Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 078 | Ano 8 | Dez 2003
ELISA LUCINDA

Andarilha de ar e terra viajo muito nesse mundão pelas poderosas mãos do verso, da palavra e do palco. E aprecio os lugares como se fossem pessoas, ocorrem-me numa inscrição afetiva que se aninha logo no departamento da amizade. De todos os lugares quando me distancio digo lá. Mas de POA não. De POA falo aqui. Esteja eu onde estiver. Há uma geografia que se fez mapa em meu ser e arranjou um rancho bom para morar essa terra em mim. Uma das coisas de que mais gosto no tal do viver é de sonhar e de logo no seu devido porvir identificar o sonho quando ele acontece; flagrá-lo, sorvê-lo, degustá-lo no seu tão anteriormente desejado estado de presente, ele, que fora antes uma determinada e arriscada seta lançada ao futuro. Gosto de gozar desse triunfo. Desfrutá-lo. Pois morava nesse lugar o sonho do Teatro São Pedro. Sonho com ele desde que tentei várias vezes ter acesso ao incensado “vestibular” do “Porto Alegre Em Cena”. Nunca passei. Mas se passasse, pensava, um dia iria chegar ao São Pedro! E segui sonhando, é de graça sonhar, afinal. Bons e outros caminhos me trouxeram a essa terra:o primeiro foi o Parque da Redenção, depois as Feiras do Livro consecutivas das quais já me sinto tradição, os bares Ocidente,Terra a Vista, o Teatro Renascença, e, bem de acordo com meu sonho, tudo que eu fazia aqui dava gente; fosse segunda, fosse de tarde, estivesse chovendo,fosse ao ar livre, fosse ao ar-condicionado,tudo desembocava guaibamente num bom e certo rebolado. Até que chegara enfim o dia. Entrei pela primeira vez no Teatro cuidado ressuscitado por Eva. Um biscuit, um bibelô, uma jóia. Entrei, pernas bambas de uma emoção abusada, rara e boníssima de se sentir. Era uma estréia ali mas era também mais uma etapa de uma turnê,o que quer dizer rotina e novidade. Mas aqui era um experimento como se fosse terra natal. Quando passei por dez minutos, algumas marcas num ensaio relâmpago bati uma palma curta e breve de intensidade que ecoou tão limpo sobre as cadeiras vazias, que pensei logo uma quadrinha imbecil e linda: “Acústica é Teatro São Pedro, o resto é brinquedo”. E fui pro camarim: um quarto muito delicado com jarro de flores, cortina de pano, espelho, silêncio, chuveiro, toalha, um quarto para humanos! Um quarto humano e humaníssimo para atores. Quem cuidou sabe. Queria morar ali, passar uns dias hóspede da alegria e da arte,do museu etéreo de gestos, risos e lágrimas que ali se deram. Pois bem, o terceiro sinal quase, e eu copiava ainda a música de Vitor Ramil que minha cota de improviso e homenagem me permitiam. Entrei, senti o Teatro cheio, comecei e cantei lendo pela primeira vez uma música que só o meu banheiro lá no Rio experimentara escutar até então. O pessoal gostou, recebeu. E tudo fora a partir daí mais que meu povo, meus amigos, minha gente na minha sala, na minha casa adorando as comidas, os quitutes, os comes e bebes. A coisa rolou com intimidade, com as vontades de todas as ambas inúmeras partes. Sempre acho que quem faz monólogo é que trabalha com o maior e o mais inusitado elenco: a platéia. E algumas vezes parece que o grande elenco até ensaiara. Pois era como era. Uma bola invisível rolava do palco para a platéia e vice-versa deixando humilhada a quarta parede. Quarta parede é aquela, técnica e teatralmente falando, que, imaginariamente, estaria posta entre o publico e o palco. Como conceito ela já caíra em desuso há muito tempo em minha prática mas aqui, coitada, ficara literalmente sem ambiente. Eu estava em casa. Foram duas horas e quarenta minutos de amor bem-feito. Todo mundo gozou.

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