Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 076 | Ano 8 | Out 2003
POLÍTICA

José Luis Fiori

Em tempos de mudança e de invenção histórica, a dificuldade teórica de entender a novidade, junto com a angústia de conviver com a incerteza, parece que estimulam a multiplicação das teses apocalípticas. Mas existem intelectuais que fazem interpretações menos grandiosas e que procuram atuar, nesses momentos, como estimuladores da reflexão e da busca de alternativas. É o caso de Emir Sader, que acaba de publicar A Vingança da História1 , onde faz um balanço crítico das idéias, políticas e derrotas da esquerda nas últimas décadas. Por isso, revisita vários momentos e situações críticas da história do continente, recua até o início do século XX e depois retorna e faz a crônica da queda de Salvador Allende e das décadas da hegemonia neoliberal, chegando até à vitória de Lula e de vários outros presidentes eleitos recentemente, pela rejeição ao neo-liberalismo que se espalhou como uma onda, por toda América Latina. Mas é na hora em que desembarca na conjuntura brasileira que Emir Sader apresenta o tema de maior atualidade e complexidade de todo o seu livro: a questão da fragilidade intelectual ou teórica do principal partido de esquerda da América Latina, o Partido dos Trabalhadores. Segundo Emir, nestas duas últimas décadas, “o PT e a prática teórica da intelectualidade crítica caminharam por vertentes paralelas, olhando-se, mas definindo cada um seus próprios caminhos..[e por isto], nos vinte anos de existência, em que se projetou como a principal força política e partidária no país, com uma impressionante trajetória, o Partido dos Trabalhadores não chegou a construir sua própria teoria e, assim … chegou ao governo sem contar com uma teoria de saída do neoliberalismo e sem contar com uma produção teórica que possibilite construir uma sociedade pós-neoliberal”( pag. 16 e 17).

Trata-se de um problema complicado e que pode ter conseqüências de longo prazo, mas não é um problema recente nem exclusivo do PT brasileiro. Na verdade, envolve uma pergunta que atravessa a história dos movimentos socialistas e da esquerda mundial sobre o que vem a ser exatamente uma “gestão esquerdista” ou socialista do capitalismo? Nunca houve consenso sobre este ponto e várias foram as respostas dadas pelos governos de esquerda, através do Século XX. A primeira veio dos social-democratas europeus que participaram de governos de coalizão, nas décadas de 1920-1930, e enfrentaram as crises inflacionárias do período, quase invariavelmente, através de políticas ortodoxas e monetaristas de estabilização, com resultados extremamente desfavoráveis do ponto de vista econômico e político, como foi o caso exemplar de Hilferding na Alemanha de 1928. Uma segunda resposta foi dada pelos social-democratas suecos que “inventaram”, na década de 1930, as políticas “keynesianas” e de bem-estar social. Mas a terceira só apareceu depois da II Guerra Mundial, apesar de assentar-se numa idéia e numa convicção mais antigas: o conceito de “capitalismo organizado”, proposto por Hilferding, em 1927, e a convicção de que uma economia capitalista poderia ser “influenciada conscientemente pela sociedade”, através do seu planejamento democrático, estatal e de longo prazo. Uma “idéia-força” que esteve presente, durante toda a “era de ouro do capitalismo”, inclusive na maioria dos governos conservadores que reconstruíram a Europa e comandaram as experiências desenvolvimentistas ou nacional-desenvolvimentistas dos países mais atrasados. O último capítulo desta história foi escrito pelo governo de Salvador Allende e encerrado com o bombardeio do Palácio de la Moneda, no dia 11 de setembro de 1973. O governo Mitterand ainda tentou ressuscitá-la, no início da década de 1980, mas acabou seguindo o caminho da quarta resposta, trilhado pelos demais partidos e governos socialistas europeus que abandonaram o projeto do “capitalismo organizado” e as políticas de planejamento estratégico, em troca de um programa neo-liberal de gestão do capitalismo. Depois disto, ganhou força – sobretudo dentro dos movimentos sociais – a crítica aos partidos de esquerda que ainda lutam pela conquista dos estados nacionais porque acreditam na possibilidade de uma gestão socialista ou progressista do capitalismo.

