Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 077 | Ano 8 | Nov 2003
ENTREVISTA | WALTER GALVANI

César Fraga

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Fotos:René Cabrales

Fotos:René Cabrales

O Patrono da 49º Feira do Livro, o jornalista e escritor Walter Galvani, do alto dos seus quase 70 anos de idade e 50 de jornalismo, concedeu esta entrevista exclusiva ao Extra Classe durante a montagem dos estandes na Praça da Alfândega, entre marteladas e interferências dos passantes, que volta e meia tentavam entrar na conversa. Desde 2000, nosso entrevistado passou também a fazer parte de um clube seleto, o dos escritores que freqüentam as listas dos mais vendidos. Seu livro de estréia, Nau capitânia, foi a primeira biografia de Pedro Alvares Cabral. Com ele, Galvani conseguiu prestígio e premiações dentro e fora do Brasil, além de receber um dos mais importantes prêmios literários da América Latina, o Casa de Las Américas, em Cuba. No momento, o escritor está lançando Anacoluto, do princípio ao fim (Editora Record, 255páginas) sobre o qual fala nesta entrevista, e prepara uma nova publicação com suas memórias jornalísticas sobre os últimos 50 anos da vida política e social brasileira.

Extra Classe – Seu livro anterior, Nau Capitânia, ficou na lista dos dez mais vendidos de 2000, e recebeu vários prêmios, inclusive, o Casa de Las Américas, em Cuba. O senhor esperava esse tipo de repercussão?
Walter Galvani
– Não, não esperava. Mas tem uma coisa que eu esperava, continuo esperando e que ainda não aconteceu. Me refiro ao interesse do governo brasileiro por um tema absolutamente interessante e fundamental para o país, e, de certa forma, ao interesse em partilhar a idéia de debater os 500 anos da descoberta oficial do Brasil para valer, entrar no fundo no assunto: o que foi, por que foi, quem foram os portugueses, quem era Pedro Álvares Cabral. No entanto, nada disso foi feito. O governo do presidente Fernando Henrique Cardoso o que fez? Soltou meia dúzia de foguetes, brigou com os sem-terra, com os pobres dos índios que ele encontrou em Porto Seguro e encalhou um navio. Foi tudo absolutamente ridículo. E nessa eu fiquei praticamente sozinho. Infelizmente, claro, o livro tinha que ter o nome de Nau Capitânia, até porque não se sabe o nome do navio de Pedro Álvares Cabral. Não ficou registro na história. Então, de certa maneira, eles emporcalharam a memória da descoberta oficial do Brasil, porque o que eles tinham que fazer era discutir a história. O meu livro tinha o objetivo de estabelecer um patamar inicial de debate, de discussão séria sobre isso, mas eu realmente não tinha expectativa de ganhar prêmios. Como ganhei, afinal isso acabou dando visibilidade para mim como autor do livro, me propiciou a oportunidade de uma edição em Portugal, me proporcionou uma oportunidade rara e belíssima de ir a Cuba receber o prêmio, enfim, me projetou nacional e internacionalmente. Tudo isso foi surpresa.

EC – A escola teria algum papel nesse debate?
Galvani
– Teria de ter, pois é uma coisa fundamental. Eu fui convidado para visitar algumas escolas. Conversei. Discuti com alguns alunos, mas não na proporção em que deveria ter acontecido. Evidentemente não teria de ser só comigo. É lógico. Nem haveria como. Mas a questão que teria que ter sido proposta, digamos assim, pelo Ministério da Cultura ou MEC não aconteceu. Eles trabalharam em cima de turismo, como sempre, tentando levar gente para Porto Seguro, que é praticamente quem se beneficiou com a coisa faturando com turistas. O projeto encalhou junto com o barco. Agora, graças a Deus o meu livro navegou e continua navegando. Está na quinta edição no Brasil, o que significa que o meu projeto estava certo. Errado estava o deles.

EC – O que essa edição significa? Quantos exemplares foram vendidos?
Galvani
– Quase 50 mil. No Brasil uma tiragem dessa é altíssima; ele ficou em 7º lugar em 2000 entre todos os livros mais vendidos no país, segundo levantamento da Revista Veja, incluindo livros de auto-ajuda, Paulo Coelho, Luís Fernando Verissimo.

