alimentar e Combate à Fome (MESA). Dom Mauro evita falar das razões que o levaram ao seu quase afastamento do CONSEA, no início do ano, quando houve o episódio do desentendimento com o ministro José Grasiano, por não concordar com a maneira como o programa vinha sendo conduzido, sem a participação e a mobilização das comunidades, limitando-se a querer distribuir comida. O conselho foi originalmente criado, em 1993, no governo Itamar, e era presidido por dom Mauro. Depois foi extinto no início do governo Fernando Henrique, que preferiu concentrar o esforço no Comunidade Solidária. Num artigo com o título “Fome e cidadania”, Dom Mauro afirmou que “campanhas contra a fome não enchem a barriga de ninguém. O doador se alimenta com a bondade de seu gesto, sem garantir o pão de cada dia ao faminto. Provoca-se muito mais ansiedade do que saciedade, sem promover o direito básico de cada ser humano ao alimento e à nutrição”. Dom Mauro garante ainda que “não se deve ajudar os necessitados por um sentimento piegas” e que a solidariedade só é uma virtude quando se cultiva a justiça. “Sem paternalismo e assistencialismo, através da participação e do trabalho, o povo quer e deve exercer sua cidadania”. Para Dom Mauro, “no Piauí, como em qualquer lugar do Brasil, o que está em jogo é um direito humano básico. Sem a promoção da cidadania, o povo continuará faminto”, alerta em seu texto.

Extra Classe – O programa Fome Zero tem sofrido duras críticas, principalmente no que se refere a informações desencontradas. O senhor acredita que esse tipo de problema, inclusive em outras áreas de atuação do governo, se deva a questões administrativas e de fundo organizativo?
Dom Mauro Morelli
– Para uma boa administração é imprescindível que a máquina administrativa esteja em perfeita condição, cabendo ao novo governo corrigir rumos e definir prioridades. Cada novo governo, porém, empreende uma reforma administrativa que acaba produzindo impasses.

EC – Como assim?
Dom Mauro
– O funcionalismo público não é valorizado e nem motivado para cumprir sua missão com eficiência e dedicação. As coisas se complicam mais, ainda, pela falta de planejamento orgânico. Em geral, cada ministro trabalha em sintonia com seus próprios objetivos políticos.

EC – O senhor acha que isso diz respeito às escolhas do atual governo, principalmente no que se refere a critérios e métodos?
Dom Mauro
– Na composição do atual governo teria predominado o critério da governabilidade e, obviamente, da recompensa à lealdade e ao companheirismo. Multiplicaram-se os ministérios, especialmente na área social, sem definição clara de objetivos, metodologia e recursos estruturais e financeiros.

Extra Classe – Como esse fenômeno se reflete no programa Fome Zero? Há problemas de coordenação? Até que ponto o Fome Zero, enquanto ação, tem condições de dar respostas efetivas ao problema da miséria no Brasil sem se transformar em apenas mais uma medida assistencialista?
Dom Mauro
– No caso específico da prioridade do Programa Fome Zero, carro-chefe da área social, somam-se vários fatores, a começar pela composição de sua própria equipe coordenadora. Produzido pelo Instituto da Cidadania, sob coordenação do atual Ministro Extraordinário da Segurança Alimentar e do Combate à Fome, o Programa Fome Zero na prática atual efetivamente não passa de um conjunto de ações de combate à fome. A fome não é tratada como questão política de primeira grandeza, pois quem sofre os males da fome está sendo lesado em sua dignidade e privado de direito humano básico. Trata-se de uma questão de vida e de cidadania.

EC – Apesar de fazer parte do conselho do programa, e atuante, o senhor tem aparecido como um crítico sempre presente. Quais as suas maiores críticas ao programa Fome Zero, neste momento?
Dom Mauro
– O texto final do Programa Fome Zero não incorpora efetivamente a compreensão maturada ao longo de uma década de promoção do direito humano básico ao alimento e à nutrição. O próprio título Fome Zero é marcado pela ambigüidade, assim como o enunciado e o seu objetivo: uma Proposta de Segurança Alimentar. A fome em si é uma manifestação do organismo necessária à saúde. O problema brasileiro está na falta de acesso ao alimento ou de alimentação inadequada e insuficiente. Não como mera questão de palavras, o Programa Fome Zero deveria ser uma Proposta de Segurança Alimentar Nutricional Sustentável entendida como eixo do desenvolvimento.

EC – Seria correto dizer que , de acordo como seu ponto de vista, existe uma estrutura montada de forma equivocada para dar sustentação ao projeto?
Dom Mauro
– A estrutura criada para sua realização é inadequada. Não há Ministério, apenas um Gabinete em que estão embutidas as estruturas do Conselho e do Programa Comunidade Solidária (Governo FHC) para oferecer algum suporte administrativo ao Ministro Extraordinário.

EC – O que seria o ideal?
Dom Mauro
– Aliás, o ideal seria uma secretaria especial de articulação e planejamento, que não fosse mais um balcão de projetos. O próprio Conselho Nacional de Segurança Alimentar Nutricional – CONSEA – chegou muito tarde, sem autonomia e condição para cumprir sua missão de articular a Política Nacional de Segurança Alimentar Nutricional Sustentável. O CONSEA não participou de decisões referentes ao problema da fome, tomadas antes e depois da instalação do Governo Lula. O mesmo estaria acontecendo agora, quando pela imprensa são anunciadas novas decisões.

EC – Como o senhor já disse, uma das caras da fome é a inadequação alimentar. Ou seja, as pessoas comem mas sua alimentação permanece comprometida. Gostaria que o senhor explicasse essa peculiaridade da questão da fome no Brasil e como se deve atacar esse problema?
Dom Mauro
– A nutrição, entretanto, é uma questão de vital importância quando se discutem os males da fome, e não ocupa muito mais do que dez linhas no programa Fome Zero. Somente na Baixada Fluminense, cerca de 110 mil crianças estão em risco nutricional, quando não desnutridas. Ingrediente importante: o acesso ao alimento não será garantido sem trabalho e renda. Educação, habitação e agricultura familiar são pressupostos básicos, além de novos rumos para a economia.

EC – O que é e o que não é competência do governo e como o senhor sintetizaria a questão?
Dom Mauro
– Em síntese, o Governo Lula, enquanto atropela a sociedade civil e outros níveis de governo, promove ações e iniciativas que não são de sua competência, como mutirões e campanhas. Cabe-lhe aplicar impostos para promover a cidadania de todos, especialmente dos excluídos. Concordo com o senador Suplicy. Sem universalizar uma renda mínima para cada habitante do país, vamos continuar remendando. O que não é universalizado acaba prejudicando os mais lesados em sua cidadania!

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