É interessante observar que o Partido dos Trabalhadores nasceu e cresceu exatamente neste período da história que começa com a derrota socialista de 1973. E começou a governar, trinta anos depois, na hora do desencanto com o neo-liberalismo, mas também na hora em que adquiriram enorme força entre os militantes da esquerda as teses “pós-modernas” ou “pós-capitalistas”. Não é de estranhar, portanto, a existência, dentro do PT, de grupos com posições ideológicas e propostas políticas totalmente contraditórias; tampouco, o “vazio teórico” ou “a inexistência de uma modelo hegemônico alternativo” ao neo-liberalismo, porque o problema do pós-neoliberalismo não é apenas uma questão do PT, nem uma questão latino-americana. Para decifrar este enigma, será necessário avançar a análise e a discussão do capitalismo e da ordem mundial, depois da globalização financeira dos anos 80/90, e do fim do cinturão bi-polar que amarrava, até 1991, os quase 200 estados que hoje compõem o sistema político mundial. Neste campo, por exemplo, já é hora de discutir, de forma mais séria, as teses de Antonio Negri e de tantos outros marxistas, que interpretam o processo da globalização de forma completamente despolitizada, como uma obra universalista do “capital em geral”, concluindo equivocadamente que já chegou a hora pós-nacional do internacionalismo das “multidões”. Não conseguem ver ou admitir que cada nova onda globalizante é sempre o resultado da expansão de um estado e de uma economia nacional, que conseguiram expandir ou impor ao mundo sua moeda, sua dívida pública, seu sistema tributário e seu capital financeiro. E só houve dois estados que conseguiram esta façanha, a Inglaterra e os Estados Unidos. Da mesma maneira, está na hora de discutir a tese de Immanuel Wallerstein e de tantos outros que prevêem o fim imediato ou a irrelevância dos estados nacionais, desconhecendo ou desqualificando o fato de que a luta dos trabalhadores, dos pobres e dos excluídos, segue e seguirá se dando, por muito tempo, dentro das suas fronteiras, onde se geram e acumulam os recursos capazes de alterar a distribuição da renda, da riqueza e da correlação de poder entre as classes.

Por fim, para discutir com a vertente oposta à da “esquerda pós-capitalista”, pode ser útil examinar a hipótese de que o governo Lula queira colocar, no lugar vazio do “pós-neoliberalismo”, um projeto de retomada e redefinição da trilha “nacional-desenvolvimentista”, sem o autoritarismo político e anti-social que marcou a maior parte da história brasileira. Esta parece ser a auto-imagem que se faz o governo e, para desqualificá-la, não basta acusar a sua política macroeconômica de ortodoxa e conservadora. Neste caso, o governo poderia responder que este foi o mesmo figurino seguido por quase todos os governos desenvolvimentistas brasileiros, desde o Segundo Vargas, que patrocinava ao mesmo tempo o nacionalismo de sua Assessoria Econômica e o conservadorismo ortodoxo do seu Ministério da Fazenda, até o caso paradigmático da dupla Simonsen-Veloso, no governo Geisel, para não falar do governo JK. Mas o que esta administração não pode esquecer é que todos estes governos, nos momentos decisivos, pressionados por circunstâncias e pressões internas e externas, optaram pela sua “face” desenvolvimentista, e por isto o Brasil cresceu mais do que nunca durante estas décadas. É verdade que foi numa época de hegemonia mundial das idéias keynesianas e de apoio norte-americano aos “desenvolvimentos nacionais” e às “finanças administradas”, o que deu espaço à formulação de políticas econômicas mais autônomas. Além disto, na sua maioria, foram governos conservadores que não viveram com medo de assustar os próprios conservadores, um problema atávico dos governos de esquerda ou de centro-esquerda. De qualquer maneira, se esta for de fato a opção do governo atual, urge que se esclareça o que possa ser (se é que pode ser) o “desenvolvimento” e, ainda mais, o “desenvolvimentismo socialmente inclusivo” numa economia aberta, desregulada e endividada, e numa sociedade cujas elites econômicas (e uma parte importante da base de apoio do próprio governo) não toleram nenhum tipo de política ou decisão que tenha algum cheiro, ainda que longínquo, de neo-mercantilismo.

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