EC – Desde quando o senhor ambicionou ter uma produção regular de textos não jornalísticos, mas literários?
Galvani
– Quando eu comecei a me convencer que estava na hora, por uma questão até de idade e de tempo no jornalismo. Me convenci que estava na hora de cavar um desvio, um atalho na minha carreira, uma nova perspectiva, montar uma possibilidade maior e diferente para seguir adiante. Todo mundo que trabalha em jornal, rádio ou televisão sabe a exigüidade das possibilidades da carreira no país. Você se desemprega em um veículo e até conseguir outro …meu Deus do céu. Afinal de contas, já passei dos 60 anos. Não posso brincar com isso e a literatura, de qualquer forma que eu a consiga praticar, vai sempre me possibilitar trabalhar enquanto eu estiver com o cérebro funcionando. Nem sequer um problema físico de locomoção vai me atrapalhar. Somente um problema cerebral para me tirar do páreo.

EC – O senhor falou em problemas de saúde mental. É inevitável aludir ao seu novo livro, Anacoluto, o seu primeiro romance, que também trata disso.
Galvani
– Eu fiz uma novela cuja ação se passa em Canoas, cidade muito nossa conhecida, onde eu nasci. Mas essa novela é baseada em fatos absolutamente reais, eu mudei alguns nomes de personagens, mas isso foi uma despolarização completa para mim porque, quando eu cheguei em Canoas pela primeira vez depois do livro publicado, todo mundo já sabia quem era quem. Não é propriamente um trabalho de ficção. Claro que eu trabalhei um pouco, encorpei determinados personagens, determinados episódios. Não se trata de ficção pura. Já o Anacoluto, personagem central, este sim é ficção pura. Tudo dele nasceu da minha cabeça.

EC – O próprio nome do personagem, Anacoluto, remete a uma figura de sintaxe, que consiste justamente na ruptura da ordem lógica da frase, estabelecendo uma metáfora da condição do personagem, do mal que o acomete, além de uma série de questões de cunho filosófico que o cercam. Gostaria que o senhor explicasse melhor tudo isso.
Galvani
– Quanto à figura de sintaxe, é uma figura simpática. O próprio pai achou bonito aquele nome e aplicou no filho. No que se refere ao cunho existencial do personagem, ele padece de anacolutismo, como se ele fosse a própria figura de sintaxe, ou seja, ele avança e recua, muitas vezes, aparentemente não tem lógica o que ele está fazendo e assim isso é um anacoluto, uma frase que tem a sua estrutura lógica rompida embora ela mantenha a lógica da idéia. E claro que ao longo da vida dele há um caminho, digamos assim, ineludível que é ou vai ser, e é o que acontece com o personagem. Mas ele, muitas e muitas vezes, no meio do caminho, fica indeciso, recua, acaba não fazendo o que havia se proposto a fazer, então é um anacoluto perfeito; é como você disse: uma metáfora da vida do próprio personagem.

EC – Seu livro vai na contramão da produção literária gaúcha? Em que sentido?
Galvani
– Olha, no dia do lançamento oficial, o escritor Alcy Cheuiche fez questão de frisar que o meu Anacoluto é um anti-herói e que o livro vai contra a corrente da produção literária gaúcha. É costumeiro no Rio Grande do Sul o romance épico, a promoção de grandes heróis que são capazes de feitos extraordinários. Acho eu que os capazes de feitos extraordinários ficaram lá da metade do século 20 para trás. A Revolução Farroupilha foi no século 19. Hoje, nós nos defrontamos com milhares de batalhas que talvez exijam que o homem do dia-a-dia, que o homem comum seja muito mais valente que o Bento Gonçalves, mas os problemas são diferentes, evidentemente. Então eu resolvi mergulhar no eu, no íntimo da personagem. Fazer com que ele então narrasse a suas dificuldades, os seus problemas, a batalha pela vida que ele leva, chegando ao ponto de se defrontar com uma doença grave, tudo isso está na história do meu Anacoluto.

