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Nº 078 | Ano 8 | Dez 2003
ECONOMIA

Liège Alves

Por causa do aumento dos juros para conter a inflação, iniciada nos últimos meses de 2002 e seguida até maio, a economia nacional permaneceu praticamente parada ao longo deste ano. “Foram as exportações que conseguiram manter certo dinamismo no País, porque o mercado interno passou o ano completamente estagnado”, relata o economista da Fundação de Economia e Estatística (FEE), Antônio Carlos Fraquelli.

Essa realidade de estagnação, no entanto, parece fazer parte do passado. Os juros, que já chegaram a 26,5% este ano, devem encerrar dezembro em torno de 16% a 17%. Além disso, outros fatores devem favorecer os brasileiros em 2004. O principal deles é o bom desempenho nas contas externas em 2003, que poupou o Brasil de novas dívidas substanciais em dólar.

Graças ao megasuperávit comercial de 2003, ou seja, o diferencial entre a exportação e a importação, o País fechará as contas externas com facilidade. Será o primeiro superávit em transações correntes desde 1992. Na prática isso significa que, neste ano, o Brasil recebeu mais dólares do que enviou ao exterior para os pagamentos de juros das dívidas, juros e lucros das multinacionais. Não vai depender de dinheiro emprestado, pois conseguiu os dólares necessários para o acerto das operações vendendo mercadorias no mercado internacional. “É um resultado a ser comemorado, no entanto, é preciso lembrar que esses US$ 23 bilhões de superávit não devem se repetir em 2004”, afirma o economista da Universidade de São Paulo (USP), Mário Possas.

Esse cenário ocorre porque parte das mercadorias que o Brasil vendeu para outros países deveria ter sido comercializada aqui dentro, mas a economia estava tão fraca que a falta de compradores obrigou os produtores a procurarem novos mercados para compensar. “Conforme o País volte a crescer, as compras internas vão se aquecer e os produtos que foram exportados poderão ser vendidos aqui dentro”, acredita Possas.

Além disso, com o País crescendo, aumentam as importações de produtos finais, de matéria-prima para a indústria e de máquinas e equipamentos para a produção. “Vamos fechar este ano com US$ 70 bilhões em exportações, e importar algo em torno de US$ 47 bilhões”, projeta o economista da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Fernando Ferrari Filho. Para 2004, garante ele, o esperado é que as importações cresçam um pouco, para cerca de US$ 50 bilhões a US$ 52 bilhões, e as exportações caiam para perto de US$ 68 bilhões. “O saldo total cai dos atuais US$ 23 bilhões para algo em torno de US$ 17 bilhões”, avalia Ferrari.

Com isso, o País terá que atrair capital externo para fechar as contas, o que implica mais um ano de juros demasiadamente elevados para os padrões internacionais. “Não será como 2003, mas a taxa ainda continuará alta demais para incentivar um boom de investimentos”, explica Possas. Ele lembra que a estimativa do próprio Banco Central (BC) é de que os juros reais fiquem em torno de 8% no final de 2004. Como a inflação esperada é próxima a 6%, isso significa que a Selic deve encerrar 2004 em torno de 14%.

Por incrível que pareça, nenhum dos especialistas se mostra preocupado com a taxa de câmbio para 2004. “Certamente é o indicador mais volátil, mas tem se comportado bem no último ano, e deve permanecer mais ou menos no mesmo patamar atual, girando em torno de R$ 3,00 por dólar”, projeta João Sayad, ex-ministro da Fazenda que ocupou o cargo durante o governo Sarney.

Vale lembrar que em 2002 o câmbio chegou próximo a R$ 4,00 por dólar, o que trouxe de volta o perigo de inflação e foi a razão da política de altos juros realizada pelo governo federal no primeiro semestre deste ano.

Expansão acompanhada de investimentos

Se a retomada econômica parece um consenso, as dúvidas pairam sobre a sustentabilidade desse desempenho. “Não adianta crescer em 2004 e depois passar mais três anos penando, é como dar um passo para frente e dez para trás”, relata o economista da Universidade de São Paulo (USP), Mário Possas.

Ele lembra que, em 2000, quando o Brasil cresceu 4,5%, vieram os problemas. “O apagão mostrou que não há infra-estrutura para sustentar uma economia dinâmica, portanto, eu realmente espero que o crescimento seja acompanhado de um plano de investimentos nesta área”, argumenta o economista.

