Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 076 | Ano 8 | Out 2003
ELISA LUCINDA

Palavras de mãe costumam ecoar para sempre nos ouvidos da gente. As da minha me embalam líricas e determinantes até hoje. Rainha do otimismo responsável e atuante, minha mãe amava dignos, pobres, ricos e errantes na proporção da sua estupenda compaixão e compreensão do ser humano. E por essa ótica, me ensinou muito e me deu sábias dicas para quase tudo. Era cheia de fundamentos essa mulher. O maioral deles era: “Honre o dom”; dizia isso pra mim escolhidamente. Sabia de mim. “Filha, quem tem dom tem mais trabalho, do contrário disso não se iluda”. Eu seguia miúda e desenvolvente sob aqueles reluzentes olhos castanhos, lúcido nos caminhos. E continuava… “há que se honrar o dom, há que se ter merecimento”.

Brasileira, professora de ioga, mineira, mestiça e de ações cidadãs, Divalda me ensinara a dar correspondência de motivo às aptidões. “Ai daquele que não der caminho aos seus talentos verdadeiros, esses o devorarão por dentro. Erva daninha, filho tratado como se mal querido fosse, será o infortúnio da casa”.

Mas mãe o que é o dom? “Dom é aquilo que se é muito bem, competentemente, mas sem querer, sem se fazer força para ser; dom é aquilo no qual se trabalha firme mas sem doer. Não tem hora extra, porque dom é trabalho que se mistura ao prazer de viver. Porque como o dom é o que é, poderoso assim, pede correspondência, exige que você aceite a sua vocação e dê estrada a ela. Já vocação é a disposição pra se peregrinar na rota daquela inclinação: com as dores delas, com os mitos e as ilusões dela, com os espinhos, os acertos e a esperança certa das pétalas”.

É  mãe, o dom é o que a gente é mesmo, e uma vez entregue a ele é fácil sê-lo. Difícil é negá-lo como ofício, identidade e trabalho. O dom tem categoria de árvore e goiaba não dá em mangueira. O que dá em mangueira só pode ser manga.

Durante a vida, tem sempre alguém te dizendo uma forma esperta de ganhar mais dinheiro, uma forma que não considera uma reflexão sobre nossas verdadeiras aptidões, como se não fosse possível colher o pão e o ouro através de nossas intímas riquezas. E é por isso que tem médico com espírito de policial, garçom com talento de gari, industrial que queria ser cantor, advogado que queria ser ator, presidente que deveria ser soldado, artista que deveria ser um excelente cabeleireiro. Penso que teríamos uma nova e sã cidadania, se nossas carreiras e destinos viessem dos nossos verdadeiros dons respeitados. Mas esses coitados por falta de correspondência, por descaso ou por desistência, viram caroço, viram couraças, viram tumores da infelicidade e da incompetência.

Honre o dom, dizia minha mãe, seja feliz e tenha paciência.

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