EC – E quem são os Anacolutos?
Galvani
– Olha, tu encontras um a todo momento. Já o Anacoluto do livro é um produtor rural, que não produz nada, porque ele tem um campo e vive do arrendamento desse campo. E ele não tem mais coragem nem condições técnicas de dar seqüência ao que o pai dele fez, que era a criação de gado. Então ele arrenda o campo e fica vivendo daquilo. Se você percorrer o Rio Grande do Sul, vai encontrar centenas, talvez até milhares de Anacolutos que evidentemente se opõem a qualquer tipo de mudança no campo, que para ele vai ser uma coisa extremamente desagradável. Se você falar em Reforma Agrária, ele sai correndo. Não quer ouvir falar nisso. Na metade sul do estado é muito comum este tipo de personagem, que arrenda o campo, vai se sentar no clube da cidade bebericar o seu aperitivo e falar mal dos caras que passam por ali; dar uma olhadinha nas mulheres que estão circulando e assim ele vai levando a vida. Bom, o Anacoluto no fim é resgatado, digamos assim, por uma mulher, absolutamente fora do comum. As mulheres são capazes de fazer isso com os homens, ou seja, fazer o cara cair na realidade. Elas são mais objetivas do que os homens. Então de repente aparece na vida dele uma mulher que organiza tudo, enfim, não resolve, mas tenta.

EC – Todos temos um pouco de Anacoluto?
Galvani
– Eu acho que sim, porque às vezes a gente tem a tendência de continuar acomodado, principalmente quem tem um determinado traço de caráter de: “Ah, não vou me matar muito, vou deixar as coisas acontecerem”. Anacoluto é uma pessoa que todo tempo deixa de fazer, vacila.

EC – Como o jornalista e cidadão que presenciou a história dos últimos 60 anos, de que forma o senhor situaria e avaliaria o atual momento político brasileiro e mundial?
Galvani
– Em relação ao Brasil, estamos vivendo um momento muito perigoso e absolutamente vinculado com o que tem sido a história do Brasil desde a sua independência. Politicamente o país era uma colônia de Portugal, mas em 1822 se liberta por obra e graça de um príncipe português. Todo mundo sabe disso, ele proclamou a independência e estabeleceu um império absolutista. Ele era um prepotente, D. Pedro I, e era um homem que não tinha absolutamente nada de democrático. Bom, você vai me responder que no século 19 isso era comum, claro que era comum; D. Pedro era excepcionalmente um homem talhado para o poder, para a tirania, copiando, é claro, o modelo que ele conhecia do próprio Portugal. O D. Pedro II já foi mais democrata, nasceu no Brasil, quer dizer, ele foi contagiado por essa sociedade mais aberta, em que o processo de evolução social é mais possível, o que torna realmente as pessoas mais tolerantes e com isso tivemos uma belíssima experiência parlamentarista, o que não quer dizer também que tenha sido uma maravilha de democracia, mas foi um pouco melhor do que o seu antecessor. No entanto, em 1889, D. Pedro II foi derrubado por um golpe militar que instalou uma ditadura, Deodoro e em seguida Marechal Floriano Peixoto e seguiu-se este modelo de absolutismo, de paternalismo e de procedimento antidemocrático toda a primeira República. A maioria dos presidentes daquele período inicial até 1930 governaram o país em estado de sítio, foi um horror. Aquela primeira república vê como esta marca está muito presente no comportamento brasileiro. Aí, veja você, em 1930, Getúlio Vargas chegou no poder, foi maravilhoso o movimento. Só que chegou ao poder e não quis sair mais. Em 1932 esmagou a Revolução Constitucionalista, de São Paulo, em 1934. Criou uma constituição conhecida como a “Polaca” , um modelo de autoritarismo. Em 1937 implantou o Estado Novo, copiando o de Portugal, onde o ditador já era o Salázar, com um regime que tinha esse mesmo nome, Estado Novo, imagine só. Getúlio permaneceu no poder até que terminou a Segunda Guerra. Houve então uma lufada de democracia pelo mundo e a ditadura caiu junto, mas logo em seguida o próprio Getúlio foi eleito e acabou empurrado por uma renúncia e aí sabemos todos a história que começou dali. Digamos que esses são os últimos 60 anos, a partir dali, tivemos uma rápida experiência democrática com Juscelino Kubitschek e tivemos a renúncia do Jânio Quadros e o início da ditadura militar que durou 22 anos. Ora, nós não estamos acostumados com democracia nesse país e o nosso modelo é esse autoritário, prepotente e paternalista. E eu acho que o modelo de um partido extremamente poderoso e quase único é muito perigoso.