Pelo menos no discurso, o governo mostra estar consciente dessa realidade. No início de 2004 deve começar a ser implementado o Plano Plurianual de Investimentos, que, de acordo com o projeto da União, prevê incentivos pesados e investimentos diretos em estradas, portos, armazenagem e energia.

Outra preocupação, revelada pelo ex-ministro da Fazenda João Sayad, é sobre como ficarão as contas externas, caso o País volte a crescer de forma sustentável. “As exportações vão diminuir, as importações aumentar, precisaremos de recursos de fora para fechar as contas em dólar. Como vamos obtê-los é que vai determinar nossa trajetória nos próximos anos. Será elevando ainda mais os juros para atrair capital externo? Sinceramente, espero que não”, relata o economista.

Para o economista da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Fernando Ferrari Filho, uma política favorável ao País seria justamente o contrário dessa. “Acho que em 2004 o governo deveria ser mais ousado na redução dos juros”, avalia o economista da Ufrgs. Ele lembra que, se a taxa real de 2004 for mesmo de 8%, esse percentual continuará desleal para o setor produtivo. “É uma taxa que atrai recursos para o mercado financeiro, pois é muito difícil que algum segmento do setor produtivo remunere o investidor nesse patamar”, explica.

Além disso, Ferrari defende controle cambial. “É preciso buscar um equilíbrio para que se consiga uma taxa que incentive as exportações e não afete as variáveis internas com grandes oscilações”, explica. Segundo ele, os países que mostram bons desempenhos nos últimos anos, como os asiáticos, o Chile e a China, têm ou tiveram controle cambial. “O Brasil não pode continuar eternamente exposto aos danos do capital especulativo que entra e sai com grande facilidade”, lembra.

Taxa de emprego e reflexos na economia

Se a tendência de queda dos juros permanecer, as vagas de emprego poderão se ampliar no próximo ano. Na avaliação do economista da Fundação de Economia e Estatística (FEE) Raul Assumpção Bastos, essas previsões favoráveis podem ser uma realidade se as condições macroeconômicas do País contribuírem. “Este ano foi desfavorável para o mercado de trabalho. O dado mais recente, que é da Pesquisa de Emprego e Desemprego da Região Metropolitana de Porto Alegre (PED-RMPA) de agosto, indica que, em comparação com o mesmo período de 2002, houve uma elevação da taxa de desemprego e uma redução do salário médio real e da massa de rendimentos”, diz Bastos. A boa notícia para quem está desempregado é que, com a aproximação do final do ano, tradicionalmente surgem novas vagas. “É uma situação sazonal”, complementa o economista.

Já o panorama para 2004 deverá ser um reflexo direto da perfomance econômica do País. “Não acredito que a economia tenha um desempenho muito expressivo, mas acho que será melhor do que em 2003 e o mercado de trabalho deve acompanhar essa tendência”, enfatiza Bastos. Ao comparar setembro de 2002 com o mesmo período deste ano, a pesquisa indica que a taxa de desemprego apresentou um crescimento de 14,8%.

Em relação a outras regiões metropolitanas brasileiras , os gaúchos ainda desfrutam de um panorama mais favorável. Em agosto, a taxa de desemprego (RMPA) era de 17,8%, enquanto Belo Horizonte registrou 21,0%; Salvador 28,8%; Recife 23,6% e São Paulo 20,0%. Mesmo em vantagem, a mesma pesquisa demonstra que, comparando setembro deste ano e do ano passado, ocorreu uma redução de 1,3% no nível de ocupação e um decréscimo de 11,1% no rendimento médio real dos ocupados na Região Metropolitana de Porto Alegre.

Estado mostra dinamismo
Como tem ocorrido nos últimos anos, o Rio Grande do Sul deve apresentar crescimento acima da média nacional. “A base produtiva do Estado é focada em dois segmentos que estão crescendo: o agronegócio e as exportações”, justifica o economista da FEE, Antônio Carlos Fraquelli.

Graças ao bom desempenho da agricultura, principalmente da soja, o Estado encerra 2003 na posição de segundo maior exportador do País, a frente de Minas Gerais e atrás apenas de São Paulo. “Em um ano de crescimento tão fraco, temos que comemorar os resultados, pois, graças à exportação, houve certo dinamismo na economia gaúcha este ano”, explica Fraquelli.

O Estado será um dos contemplados pelo conjunto de políticas de incentivo ao crescimento que o governo Lula deve apresentar nos próximos meses. Entre os setores eleitos como prioritários para o governo com apoio do Bndes, vários deles têm forte presença no Estado: móveis, calçados e mármores.

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