Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 079 | Ano 79 | Mar 2004
ELISA LUCINDA

Eu tinha dois sentimentos nítidos compreensíveis e temerosos: “Que maravilha, que glória isto aqui!” e “Meu Deus, e se for o último teatro da minha vida? E se eu morrer amanhã no hotel, no carro, no avião?”. Como o furdunço da indesejável enquete do meu peito era por todas de mim indesejável, ninguém ouvira, nem respondera. O espetáculo era tão universal e tão daqui que justificava, sem que eu tivesse previsto na canção inicial, e que a letra de João da Cunha Vargas e a música de Vitor Ramil apregoava, Deixando o Pago.

Emocionada, feliz, fui me dirigindo ao fim do espetáculo como quem se despede de um amor, como quem descola gostosa, embora prematuramente, a boca de um ardoroso beijo.

Beijei – como sempre faço quando a parada é boa – o chão do palco. Queria beijar com língua, queria que o beijo fosse demorado, queria que o beijo no outro dia me telefonasse, queria mais e já era epílogo, queria que não epilogasse, queria que não acabasse. No chão, com a boca colada de sinceridade e amor, ao proscênio, senti uns toques leves, macios em minhas costas. Alguma coisa de peso incomparável, de delicadeza de glosa, algum pano finíssimo em forma de hastes ou qualquer coisa de parecida leveza e carinho me eram arremessadas pelo público. Sei lá de onde vinham. Eram de cima do teatro, creio; vinham dos camarotes. Algum coletivo de dengos, algum feixe de gestos amorosos me caíam, me eram atirados em forma de muda, confidente e agradecida prosa. Eram rosas. Vermelhas lindas belas rosas. Nunca as tivera recebido aos ombros, nunca outra coisa tão bela e definitiva viera desmanchar e caducar a dolorosa inconsciente antepassada memória das chibatas no lombo. Nunca sequer as houvera sonhado. Aliás, aquilo já não era sonho. Era a sofisticação dele. Era a parte da mentira num discurso, não houvessem ali tantas testemunhas; aquilo era ficção certa de audiência imbatível, não fosse pura incontestável espontânea verdade.

Saí do palco aos prantos como quem sai de um leito de amor muito difícil de se despedir.

Não bastasse a tempestade de tudo, ainda veio bonança; não bastasse o plantio amoroso, ainda veio a colheita imediata no outro dia. Gravamos a tal música que, no dia seguinte, à capela, tocara na rádio. Fora um monte de outros projetos que nem conto agora. No Sul é assim!

Em uma só noite, voltei ao pago e compreendi que sem ter sido nunca daqui, daqui nunca saí, nunca o deixei e jamais o deixarei. Meu pago queridíssimo. E quando disser “olhei o pampa deserto e saí sem rumo certo”, quererei sempre dizer Passo Fundo, Pelotas, Bagé, Santa Maria e Porto Alegre. Quererei sempre dizer, parafraseando Guimarães Rosa, quando diz “sertão é dentro da gente”, que, apesar de toda metrópole, apesar da moqueca capixaba que me aquece a infância boa, apesar do Cristo Redentor que meu quintal coroa, apesar desse meu verão quente, o pago é dentro da gente.

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