EC – O senhor se refere hoje ao PT?
Galvani
– Eu acho que o PT é uma bela organização partidária, mas tem que cuidar porque esse problema não é do PT, esse problema é do Brasil. Os brasileiros é que têm essa mentalidade. Quem é que disse que o Lula vai resolver todos os problemas? Temos essa herança, essa cultura política e não dá para achar que um presidente vai resolver tudo. É impossível. Um país que, na verdade, mesmo com os recursos que tem, é subdesenvolvido, possui problemas imensos. Como se resolver tudo de uma hora para outra? Bom, aí fecha o aparelho do partido em torno do cara e isso então se torna muito preocupante, porque o modelo é o mesmo, só mudaram as letras, que é o que o Fernando Henrique Cardoso fez durante o seu duplo mandato eleito e reeleito e não aceitava crítica. Tomou posse pedindo que a gente esquecesse o que ele havia escrito como sociólogo. É uma barbaridade, de repente, alguém no poder do Brasil achar que é imperador. Então, ao menos deixe crescer a barba (risos).

EC – Se o patrono da Feira tivesse algum poder de mudar algumas coisas em Porto Alegre, no Brasil e no mundo, o que o senhor gostaria que os poderes lhe permitissem fazer?
Galvani
– Bom, para ser bem prático, eu começaria arrumando a Praça da Alfândega, que eu acho um absurdo ela ser habitável e freqüentável somente durante a Feria do Livro. Aqui há tantos trabalhadores, tanta gente honesta que convive, evidentemente, com todos os desníveis da sociedade. Eu num dia desses assisti a uma cena lamentável. Cheguei aqui e vi alguns policiais examinando uma prostituta para ver se ela tinha algum tóxico ou coisa parecida, e eu me aproximei e perguntei aos policiais: “O que vocês estão fazendo?” Ah! Nada, isso é uma inspeção de rotina. Mentira, eles estavam dando uma blitz, porque aqui no Brasil não se faz nada por rotina, estavam dando uma blitz para chamar atenção, para serem fotografados em ação e para que isso repercutisse como se fosse, digamos, uma grande atividade permanente. E pergunto mais, examinar prostitutas na praça da Alfândega vai resolver a questão? Por que não resolvemos a questão que gera a prostituição, a pobreza? Muitas dessas crianças que estão na praça nasceram aqui. Então, se o patrono da Feira do Livro tivesse um poder executivo, eu começaria com um projeto permanente para o cuidado da praça e instituiria aqui cursos ao ar livre, oficinas, presença da sociedade produtora procurando se integrar com essas pessoas que estão marginalizadas e transformar isso aqui realmente no que tem que ser, o coração efetivo de uma cidade de alta qualidade de vida que teria de ser Porto Alegre.

EC – O senhor falou em cenário, já se referiu, já metaforizou em algumas ocasiões o pampa.
Galvani
– É verdade, o pampa está muito presente na obra de todos nós, que moramos e escrevemos no RS. O pampa é um mar, é um mar verde, o pampa está de tal maneira impregnado no nosso dia-a-dia, que sonhamos com o pampa mesmo quando moramos na cidade. Mesmo os que nunca viveram no pampa têm essa relação. Eu hoje moro numa cidade onde o pampa começa no que termina a terceira rua, digamos assim, eu moro em Guaíba e o pampa começa logo ali. Quando eu vou e venho de ônibus ou de carro de Guaíba até Porto Alegre e vice-versa, eu passo por uma zona, ao olhar para um lado eu vejo habitações, do outro lado eu vejo o pampa porque é ali que começa o pampa. É ali que começa, daí a presença disso no nosso imaginário, na nossa vida, no nosso dia-a-dia. É muito forte realmente e sob todos os pontos de vista, do ponto de vista metafórico, do ponto de vista real e objetivo. Nós tiramos toda a estética do pampa, tiramos até a nossa culinária do pampa. Tudo nasceu com este mar que nos une. Aí é que está a Argentina e o Uruguai. Claro que modernamente por idiotices mil, criou-se uma rivalidade que na minha opinião tinha que ficar limitada aos campos esportivos e nada mais do que isso. Eu acho saudável até uma competição dentro de um gramado de um jogo de futebol, mas na verdade nós acabamos transportando isso para o terreno da economia, de qualquer tipo de atividade em que nós deveríamos estar unidos, para juntos enfrentarmos o nosso subdesenvolvimento, os problemas que sempre nos oneraram. Então o pampa é isso, a maioria dos escritores do RS, num momento ou noutro, estão escrevendo sobre o pampa, você encontra a presença do pampa, da atividade da indecorrente, da criação de gado, do tipo de educação, do comportamento, do pensamento, da formação moral, do caráter, isso está impregnado em todos nós.

