Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 080 | Ano 9 | Abr 2004
NEI LISBOA

Êpa. Ó xênte. Ação. “Ah!” Agora sim. Não estava encontrando os acentos e as aspas. Troquei minha velha carroça por um computador que parecia só escrever em inglês, sem citações. Pelo jeito, faltava era configurar o cérebro. Finalmente adentro o mundo dos cês-cedilhas feitos com apenas um toque no teclado. Bacana. Resta convencer os dedos de que tudo mudou para melhor, alguns ainda se enroscam num nó cego, procurando o circunflexo lá na tecla antiga.

Enfim, a hipermodernidade que se cuide, aí vou eu com meus novos megahertz e megabytes, banda larga, DVD, CDRW e sei lá mais o quê (ou SLMQ). Para quem passou uns anos zen-budistas, sem sequer um aparelho de televisão em casa, é uma transformação e tanto. Não pretendo me converter a nenhuma Igreja da nova tecnologia, varando as madrugadas na internet, mas achei que era hora de dar uma conferida no caminho que essas virtualidades estão tomando, correndo os riscos inerentes e evidentes.

Por exemplo, dado o custo dessa parafernália, estou planejando alternar um ano pagando o cabo com outro pagando uma Unimed, o que é uma questão delicada. Difícil pesar a relação custo-benefício entre uma pedra no rim e uma programação ruim. Sem um plano de saúde, ninguém deveria expor-se ao teor de colesterol de certos canais e programas. E há ainda os problemas de visão que horas na frente das telinhas podem nos trazer. Isso, aliás, quem literalmente me apontou, do alto dos seus quatorze meses de vida, foi a futura herdeira desses cabos e chips.

O leitor supõe, certamente, que ao preparar a mamadeira das seis e meia da manhã para a Maria Clara, este zeloso e notívago pai o faz de olhos fechados. Verdade. Porém, no ato de entregar o desjejum à reclamante esfomeada – e debruçada na grade do berço feito torcedor da coréia –, é forçado a abrir ao menos um deles para se certificar de que tudo corre bem, antes de dar a missão por cumprida e voltar para a cama. Imagine-se, então, que nesse exato momento à pimpolha lhe ocorra estender o dedinho indicador à frente, em riste, com a espessura e a firmeza de um palito do China in Box. Pode muito bem acontecer de o dedo parar dentro do olho paterno. Donde se depreenderia um certo traumatismo, donde um certo desleixo com o assunto pode produzir um quadro inflamatório – donde fui parar no Hospital Banco de Olhos, fila do SUS.

Não é nada tão grave, um colírio já está resolvendo. Mas ficou a lição. Se com essa idade já estão nos metendo o dedo na cara pra avisar, melhor entender logo que não há banda larga que compense uma visão estreita e caolha.

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