Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 076 | Ano 8 | Set 2003
NEI LISBOA

Ninguém perguntou mas vou dizer, meu Scliar favorito é o cronista da Folha de S. Paulo, onde se dedica a converter para a ficção matérias publicadas no próprio jornal. Na última que li, só pra dar um exemplo, constrói uma divertida biografia não-autorizada da galinha preta que a Marta Suplicy quase tomou na cabeça. Atentado de muito mau gosto, por sinal, perpetrado por uma facção pouco respeitável do movimento estudantil paulista. Mas essa predileção pelas pequenas invenções do Scliar me vem à cabeça por conta de uma matéria da Zero Hora, que certamente lhe inspiraria uma crônica das boas. O protagonista do feito a ser narrado teve seu nome e iniciais preservados pelo repórter, nem sei bem por que motivo, mas isso já trataremos de corrigir aqui convencionando chamá-lo de Mateus da Silva Tortoniello, ou simplesmente M.S.T. Pois bem. Na madrugada de terça-feira, 19 de agosto, M.S.T., morador da zona rural de Flores da Cunha, deixa sua residência e dirige-se ao centro da cidade portando um machado – e um machado de bom tamanho, certamente, sendo o cidadão agricultor e considerando-se os estragos que com ele viria a produzir. Por volta de 4h50min, segundo relato da Brigada Militar, soa o alarme da agência central do Banco do Brasil. Os policias acorrem ao local, onde encontram destruídas a porta principal da agência e um terminal de caixa eletrônico. Passados vinte minutos, ainda atônitos com o motivo e a autoria de tal vandalismo, dirigem-se à sede da Prefeitura Municipal, movidos por denúncia de que alguém despedaçara as vidraças do prédio, o que de fato se confirma. Nenhum sinal do criminoso nos arredores.Os PMs dão seqüencia a sua busca e no trajeto se deparam com as grades de ferro do Fórum local – ainda por ser inaugurado – arrebentadas; os vidros da porta principal da delegacia de polícia civil estilhaçados; e idem para os pára-brisas de duas viaturas estacionadas no pátio. Só então, depois de fechar o cerco nas imediações, avistam o agricultor a caminhar pela cidade com o seu machado, o qual resiste à prisão e tem de ser baleado no joelho para que possa ser dominado. Com a identificação da autoria e o inquérito, descobre-se que M.S.T. andava inconformado com acontecimentos recentes de sua vida. A morte dos pais, aliada a problemas psíquicos no passado, tornou-o herdeiro de propriedade rural vitivinícola, mas sob a tutela do Ministério Público, para o qual deve requerer autorização a cada vez que precisa sacar dinheiro de sua conta bancária. Maluco beleza ou não, na sua sanha vingativa M.S.T. produziu estrago mais completo no plano simbólico do que na construção civil: numa só tacada investiu contra o sistema financeiro, o poder executivo, o judiciário, a estrutura e a política de segurança.Primeira moral da história: fosse eu, que já me irrito quando o terminal refuga meu cartão, talvez não fizesse outra coisa. Segunda moral: ressalvando alguns pontinhos específicos desse caso (era só um loucão com seu machado, mas com terra e conta bancária), talvez conviesse à Farsul reclassificar o MST como um movimento pacifista.

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