Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 078 | Ano 8 | Dez 2003
EXTRATO

César Fraga

juremir

Foto: René Cabrales

Foto: René Cabrales

“Espero que o polemista que sou e gosto de ser não atrapalhe minhas novelas. Uma coisa é fazer jornalismo ou crônica cultural; outra é fazer ficção. Meus personagens nada têm a ver com minhas brigas e posturas intelectuais”. É com este sentimento que Juremir Machado da Silva lança simultaneamente três novelas reunidas em uma coleção publicada pela Editora Sulina, chamada Mitomanias. Três histórias, três livros (Nau frágil, Ela nem me disse adeus e Adiós, Baby). Sexo, violência e obsessões são o motor das histórias vividas por personagens limítrofes, supostamente protegidos pela aparente normalidade, todos,porém, desfrutando das mesmas impossibilidades. Juremir também é autor dos romances Cai a noite sobre Palomas, Viagem ao extremo sul da solidão e Fronteiras; é colunista do jornal Correio do Povo, escritor, tradutor e professor da PUCRS. Veja abaixo conversa exclusiva que o EC manteve com o autor:

Extra Classe – O que levou o senhor a optar pelo formato de novela?
Juremir Machado
– Sou um apaixonado pelo gênero novela. Acho que é muito diferente do romance. Não é só uma questão de número de páginas. É, antes de tudo, um procedimento narrativo diferente. Para um tempo e uma cultura como a nossa, de aceleração e de gosto pela crônica, a novela me parece a própria síntese de um imaginário.

EC – Qual a motivação inicial para produzir esses três volumes exercitando vários estilos de narrativa?
Juremir
– Na verdade, eram três novelas para um volume só. Mas decidimos facilitar a vida dos leitores, separando cada novela em um pequeno volume, o que permite preços unitários mais baratos e autonomia para comprar uma e não as outras. Afora isso, o que me encanta na literatura é a possibilidade de experimentar tudo, de mudar de estilo, de ser errante, nômade, volátil. Eu me considero um escritor pós-moderno, apaixonado pela fluidez, pelo fragmento, pelo mosaico, pelo ecletismo.

EC – O senhor acredita na existência de uma literatura especificamente gaúcha? Como situaria o seu trabalho em relação ao contexto regional?
Juremir
– Tenho certeza de que, de algum modo, existe uma literatura gaúcha, assim como existem literaturas regionais por toda parte. Mas isso não significa impermeabilidade. Ninguém está isolado ou livre de influências. Eu já escrevi um romance, “Fronteiras”, considerado por alguns como regionalista. Mas, para mim, é outra coisa: um arranjo cosmopolita, ou pós-moderno, para temáticas em princípio, exclusivas do regionalismo gaúcho.

EC – Como o senhor definiria a cena cultural gaúcha atual com relação com à mídia?
Juremir
– É uma relação inadequada. Vivemos de simulacros. A mídia não é capaz de revisar seus critérios e deixa-se engolir pelos efeitos perversos. Na Feira do Livro, por exemplo, o mais vendido é colocado sob a luz total dos holofotes mesmo que seja um livro de receitas, o que é uma deturpação da idéia de destaque pela venda. Resultado: ficamos orgulhosos de uma feira cultural e temos como obras mais comentadas e compradas pequenos volumes culinários. Ninguém critica isso para não ficar mal com os outros. Temos uma mídia que só se interessa por indústria cultural e uma comunidade cultural que tem medo de criticar a mídia e aceita a simulação como verdade. Vivemos de ilusões.

EC – Qual o seu próximo projeto em livro?
Juremir
– Estou mergulhado num livro sobre Getúlio Vargas, que se chamará “Getúlio”. Montei uma biblioteca sobre Vargas e quase só leio sobre isso nos últimos tempos.

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