Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 078 | Ano 8 | Dez 2003
LUIS FERNANDO VERISSIMO

A invasão do Iraque foi uma aventura irresponsável de um presidente mentiroso que só aumentou o perigo do terrorismo e em que só vão ganhar os empresários amigos do governo presenteados com contratos milionários para tentar recuperar um país que, cada vez mais, se parece com o atoladouro do Vietnã. Quem diz isto não sou eu, um perigoso bolchevique, nem qualquer outro previsível antiamericano, mas os candidatos do Partido Democrata à Presidência dos Estados Unidos, sob aplausos entusiasmados da platéia, nos sucessivos debates que têm feito. Muitos dos candidatos apoiaram a guerra no começo, mas hoje todos caem em cima de Bush, Cheney, Rumsfeld e os falcões conservadores que levaram o país a este desastre.

Como a economia americana dá sinais de estar melhorando e a maioria do público eleitor, dizem as pesquisas, ainda apóia Bush e a sua guerra, nenhum dos democratas que se apresentaram parece ter muita chance nas eleições que vêm aí. O que pintou como o mais elegível, Wesley Clarke (herói de guerra, boa-pinta), não tem se saído bem nos debates e tem um olhar paradão meio assustador. Mas a campanha presidencial esquenta a controvérsia sobre a guerra que divide democratas e republicanos, conservadores e “liberais” e a imprensa, onde analistas e colunistas de um lado e de outro se xingam mutuamente como não faziam desde – bom, desde a guerra do Vietnã.

A resposta dos republicanos às críticas dos candidatos democratas é sugerir que quem é contra Bush é a favor do terror e quem questiona o que foi feito no Iraque é antipatriota. Reação indignada dos democratas. Golpe baixo. Os republicanos batem mais. Seria divertido ver de fora se não estivesse em jogo, na paróquia americana, a saúde do planeta todo.

Trazendo o assunto para o quintal: a acusação de uma espécie de antipatriotismo também espera quem apoiou e agora questiona o governo esquizofrênico do Lula. Até que ponto a crítica decepcionada ao governo é cúmplice involuntária de quem não quer o sucesso da esquerda no Brasil, mesmo de uma esquerda que diz que nunca foi? Mas enfim, já é folclórico que a esquerda brasileira sempre se divide e por isso perde todas. E, se enquanto lá em cima decidem as nossas vidas, o que nos resta aqui na periferia é o folclore, só estamos cumprindo nosso papel histórico.

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