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Nº 076 | Ano 8 | Set 2003
EXTRATO

César Fraga
Chaui busca em Espinosa os paralelos ao entendimento da política contemporânea

Foto: Divulgação

Chaui busca em Espinosa
os paralelos ao
entendimento da política
contemporânea

Foto: Divulgação

Recentemente, ao ser indagada por um repórter da Folha de São Paulo sobre a atual crise social que o Brasil estaria vivendo, Marilena Chaui disse que, “em vez de falar em crise e em desordem, que são os temas preferidos da classe dominante brasileira na sua tradição autoritária, é hora de comemorarmos o fato de que finalmente este país está conhecendo uma experiência democrática. Democracia não é, como querem os liberais, o regime da lei e da ordem. Democracia é o único regime político no qual os conflitos são considerados o princípio mesmo do seu funcionamento.” A partir da afirmação da renomada professora de História e Filosofia da USP, entendemos sua motivação crescente pelo legado de Espinosa, filósofo judeu holandês, cuja obra foi elaborada entre 1979 a 1995.

Vale lembrar que Espinosa, em seu tempo, foi perseguido pela inquisição e execrado pelos seus patrícios como uma ameaça. Para ele, o mais natural dos regimes já era a democracia em tempos de absolutismo monárquico e da mão pesada da Igreja.

Quatro anos depois de publicar A nervura do real: imanência e liberdade em Espinosa em que analisava Ética a partir de Espinosa, Chaui traz à luz Política em Espinosa (Companhia das Letras, 338 páginas, 39 reais). Para Chaui, poucos filósofos deram à questão da liberdade política um papel tão central quanto ele. Para Espinosa, a política nasceria do desejo humano de libertar-se do medo, da solidão e da barbárie. Antes de mais nada, o pensamento espinosano determina a democracia como o regime político mais favorável à paz, à segurança e à liberdade dos cidadãos, pois nele se realizaria o desejo de governar e não ser governado. Mas não fica aí. Marilena Chaui destaca também o que o Filósofo sublinhou como os principais obstáculos à vida democrático-republicana: de um lado, a superstição, que serve de álibi para regimes que buscam seu fundamento nas religiões; e de outro, a divisão social que leva a excluir das decisões políticas uma parte da sociedade sob a alegação de que a massa é ignorante e “temível quando não teme”.

Soma-se à erudição e ao rigor do material apresentado pela estudiosa, sua enorme capacidade analítica. Além disso tudo, faz mais sentido pelo fato de se discutir Espinosa a partir de problemáticas atuais.

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