EC – Por que o senhor escolheu Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar para abrir o Projeto Fahrenheit 451, na Feira?
Galvani
– Bom, em primeiro lugar, Adriano deixou ao império romano uma língua maravilhosa cheia de nuanças, de valores culturais, que até hoje nos serve. Nós somos todos falantes latinos, e o português, graças a Deus, é a 5a língua mais falada no mundo, é claro que descendemos do latim bárbaro, latim vulgar que era falado pelas legiões. Além disso, eu tenho, lá no fundo, uma admiração por toda essa civilização romana. Mais do que isso, tenho uma admiração especial por este personagem e acrescentei a minha admiração por ele uma verdadeira devoção pelo trabalho de Marguerite Yourcenar que pesquisou durante 27 anos para escrever este livro. Eu acho que, se uma pessoa se dedica durante 27 anos a uma tarefa, no mínimo ela vai deixar uma contribuição razoável para a sociedade, ela não estava brincando, ela foi muito séria nisso aí.

Quando eu li pela primeira vez, eu disse, bom, eu não gosto de sublinhar um livro porque depois se eu empresto para alguém, eu automaticamente estarei influenciando aquela leitura. Então eu costumo copiar numa folha separada, página tal, assunto tal, as primeiras palavras do tema. Modernamente, com o computador eu passei a botar dentro do da memória esse tipo de levantamento. Só que com Memórias de Adriano eu já fiz uma, duas, três vezes, já fiz pela quarta vez e cheguei à conclusão de que se eu continuar fazendo, vou transcrever um livro inteiro para dentro do computador, porque ele realmente é totalmente assinalável.

EC – Partindo de uma citação sua: “É preciso contestar todas as verdades estabelecidas”, o que o senhor quer dizer com isso?
Galvani
– Uma coisa que acontece muito é as pessoas acreditarem piamente no que está impresso? Quem é que disse que é para acreditar no que está impresso. Quem é que disse que um jornal, uma revista ou um documento instituído por alguém ou uma instituição, por uma entidade, por um sindicato, por um banco… – quem é que disse que aquilo é verdade? Qualquer uma dessas entidades ou instituições está defendendo os seus interesses e os seus interesses moldados naturalmente do corporativismo da categoria, da classe ou do tipo de instituição que aquilo integre ou represente. Quantas vezes nós nos deparamos com notícias falsas, notícias implantadas com objetivos outros, notícias tornadas públicas antes que realmente tivessem condições de receber o tratamento adequado, mas que passam a causar efeitos, transtornos, danos muito sérios. Pior, as pessoas passam a acreditar nisso, como acreditam nas igrejas, na palavra de um papa, na infalibilidade dele, no exército… Acreditam em tudo que dizem por aí. As pessoas são muito crentes

EC – Dá para se dizer que a imprensa sofre de um certo Anacolutismo?
Galvani
– Eu acho que a imprensa sofre do seguinte: da sua deficiência econômica e financeira, porque, se os jornais vivessem da circulação e não da publicidade, a conversa era outra. Se os jornais dependessem da venda avulsa exclusivamente, se a população é que sustentasse efetivamente as empresas jornalísticas, os interesses da população haveriam de se sobrepor. Agora, é claro que as empresas têm que fazer uma ginástica econômica e financeira bastante compreensível, não estou dizendo que não seja compreensível, mas que explica bem qual é o tipo de sociedade em que nós vivemos. Para que tu possas manter um jornal, tu tens que ceder aqui, ceder ali adiante; então a minha pergunta é essa: Vamos acreditar em tudo que está impresso? Acho que não, né? Vamos primeiro aprender a ler o que está saindo, saber por que saiu, quem é que está dizendo o que tem por trás daquilo e, quem sabe lá, se não é apenas a ponta do iceberg do que está sendo publicado.

EC – E o próximo livro?
Galvani
– No ano que vem vou fazer 50 anos de jornalismo e 70 de idade e vou publicar um resgate deste período todo. Já estou trabalhando nisso.

EC – É um livro de memórias?
Galvani
– Memórias jornalísticas, digamos assim, não vai ser a minha história pessoal.

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